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Quem, ou, o quê, matou Michael Jackson? A vida é muito complexa. A vida de uma pessoa é tão complexa, que fica difícil dizer isto ou aquilo sobre uma pessoa com quem não convivemos; e, com quem convivemos, as surpresas sobre sua personalidade ou atitudes às vezes podem nos deixam boquiabertos. O jornalista norte-americano Talese está no Brasil, convidado para a festa literária de Paraty, a FLIP. Em entrevista à Folha, ele diz que quem matou Michael Jackson foi a mídia. Quando Michael morreu, pensei o mesmo -- era só lembrar da entrevista maldosa de um jornalista britânico, que o colocou na parede o tempo todo e parecia francamente chocado com as respostas mais ingênuas e deliciosamente românticas sobre o que é ser criança, como conviver com crianças e por que não sermos agradáveis com elas e tratá-las bem e com aconchego (como, dar-lhes um leite morno, colocá-las na cama junto a nós e contar-lhes uma estória ou colocar uma música para ouvirem juntos). Essa imagem de aconchego retratada ingenuamente por Michael (pois o jornalista demonstrou ser cínico, desde o começo) não teve respaldo algum nem da mídia e nem de boa parte do público ou, claro, da sociedade norte-americana, que sempre teve uma imagem distorcida do que é o afeto e do que é a proteção familiar. Para o americano e boa parte da classe-média brasileira, se o seu filho vai numa van para a escola e se você (aqui no Brasil) enche a sua casa de grades e um muro alto que proteja a todos de um assalto, você está sendo bom pai. Nada de leitinho morno e contar estórias para trabalhar o lado simbólico da criança, sobre a cama, quem sabe ao lado de uma boa lareira -- como provavelmente poderia ter a rica casa de Michael -- ou aquela fraca luzinha de uma vela que pode intensificar a intimidade. Intimidade esta que, numa sociedade minada pelas notícias da mídia acerca dos pedófilos (não que eles não existam) é vista com maus olhos. Disse o jornalista britânico, então, colocando-se pessoalmente frente à questão: eu não me imagino deitado numa cama com crianças. Ou algo assim. O que provocou uma reação francamente de estupefação por parte de Michael: como não? É assim que devemos tratar as crianças! (Leia-se -- e vou aqui psicologizar um pouco: era assim que eu gostaria de ter sido tratado, pelo meu pai, quando fiz parte da banda Jackson Five, e não a pontapés e, à época, tão pequeno, com tão grandes e sérios compromissos, sem tempo para brincar). De qualquer modo, acredito que a mídia tenha uma parcela de culpa, se é que dá para falar assim, nisso tudo. Mas isso acontece um pouco com nossas vidas. Influenciamos pessoas, negativa ou positivamente, e somos influenciados por elas; no bem e no mal. Isto é a vida. Não estou justificando nada, mas isto é a complexidade da vida. Se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael (que teve na arte a possibilidade de fazer a sua catarse -- contrariando seu jeito manso, viam-se os gestos agressivos, a postura rebelde nas coreografias -- mas sempre com leveza e alguma elegância, muitas vezes, e com um certo brincar -- aqueles passinhos deliciosos de deslizar... -- em meio a isto tudo), repito, se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael, o fato de ter sido um tanto ingênuo em relação à essa mídia e, ainda as suas opções individuais, ainda que não deliberadas, pelas suas escolhas visivelmente bizarras do tipo adquirir um parque de diversões de proporções gigantescas, como Neverland, seu apego aos diversos, inúmeros brinquedos com que enchia/lotava sua casa, ou seja, tudo o que formou sua personalidade, também o levou a ser o adulto em que se transformou. Por que, como está em Peter Pan, é contário às leis da vida não querer crescer. (Isto está mesmo em Peter Pan ou é apenas a minha leitura distanciada da obra?) Quando viajo, compro alguns brinquedos para mim, como um ônibus miniatura típico de Londres, aquele de dois andares; na Escócia, um pequeno carneiro de pelúcia com uma boina escocesa, e por aí vai. Mas devo ter no máximo uns vinte brinquedos em casa, em muitos anos de maturidade. Não quero me colocar como exemplo nem parâmetro de nada, mas, sendo assim, digamos, no meu jeito razoável, médio , dentro dos padrões da chamada normalidade, de ser adulta, creio que como grande parte da população que habita o planeta, acho curiosa a personalidade de Michael. Um pouco mais que curiosa, talvez excêntrica, pois mais e mais adultos vêm comprando brinquedos para si mesmos (lembram-se da cama da Xuxa, plena de bichos de pelúcia?), principalmente aqueles que tiveram suas infâncias roubadas. Há cada vez mais filmes de animação para crianças, que servem para entreter adultos (os quais, aliás, não me atraem nem um pouco, em geral, com exceção de poucos). Os celulares vêm com jogos e cada vez mais estes são propagados e com sucesso, na internet, há os playstation e por aí vai. (E é sabido que os jovens têm resistido mais e mais a se emanciparem, hoje em dia). O homem ocidental adulto dos anos anos sessenta (e ali, com a revolução cultural, se extingüiu o hábito por completo) usava chapéu de abas nas ruas, terno, gravata, abotoaduras e lenço no bolso -- o que lhe conferia um ar... adulto. Passar a usar calças compridas era sinal de transição da infância para a maturidade. Hoje em dia, crianças, jovens e velhos usam jeans e boné; todas as gerações falam palavrão à vontade, não importa o lugar. Se algo veio em nome de uma maior liberdade de ação (os jeans, a não necessidade dos costumes formais), por outro lado houve um degringolamento nos hábitos que levaram e estão levando as pessoas a não se reconhecerem mais em suas faixas etárias e de comportamento (como a questão do palavrão, por exemplo), fechadas e determinadas pela sociedade através de hábitos, costumes. Há um lado positivo, aí, claro, pois foram abolidos muitos preconceitos. Por outro lado, há um exagero que é preciso notar, aparar e que, para mim, fica explícito numa Neverland -- para voltar a Michael Jackson. O assunto dá pano para manga. Mas tenho para mim que Michael, apesar de ter tido a oportunidade de ser pai e conviver com as crianças que "adquiriu", trazendo-as para sua convivência e fugindo da necessidade da companhia de outras que não de sua família, correndo o risco de ter que ser processado por pedofilia, ainda assim, algo para ele havia ficado incompleto. Como para todos nós, que lutamos diariamente para preencher aqui e ali nossos desejos e necessidades. Como para todos nós. Mas a fama parece pesar para alguns, que lidam com ela da mesma maneira com que expressam suas carências, ou seja, de uma forma um tanto transbordante. Esse transbordamento aparece no excesso de plásticas e remédios por que passou o cantor e dançarino. Tudo, em Michael, a partir de um certo ponto, começou a se tornar excessivo. Mesmo algumas de suas coreografias. Quem ou o quê matou Michael Jackson?
Escrito por isa às 12h33
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Em primeiro lugar, a notícia da morte de Pina Bausch. Pegou-me de surpresa. Eu gostava de seu trabalho e, claro, também o de Michael Jackson; coloquei para uma pessoa que o meu cérebro deve ter processado algo errado, pois este último, eu o achava imortal. Vejam só!  Leio no blog de uma escritora que ela está de malas prontas e indo para a Flip (o encontro ou, a festa literária de Paraty) e ainda diz em resposta a uma leitora que talvez vá para a cidade onde esta reside e quem sabe dará autógrafos ali. Oh meu Deus, são essas, mesmo, as pessoas que se sobressaem na mídia? Não, nada contra, esse oh meu Deus é porque penso em mim, que não gosto muito de sair do meu canto, a não ser para uma caminhada, um papo com um amigo e um café, ir ao cinema (sempre) e não muito mais que isto. Não viajo há exatamente dez anos, de tão caseira que me tornei. Em casa, assisto a dvds, vejo um pouco de tevê, leio e escrevo muito. Será que tenho remédio, digo, será que minha carreira de escritora vinga? Não vou aos bares da moda, perdi muito dos contados que costumava ter... e, no entanto, modéstia à parte, acho que estou escrevendo ficção cada vez melhor. (Um romance a cada dois anos está uma boa média, creio). Acredito que seja a prática, a dedicação, o tempo para reflexão, lapidar o texto. Isto conta para os editores, para a mídia? Não. Começo a crer, ou melhor, sempre soube... Se você não aparece... ora, você não aparece! Elementar, meu caro Watson! Mas, quem sabe, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura mesmo?  Stella. Venho aqui para falar desse filme imperdível. Francês. Vi no Cinesesc, aqui em São Paulo e, para meu alívio, numa sessão tranqüila. Lembrei-me de Ana Torrent, em Cría Cuervos, de Saura e mesmo da pequenina e ocluda miss Sunshine. Mas Stella é mais velha que a Ana de Cría Cuervos, por exemplo, pois é pré-adolescente e nem é tão desajeitada como miss Sunshine (aliás, esse filme não me cativou muito, não, apesar da persogem ser interessante e também fazer parte, como Stella, de uma família disfuncional). Mas Stella não é americana, como Sunshine (era este o nome da personagem?) e sim francesa; então, para mim, o fato de assistir a um filme em que a história de uma garota pré-adolescente, com todos os conflitos que essa fase da idade traz, num contexto europeu, me pareceu muito mais fascinante do que inteirar-me daquela outra, num contexto da sociedade norte-americana. A começar da época, anos setenta, muito próxima à minha década de pré-adolescência e lá estão os professores (a de inglês) insensíveis, os ídolos na vitrola, a necessidade de fazer amizade no recreio, se você não é muito popular... a procura da atenção dos pais e por aí vai... Os pais de Stella são donos de um bar na periferia de Paris e abrigam os sem-teto numa parte do terreno. Eles tocam o local em meio às farras, à bebedeira geral, ao jogo, ao barulho. Quem terá tempo para saber dos sucessos e insucessos, na escola e na vida, nas amizades e no amor, da pequena Stella? Ninguém. A não ser a nova amiga, de origem argentina e filha de intelectuais. Elas, então, se compreendem. Mas Stella, em geral, não se vê compreendida. E tem dificuldades, tendo recentemente chegado de uma escola inferior a que está então, de entender o que os professores dizem. Ela não tem o hábito da leitura, mas sua nova amiga, sim e Stella então, através da convivência com esta, começa a conhecer os clássicos e a apreciar os autores franceses. A primeira menstruação, o primeiro amor, o primeiro beijo roubado num assédio masculino, adulto -- o que a deixa revoltada, mas, enfim, a vida tem que prosseguir. Stella se torna entre agressiva e melancólica. E onde estão os pais, que nada vêem? Perguntamos, já incomodados na cadeira. Fechados em seus pequenos mundos e, quando solicitados, não parecem ter o menor jeito para lidar com os problemas por que passa a filha. Recomendo esse filme sensível e interessante. Não entendi como a Folha de São Paulo deu apenas duas estrelas; merece três ou até mesmo quatro. A maior qualidade deste filme, a meu ver, é a sutileza; mesmo sem ainda sabermos que a história se passa nos anos 70, aos poucos vamos tendo um painel da época através de rápidos signos: o poster do ídolo na parede, o programa de futebol na tevê, a calça boca-de-sino... Maravilha. Adoro isto. E que atriz, impecável -- aliás, todos os atores estão excelentes, sem exceção. Não perca Stella; é um bom, envolvente e delicado filme.
Escrito por isa às 15h34
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Quando do lançamento de Luz Silenciosa (para mim o melhor filme já lançado, até agora, nesse século, como já coloquei aqui), o crítico da Folha, Inácio Araújo, foi um dos poucos que viram ali um filme de valor, de primeira, uma verdadeira obra de arte, enfim. Aquilo de certo modo me surpreendeu, porque o Inácio Araújo a que estou acostumada é aquele que fazia sinopses sobre filme de Godard sem entender nada da proposta do mesmo e que só sabia reconhecer e louvar, em seus textos, filmes de Western, ainda que dos bons, como os do diretor John Ford. Pensei que houvesse mudado, aprendido mais sobre a arte do cinema e não apenas como analisar filmes; mas não; hoje deparo-me com um péssimo texto na Folha, que revela sua total ignorância sobre o cinema de Kieslóvski. E não perdeu a oportunidade para escrachar com os filmes (a seu ver) supostamente de arte. Creio que possivelmente é uma velha rixa sua (estou inferindo...) com aqueles que estudaram cinema nas faculdades, dominando portanto melhor a teoria e portanto alargando horizontes na hora de examiná-los, em detrimento daqueles, em que incluo Inácio, que apenas vêem o cinema a partir de um olhar mais informal e até certo ponto amador, intuitivo -- embora o referido crítico esteja na profissão há muitos anos. Eu me pergunto, aliás, como se manteve tanto tempo num grande jornal como a Folha de São Paulo; permito-me uma brincadeira: ficaria muito caro mandá-lo embora? E, permito-me uma conclusão séria: está tão difícil achar bons críticos, com formação sólida, como um Sérgio Rizzo? Ou, com uma prosa elegante, como o Calil (o que um dia dirigiu a Cinemateca e de maneira estupenda, no que eu chamo "os bons tempos da Cinemateca"). Há hoje, ainda, na Folha, uma pertinente matéria sobre Retratos da Vida, de Lelouch. Eu ainda não tinha estudado cinema, apenas os escolhia através de alguns critérios poucos, com a recomendação daquele amigo ou amiga que tinham o mesmo gosto que eu. Mas sempre vi muitos bons filmes, desde que cheguei a São Paulo e o primeiro deles foi (ainda bem!) Belle de Jour, levada pelo meu amigo Marquito (que tem excelente gosto para cinema, ópera, teatro...) até o antigo Belas Artes -- que possuía apenas três, mas maravilhosas salas, principalmente a do meio, enorme, confortável... Hoje em dia, eu tremo em pensar que o filme que quero ver está lá naquele cinema que se tornou nome de banco e cujas salas são pra lá de ruins. Enfim, há coisas piores, um outro se transformou em nome de palha de aço, o que é bem pior, a meu ver. E tinha um nome lindo: Cinearte... (Mas ao menos a sala 1 é uma das melhores de São Paulo, em termos de beleza e conforto. Adoro ficar esperando as lindas cortinas vermelhas e grossas abrirem, à minha frente, magicamente... -- como se eu estivesse no teatro. Dá um certo frisson!). Enfim, eu tinha lá meus parâmetros cinematográficos, respaldados pelo fato de andar com pessoas interessantes do meio teatral, colegas do Equipe e professores diqueiros do mesmo (foi no Equipe que vi os primeiros filmes de Eisenstein, levados pelas mãos de Serginho Groissman, então diretor cultural do colégio/cursinho). E foi quando fui ver Retratos da Vida; afora os últimos minutos do filme, com aquele final apoteótico, eu tinha achado tudo muito confuso e, a bem da verdade, tudo uma porcaria. Mas falava-se dele. Ficou famoso, à época. E hoje vejo uma pertinente matéria de Cássio Starling Carlos sobre o filme, que sai em dvd, corroborando o que, de certa forma, intuí: o filme é brega, cafona, ruim. Bem ao gosto mediano da classe média que vê o cinema apenas como entretenimento, que vai "pegar um cineminha", como se diz... após almoçar o macarrão com frango com a sogra e deixar as crianças com a tia. (Oh, que maldade, a minha, agora! E que clichê!). Mas é que eu odeio esse tipo de cinema, que não é cinema, é só um filme, um filme a mais e pronto. Todos voltam para casa e continuam suas vidas e zero de reflexão (se bem que tenho uma amigo que consegue tirar leite de pedra; já o vi analisando com certa profundidade um filminho desses enlatados, que costumavam passar à tarde na televisão, desses em série e que são transposições ruins de personagens mitológicos, como mulheres corajosas da época das cavernas e que deixam transparecer o silicone colocado no século XXI -- algo assim...). Analisando é maneira de dizer, mas não é que este meu amigo se entusiasmava com tais lixos? Enfim; vivas ao cinema inteligente e sensível e sacado de Kielósvski (infelizmente, para poucos) e zero para o comentário de Inácio Araújo; abaixo Claude Lelouch (e o cinema massificado) e vivas à crítica acertada de Cássio Starling Carlos. Em tempo: há tantos anos fazendo televisão, como é que alguns apresentadores da rede Globo, como aquele rapaz gordinho do Videoshow e Angélica, ainda não sabem como usar corretamente a concordância verbal na língua portuguesa? Ambos dizem a torto e a direito: ele é um dos poucos que ficou... ele é um dos que sabe... (OMG!). É de fazer doer os ouvidos... E depois vem essa história de não precisar de diploma de jornalismo para exercer a profissão, para coroar a mediocridade que assola o campo da mídia... Quem viver, verá. E, em tempo ainda: assistir ao programa de Marília Gabriela entrevistando Angélica foi uma das coisas mais aborrecidas a que assisti este ano; a moça tem um vocabulário precário, uma bagagem cultural tacanha, não sabe filosofar, navega em águas mornas demais. Prefiro-a como a apresentadora energética que é, do Videoshow. Seu programa aos sábados deixa a desejar, também. Desperdiça bons momentos com bons entrevistados em perguntas medíocres e sem imaginação. Pena.
Escrito por isa às 10h50
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Se uma vez eu disse aqui que o melhor filme deste século, até agora, chama-se "Luz Silenciosa", devo dizer que descobri o segundo. Isto é, eu já sabia, mas foi revê-lo em dvd que me fez ter tal certeza. "Dúvida", com a excelente Merryl Streep, é o melhor filme deste século, depois de "Luz Silenciosa". Quando fui vê-lo no cinema, não sabia que era uma adaptação teatral; revê-lo, lembrou-me os diálogos precisos e o corte seco das cenas que se vêem nas peças teatrais (nas boas). O pingue-pongue que é o diálogo entre a irmã, vivida por Merryl Streep e o padre envolvido na trama, é uma das melhores coisas que vi em cinema nesses últimos tempos. Carrega aquele tom de dramaturgia, os diálogos inteligentes e as falas são como flechas disparadas em direção ao alvo certeiro, lépidas. Maravilha de texto, não à toa ganhou vários prêmios quando foi encenado no teatro. O tema. O tema é primoroso. O título chama-se "dúvida", mas poderia chamar-se "intolerância". D. W. Griffith, um dos maiores cineastas que os EUA conheceram, dirigiu um longuíssimo filme com esse título, "Intolerância", para falar do tema -- e ainda tão em voga nos nossos dias, um século depois. Sim, infelizmente é um tema que continua em voga e só quem passou pela intolerância, além da discriminação e, pior, foi alvo de uma fofoca inconseqüente, que trouxe um prejuízo irreparável para sua vida, sabe disso. A parábola do travesseiro e das penas espalhadas ao vento, contada em sermão pelo padre, é muitíssimo apropriada. Excelente. Paralelamente, há o caráter duro e inflexível da irmã, cheia de certezas e respostas prontas, sempre arrogante e assertiva; insensível; indelicada. Trata os demais com desprezo, desconsidera-lhes a fala, o comportamento e está sempre impondo-se, dando a última palavra e fazendo-se escutar sem nunca, ela mesma, escutar os outros. É a típica autoritária. E o que nos revela aquele final? Por detrás de um autoritário, duro, mandão, há sempre alguém frágil, mas que não é honesto consigo mesmo e os outros e esconde tal fragilidade, como se com isso fosse sair ileso. Agem assim os hipócritas, também. Magnífico filme! De fato. Indeed. Interessante como a questão do tempo é trabalhada ao longo do filme, sempre a metáfora recorrente do vento. E como os diálogos são pontuados por eventos externos, que sinalizam aqui e ali e vêm corroborar a fala dos personagens. O jogo de persianas, na diretoria, denuncia quem está tentando ficar no poder. A lâmpada que queima; o telefone que toca. A ventania anunciado desastres, confusão, malentendidos. Temporal e, naquele final brilhante, a neve. A perda da inocência (mas não da candura e do sentimento de compaixão) da jovem freirinha, que de início amava incondicionalmente seus alunos, a ponto de não querer visitar o irmão seriamente doente para não largar sua classe; depois sua explosão em aula, sem um motivo aparente, com um aluno e mesmo a confusão de sentimentos ao ver o padre abraçar o garotinho negro, Donald, sem mesmo dar-se conta do que se passou -- ela, no caminho também da intolerância e do preconceito, cujo campo minado fora muito bem plantado pela freira superior. Esta, lutando pela virtude, quando de fato seu passado também continha erros -- mas tal humanidade ela não conseguiu ver no padre, que ao que tudo indica (minha leitura), apenas estava protegendo o que a mãe de Donald chamou de "sua natureza". Mas o padre é ético. Não satisfaz a curiosidade da freira superior e prefere ser afastado ao relatar a conversa com o garoto. O padre: amigável, moderno, camarada, piadista, fumante, as tais unhas compridas -- o comportamento anticonvencional demais aos olhos da madre superior. Intolerância: a incapacidade de conviver com o diferente. E tudo aos poucos se equilibra: a jovem freira descobre que seu amor aos alunos não é incondicional e que pode, sim, ir ver o irmão em sua cidade natal; a madre superior, esta provavelmente não dorme direito porque tem... dúvidas. Finalmente, um instante de fraqueza -- humano! Belo filme, enfim. Depois de "Luz Silenciosa", é o mais preciso em termos de diálogos, corte de cenas, roteiro, composição de personagens, a que assisti nesses últimos tempos. Recomendo...
Escrito por isa às 23h44
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A vida é justa -- ou injusta? Depende. Porque a vida não é um bloco de concreto maciço, mas sim cheia de nuances e, portanto, temos que pensá-la com seus altos e baixos deixando de lado o determinismo. Para mim, se fosse buscar na memória momentos de pico em que ela se manifestou dessas duas diferentes maneiras, eu traria à tona dois episódios marcantes: senti que foi justa, quando ganhei um importante prêmio literário, o maior do país, à época, concorrendo com centenas de aspirantes a escritores. Mas considerei-a injusta, dias depois, quando soube que meus contos não iriam ser publicados pela alegação de faltas de verbas, destinadas ao referido concurso. E é incrível perceber que o infortúnio marcou-me mais, em termos do que fez a vida seguir seu curso, do que a felicidade de ter ganho o prêmio e ver reconhecido o que considerava como um dos meus talentos. Talvez por imaturidade da minha parte, fechei uma porta, a da ficção (embora jamais tenha parado de escrever, ainda que, à época, de maneira bissexta) e resolvi partir para um curso de pós-gradução (aliás, maravilhoso e que, conforme soube, já não é o mesmo, sem aqueles maravilhosos mestres, como Haroldo de Campos (literatura/tradução) e Samira Chalhub (psicanálise/Freud e Lacan), entre outros -- ambos já falecidos. Ou seja, eu troquei a ficção pelos "fatos", pela teoria -- justo eu que não gosto muito dos fatos e prefiro a poética e o lado simbólico da ficção. Enfim... -- coisas da dona vida. Mas não quero falar de mim e sim o que motivou esse texto. Às vezes vejo novela, às vezes, não; passei mesmo anos sem ver novelas e, às vezes, volto a elas. Estou vendo, apesar de ter pego o bonde andando, a tal Caminho das Índias -- e acho engraçado como os personagens se entendem maravilhosamente bem ao conversarem uns com os outros, apesar de parte deles morar no Brasil e, outra parte, na Índia. É de uma incongruência total, mas quem liga? Bom, eu ligo. Mas, sem isto, não haveria novela, não é mesmo? Bem, haveria, desde que os personagens que se encontrassem tivessem aprendido a referida língua estrangeira alguma vez na vida; mas a autora não considerou isto possível e desprezou tal dado, talvez por acreditar que todos que vêem novelas não se fariam tais perguntas. Não seriam movidos pelo espanto. Isso é substimar o povo? Mas não é disso que quero falar aqui, fica para uma outra vez. Quero falar da minha amiga atriz que mora na Alemanha e faz trabalhos pesados para sobreviver -- uma mulher talentosíssima, dona de uma voz macia e forte, de uma dicção maravilhosa (tivemos a mesma professora, quando estudamos teatro juntas, que chama-se Milene Pacheco e dava aulas na EAD da USP e também no nosso curso em Campinas... -- onde andará?). Pois bem, através das aulas dessa professora, aprendi a reconhecer quando um ator tem uma boa fala, uma boa dicção, no campo da dramaturgia, ou não. E penso o quanto a vida foi injusta com essa minha amiga e o quanto está sendo injustamente "justa" com alguns atores dessa novela. Atores que jamais merecereriam destaque, estão em evidência. A mulher que faz a personagem que tem um filho com um indiano -- não a Juliana Paes, a "outra"; meu Deus, que raios de atriz é aquela? Que pronúncia de texto é aquela? Que fala mais amarrada é aquela? Ao mesmo tempo, temos, em contraste, a excelente Laura Cardoso, esta sim, sabendo dar ênfase às palavras, como bem pede um texto de dramaturgia. E não é que tenho visto a tal atriz que mal sabe pronunciar um texto em várias capas de revista? Ela é bem magra e parece razoavelmente bonita ao passar por bons maquiladores e cabelereiros. E tem feito sucesso em revistas sobre dietas, essas coisas... Mas ela é uma atriz ruim. E, no entanto, já a vi no tal Videoshow em cenas de outras novelas, também com papéis de razoável destaque. Eu me pergunto: onde está o bom senso de quem escala tais atores? Vide Vera Fischer, num mau momento, quando parece um robozinho dizendo as falas, sem expressão, nada... -- certo que o papel é pequeno e isso pode "travar" um ator ou atriz, mas, se são bons, mesmo sendo dono de uma única fala, ele se sai bem. Não sei bem como minha amiga não conseguiu um lugar ao sol no ramo da dramaturgia, já que bem merecia estar brilhando num palco ou em algo para a televisão, dado o seu talento. Não sei bem como Paulo Coelho chegou à academia de Letras. Não sei bem como um dia um Collor ou os militares chegaram à presidência. Não sei bem como Susan Boyle perdeu para um grupo medíocre de dança num concurso de talentos na Escócia. Mas o certo é que, sim, muitas vezes a vida é injusta e, com isto, podemos vislumbrar vistosas medalhas brilhando em um peito que, a meu ver, o seu possuidor nada teve de heróico ou merecedor, para que isto assim seja. E assim é a vida...
Escrito por isa às 12h11
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Existem pessoas que, para começar bem o dia, necessitam de uma boa caminhada ou uma ida à academia ou correr em algum parque. Eu não; eu preciso de algum estimulante intelectual, que me faça sentir que sou um ser vivo e pensante. Que reflete e opina sobre o que lê, ouve ou vê. E hoje eu acordei mais cedo pensando em ir caminhar, já que está frio mas sol e é preciso aproveitar enquanto os terríveis dias nublados e de chuva não chegam para valer. Que nada. Após o café eu li o meu jornal diário, mas nada ali me pareceu estimulante e as notícias sobre o vôo da Air France me pareceram velhas, se comparadas ao que vi no noticiário do dia anterior. Resolvo dar uma espiada na tevê, coisa que não faço durante a manhã e vejo que está passando o Saia Justa, programa de que gosto muito. E lá está Maitê falando da diferença de sensação e sentimento; que as coisas que apenas lhe dão sensação não lhe interessam e que ela está interessada em sentimentos. O mesmo se passa comigo (aliás, eu possuo uma identificação incrível com as idéias da Maitê, em geral). Lembrei-me de um ano em que, na faculdade, alguns colegas próximos me convidaram para ir ao Playcenter (acho que é assim que se escreve); achei a coisa mais boba e chata do mundo, aquela maquinaria toda tentando me provocar algum tipo de felicidade, através da sensação. Lembrei-me, também, de quando eu era criança e fui na casa de uma amiga de escola, no Castelo e logo de entrada havia três balanços -- aliás, foi a primeira vez que tomei contato com o gibi Os sobrinhos do Capitão, os quais li avidamente ao invés de participar da brincadeira de casinha. Enfim, as tais balanças; eu sentei e comecei a me balançar suavemente e veio um pentelho ou uma pentelha e começou a me empurrar violentamente, para que eu fosse até o alto e sentisse algo vertiginoso, como se aquilo sim fosse me dar o prazer dos prazeres. Eu só me senti muito mal e com medo. Creio que foi quando optei pelos gibis ali no corredor externo da casa. Enfim, eu não gosto de sensações -- não gosto de filmes de Batman, não gosto da maioria dos filmes do Tarantino, não gosto de corrida de automóvel, não gosto de nada que me tire o fôlego e sim que me deixe calma, no meu lugar e me deixe refletir sobre o que estou passando; não só refletir, mas sentir. O excesso de excitamente, também, nas pessoas, como pessoas ansiosas ou de uma alegria exagerada, me aborrecem. Claro que uma boa gargalhada é gostoso, claro que um exercício intelectual na base do "freje" é interessante -- eu adoro um embate intelectual! -- mas não gosto de sentir ali que tem algo competitivo, narcísico, exagerado, abusivo. Nada que fuja do objetivo da troca, simples e pura de idéias, no sentido de esclarecer ou enriquecer uma idéia e, por conseguinte, o outro e a nós mesmos. Claro que me exalto, ao defender minhas idéias, muitas vezes, mas em nome de uma verdade, ou da justiça ou algo assim. O que não se deve é invadir o campo do outro. Balançando-me sem o meu consentimento, nas alturas, eu me senti tremendamente invadida e quis parar com a brincadeira. Aquilo, aliás, para mim, não era brincadeira, mas uma coisa de desafio muito chata. Hoje a Maitê me fez lembrar desse episódio em minha vida e reafirmar, com base em suas palavras, que gosto mais do sentir do que das sensações, propriamente ditas.
Escrito por isa às 11h13
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EU NÃO TENHO JEITO!
avenida Paulista, em foto de Bia...
Eu não tenho vocação para robô; nem para a disciplina, a não ser que tenha a ver com um romance que esteja escrevendo e o qual esteja me cativando muito, com o qual esteja envolvida -- aí não tem nada, nem o melhor programa do mundo que me tire da rotina. No entanto, gosto de caminhar todos os dias -- mas há aqueles em que, quando acordo, mesmo fazendo o maior sol, como hoje, eu me digo: acho que seria melhor levantar mais tarde e deixar a caminhada para depois (correndo o risco de uma chuva, um compromisso -- quase sempre uma sessão de cinema no meio do dia -- e o adiamento do programa, claro). Já houve dias em que tive de sair correndo para o dentista logo cedo, numa emergência, mas depois eu saía de lá e ia para o meu local preferido de caminhada e realizava a dita cuja. Hoje em dia eu não tenho tanta disciplina e percebo que é quando mais preciso. O ponteiro da balança não baixa há pelo menos dois anos (não que eu almeje, como a maioria das mulheres, ser magra e voltar a ter o meu corpo de adolescente ou de muito jovem -- não --, definitivamente este desejo não me persegue), as costas dóem e passar horas lendo ou em frente ao computador não é mais a mesma coisa. O corpo reclama dos maus tratos, enfim. Ontem fiz um esforço, levantei duas horas mais cedo do que de costume e fui caminhar na minha praça preferida, aqui do bairro mesmo. Este é pleno de ladeiras; eu não dirijo, então esperei pacientemente o ônibus que me levasse à tal praça. Para um dia de sol, está tudo certo -- meu humor fica muito bom num dia de sol. Mexe com a serotonina -- assim como os chocolates, os quais estou tentando evitar, com algum sucesso desde ontem.
Vinte minutos olhando os carros que lambem o asfalto vagarosamente; de repente, um pai todo de verde, com o filho de verde, este envolto em uma bandeira do Palmeiras; a menina está de rosa e segue à risca o modelito das meninas cujas mães não têm a menor criatividade para vesti-las. Carrega uma bolsinha rosa, também. É um trio harmonioso, embora eu sinceramente, do time, só considero que Marcos seja um bom goleiro. Não que eu entenda de futebol; não entendo nada. Assisto a TODAS as Copas e torço para dois times rivais, Corínthians e São Paulo, este último mais por um laço familiar com meu avô Tonico e para reforçar as lembranças do meu pai, que vive dizendo, quando o São Paulo ganha: meu pai ia estar contente, hoje. O Corínthians... eu nem sei por quê, acho que foi por uma frase do Rodrigo N..., quando a gente frequentava a mesma turma... ele viu um jogo do Timão e se emocionou com o apelo popular (numa época de ditadura, em que nós, chamados intelectuais e a favor de uma vida melhor para o povo, éramos completamente ignorados ou mesmo mal vistos por uma parcela da população, justo aquela a qual procurávamos defender... mas eles já estavam de cabeça feita, como dizia um amigo meu, àquela época). Conta a lenda e o que lembra a minha memória, que o Rodrigo ajoelhou no chão e achou a manifestação, pela celebração da vitória do time, algo tão grandioso como se aquela massa tivesse mesmo poder. Bom, a coisa ficou na minha cabeça e comecei a prestar atenção no carisma do time, na força da torcida e gostei do que vi... -- mas hoje em dia, o que eu gosto no time é de ver o Ronaldo jogar. Não adianta, eu sou muito atraída (ia escrever fanática, mas não é o caso) pelo futebol de Ronaldo, Kaká e Ronaldinho. Mesmo não tendo aquele sentimento burguês que é natural aos torcedores de futebol e que depois vão para um churrasco e um pagode ou saem buzinando pelas ruas ou agitam bandeiras. Não gosto de nada disso. Gosto do futebol em si, enquanto estratégia, enquanto jogo. E ver pela tevê. Eu gosto de um jogo; pena que não tenha com quem jogar uma boa partida de baralho ou Mahjong. Quando acampávamos, lá no começo dos anos oitenta, eu gostava até do mais simples jogo que fazíamos com as crianças, tipo Mico. Gosto de jogos. Ainda vou aprender a jogar xadrez, mas não tenho com quem jogar. Talvez com o computador, quem sabe... E eu dizia que fiquei esperando o ônibus por vinte minutos e valeu a pena; a praça estava ensolarada, as mães eram interessantes e não babás castradoras, brincando ali com os filhos pequenos. Mães criativas, compreensivas e amorosas -- atentas aos seus pimpolhos. Um pai de seus trinta anos estava absolutamente envolvido com as peripécias de seu menino de um ano e pouco. Bonito de ver. Fiz uma caminhada de 50 minutos, dez a mais do que costumo fazer; afinal, estou na fase: que venha a saúde em primeiro lugar! Depois me sentei no banco, longe do sol, mas perto o suficiente para receber seu calor e logo uma senhora de (disse-me depois) seus poucos mais de oitenta anos, mas forte ainda, senta-se ao meu lado e começa a puxar prosa. Seu nome é Maria Helena e é campineira; como morei muitos anos em Campinas, aproximadamente 17 anos, e onde passei infãncia e toda a adolescência, temos um prato cheio para um papo praticamente interminável. Mas ela quer ficar minha amiga e marcar um encontro no parque para amanhã (hoje); eu dou algumas recusas delicadamente e digo de mim o que já sei: sou imprevisível com meus horários. Se meu vizinho me deixa dormir, acordo tarde; se não, levanto cedo, mas com certa dificuldade de me organizar para sair, preferindo ler o jornal no sofá e depois enfiar a cara no computador. Aí é banho e ir para a rua, almoçar e fazer o que tenho que fazer. Ela se decepciona e diz: eu preciso de uma amiga. Na minha idade, todas já se foram. Meu Deus, penso, será que ela pensa mesmo que podemos ser amigas? Assim, depois de um papinho no parque? Ela me surpreende e me emociona e ao mesmo tempo me deixa com uma sensação muito ruim do que é ter mais de oitenta anos e nenhum amigo... Enquanto escrevo, o sol brilha lá fora; mas optei por sentar ao computador e escrever; quem sabe a caminhada fique para o período da tarde, apesar de que hoje tenho que ver um filme imperdível de mais de duas horas -- do Ang Lee...
De qualquer modo, não tenho vocação para ser robô e não sei ser disciplinada com horários para exercícios; aliás, preciso de uma esteira, mas quando penso numa, concluo: o melhor é acordar cedo e caminhar no parque. Ou seja: eu não tenho jeito.
Escrito por isa às 19h54
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Consegui acessar este blog e devo dizer que prefiro-o ao meu novo, pois ainda não consegui dominar todas as ferramentas deste. De qualquer modo, o que me motivou a deixar esse blog (além das dificuldades técnicas para entrar aqui), parece de algum modo resolvido. Apaguei alguns posts pois, numa troca de emails, tivemos -- a pessoa que os postou, e eu -- nossas diferenças (creio que) resolvidas a contento e, ademais, os posts, escritos impulsivamente, não eram nada agradáveis, podem acreditar! Para quê deixar manchas nesse blog, que realizo com tanto carinho? Creio que fiz por bem apagar tais posts, embora eu ache que qualquer um está no direito de se defender, se se sentir atingido e eu, de também me defender e colocar as minhas razões, se achar que houve injustiça no comentário. De qualquer modo, página virada. E, bola pra frente.
Escrito por isa às 12h15
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Com bastante atraso (ah, o tal feeling!), finalmente assisti a O ensaio sobre a cegueira, adaptação do livro de de Saramago (escritor de que não gosto) e dirigido para o cinema por Fernando Meirelles. Resisti ir ao cinema por causa do primeiro, escritor superestimado e que, a meu ver, não escreve bem. Mas, na verdade, o que me fez desgostar do filme, a ponto de conseguir assistir a ele por apenas vinte minutos ou pouco mais que isto, foi a direção. E os atores. E o roteiro. E os cortes. A fotografia, excessivamente televisiva, comercial -- que aliás me lembrou Closer. Enfim, ou seja, tudo. Tudo é mesmo ruim neste filme. Eu me disse o tempo todo, desde as primeiras cenas: lamentável, lamentável, lamentável. Necessito reler as críticas e perceber se algum crítico que considero respeitável e com uma razoável bagagem e que tenha bebido lá atrás do bom cinema também pensa como eu. Eu me pergunto se um diretor (não, não vou chamar de cineasta) como o Meirelles um dia tentou aprender algo com Fassbinder, ou mesmo Wenders ou o Bunuel de Belle de Jour. Ou Kubrick; ou Orson Welles. Jamais vi tanto amadorismo, mesmo nos cortes de cenas -- saltos inacreditáveis, mas não por conta do corte "artístico", mas por falha mesmo, por desleixo ou ignorância ou sei lá o que dizer de tanto amadorismo.
A estória também não convence, que aliás começa com um ator muito ruim, de origem japonesa; o dito cujo fica cego de repente e ao invés de ser levado ao hospítal, pede para ser levado para casa (ou, é convencido a...); o sujeito que o ajuda, rouba-lhe o carro. Duas infantilidades de uma vez só. E a fotografia, que horror, de um realismo pobre, de anúncio de televisão. Há uma cena em que uma atriz brasileira aparece nua, de cima e é de um primarismo ímpar; que fotografia mais feia! Eu me disse: eu não mereço isto! E foi ficando pior. Quando os cegos entram numa enfermaria, não há um único enfermeiro para acompanhá-los;. como isto é possível? Jamais peço verossimilhança se os filmes me dizem desde o início que não tenho que contar com um mínimo do real para seguir o fio narrativo. Mas, neste filme, a coisa cai para o insólito no sentido de falhas e erros, que nos chama de imbecis, mesmo. Lembrei-me dos primeiros minutos de outro filme horrível e cultuado por quem não conhece cinema, que se chama O Efeito Borboleta. Como vi outro dia num jornal, é filme feito para adultos que são infantilizados. Seria algo como ter trinta anos e sair de casa para comprar o cd da Xuxa. Enfim, uma tristeza, uma decepção. Confesso que esperava mais, apesar do meu feeling me dizer que era para não perder tempo indo ao cinema ver um filme sobre uma obra de Saramago. Algo me dizia que a coisa iria cair para o oportunismo; enganei-me, é muito pior. Este filme é um insulto à nossa inteligência... que, aliás, foi o que senti ao começar a ler " O Evangelho..." de Saramago. Pensei: esse cara está gozando com a minha cara. Como pode alguém escrever algo tão ruim e vender?
Enfim, é isto. Minha sorte foi ter adquirido o belíssimo Berlin Alexanderplatz, de Fassbinder, dias atrás... isto sim é filme, ou melhor, cinema e cinema com C maiúsculo.
Escrito por isa às 22h42
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Beleza e miséria cultural
(Tom Chaplin, vocalista da banda Keane, em 2006; pra você ele está gordo? Para mim, ele está lindo!)
Segue um texto escrito às pressas, porém motivado por um dado do real. Tem a ver com aquela velha frase: nossa, como você engordou! (Afe!)
O que é a beleza física? Quais são os parâmetros que definem que uma pessoa é bela e outra não? Será que a beleza está mesmo nos olhos de quem vê?
Estudos recentes mostram que os padrões de beleza vêm mudando drasticamente durante as últimas décadas. Houve um saldo significativo por volta dos anos 50/60 do século passado, quando então as mulheres, mais relacionadas à moda e ao consumo, do que os homens, passaram a ter seus corpos moldados pelos costureiros — que, como todos sabem, a grande maioria é homossexual, o qual, notoriamente, tem como padrão o ideal do corpo masculino — o objeto de desejo. Ou seja: quadris retos e pouco busto. (E, por favor, não venham falar de politicamente incorreto ou que sou preconceituosa, porque sei que não sou, ok.?) Alguém se recorda da Twiggi, modelo inglesa? (Os quadris retos permaneceram, mas agora veio a moda do silicone — até quando?)
Atrás das tendências da moda, vieram as questões ligadas não só à saúde, mas, principalmente, a um ideal de beleza a ser perseguido. Atualmente, a mulher excessivamente magra está em voga. Alguém já viu uma concorrente de Giselle Bünchen ser uma gordinha ou, a chamada "cheinha"? Não. Para ser bela, desfilar a beleza das roupas, é preciso ser magra. E o que fazem as pessoas que consomem moda ou são massacradas pela indústria cultural, sem nada questionar? Querem ser magras, claro! Pois ser magro, quer dizer mais ainda do que ser belo, quer dizer: sou aceito! E quem não quer ser aceito, amado? Todos querem ser amados. E aparecem doenças como a bulimia, a anorexia, principalmente entre as meninas, cada vez mais... em moda! Querem moda? Convivam com isto, papais e mamães.
A moda está ligada à necessidade de mudança de parâmetros e tem por base o consumo. Se no ano passado o que se viam, por exemplo, eram bolinhas e listras nos tecidos, este ano pode ser que vejamos estampas florais como tendência. Assim, todos correm renovar seus guarda-roupas e, claro, a indústria da moda sai lucrando com isto. Mas o que isto tem a ver com a beleza? Muito pouca coisa. Ou tudo, dependendo do ângulo sob o qual o assunto é visto e analisado. Claro que se não renovássemos nossos guarda-roupas, morreríamos de tédio. (Mas alguns já não morrem, só que de miséria, na grande maioria dos países que fazem parte do planeta?)
A beleza física é algo que está no campo do visível. A beleza interior, não. Já que vivemos numa sociedade de consumo e praticamente tudo se tornou objeto, o que eu vejo, em tudo, é objeto. Falou-se até na mulher-objeto e fala-se mais modernamente, também, em homem-objeto. Quando as revistas estampam homens e mulheres com corpos bem torneados, eles se tornam objetos de admiração e, indiretamente, de consumo. Se eu tenho um corpo socialmente aceitável, isto quer dizer, mais uma vez, que serei aceito! E, portanto, amado! E a cena: todos entram alegremente no restaurante e fazem os seus pedidos... e ela? Uma alfacezinha, alguns grãos de arroz... (o negócio é ser magra, magra, magra! Para ser aceita e amada, claro! De que assunto as pessoas médias/medianas falam quando se referem às outras? Fulana? Achei ela magra. Sicrano? Está bem gordinho! E por aí vai. Será que podemos relacionar tudo isto, também, a uma certa miséria cultural? A um pensar pequeno? A um pensamento estreitamente ligado ao mundo do visível, relegando a segundo plano o mundo das idéias e por conseguinte, da cultura? Entendendo cultura por produção de linguagem do homem relacionada, em alguma instância, com a arte e à produção de pensamento?
Se você tem amigos ou parentes com os quais passa o dia conversando sobre temas ligados à cultura — um filme, um livro, um museu — onde sobre pouco ou nenhum espaço para a análise física, para a análise corpórea de fulano ou sicrano, você, a meu ver, é um sortudo. Se você tem um parente que, quando encontra com você, diz: como você está gordo! Pode acreditar que ele está fazendo a seguinte análise: eu me mato na academia para ficar magro, deixo de comer o que gosto para ficar magro e agora ele me aparece gordo? Como assim???????? Ele não tem espelho, será que não se enxerga, será que não percebe que está gordo? (Será que ele não percebe que está.. fora dos ditos padrões?) Resposta: sim, todos temos espelho em casa e sabemos se estamos gordos, magros, esquálidos, cheinhos, obesos... assim como nosso nariz está reto ou nossas sobrancelhas estão finas ou grossas. Bom, menos o doente que tem uma disfunção (mais comum, depois da moda da magreza como padrão de beleza) que distorce o que ele vê no espelho, o que tem ocorrido com nossas adolescentes, com freqüência: elas se acham gordas, quando, em termos médicos, estão dentro do peso. Mas elas não querem ser magras; querem ser magérrimas! Enfim, a resposta é: sim, nós temos espelho e não somos idiotas! (Talvez o idiotizado seja aquele que só consiga ver beleza no campo do visível — será que não?)
Você vai assistir a um filme com alguém e, ao sair, ao invés da pessoa discutir o filme em termos mais profundos, ela apenas diz: viu como a Julia Roberts tá mais gorda nesse filme? Viu como a Marilyn engordou depois daquele outro filme que fez antes deste? E por aí vai. É comum escutar isto. Será que as pessoas estão sem bagagem cultural para discutir outras coisas? Mais relevantes, do que a massa corpórea dos outros?
Do que falam as revistas de fofoca? Do físico dos outros, fundamentalmente. Você já viu alguma revista de fofoca comentar que tal atriz é muito inteligente? Não, não é. Aliás, ser inteligente ainda é uma qualidade muito mal vista para os que estão ligados à indústria do consumo. Pois quem é inteligente consome menos, claro, pois não consome o que é supérfluo!
Infelizmente, as estatísticas também mostram que pobres ficam acima do peso por serem mal orientados na hora de se alimentar. Isto é outra questão. Aqui, estou falando de gente com poder aquisitivo, mas que não consegue questionar o que lhes foi imposto com o decorrer dos anos pela indústria do consumo. Quando vemos revistas ou colunas sobre a classe média alta, a maioria é magra. Gastam calorias nos clubes, nas academias, em esteiras, pedalando, fazendo natação — enfim, investem numa boa parte de um tempo útil, nisto. Como que numa obrigação, pois tem que caber no vestido — já ouviram essa frase? É mais importante que uma roupa caia bem, do que suas idéias e comportamento propriamente ditos. Vê-se, com freqüência, uma inversão de valores. O outro não é valorizado pelo o que ele possui enquanto caráter ou educação, mas o que ele apresenta (e representa, enquanto valor social) enquanto cartão postal, ou seja, no campo do visível. Miséria cultural...
Mas, afinal, o que é a tal beleza física? Não há dúvida que o gosto pode ser manipulado e a indústria o faz e o faz bem. Antigamente as crianças brincavam com bebês gordinhos com cara de nenês saudáveis e hoje em dia elas querem.... Barbies! O chamado padrão americano — pois não é de lá que veio a tal boneca? Valorizada até por adultos infantilizados, que as colecionam?
Lindíssimo, para quem sabe ver e tem bagagem cultural, As Três Graças. No filme espanhol Pelos Meus Olhos, o marido pergunta à esposa o que ela vê naquela pintura onde uma das mulheres tem celulite e a outra parece uma sapatona. Para este homem ignorante, só o visível conta; só o padrão — ele não consegue ir além, por falta de bagagem na área do sensível. Seria ele um consumidor dos livros de Paulo Coelho ou seja, faz ele parte da grande massa que só consegue consumir o que é medíocre, e o que já está consagrado como "bom"? Assim como dentro desse parâmetro, entra também o "ser magro"?
Enfim, este é um assunto sem fim. Mas uma coisa é certa: é bom ter saúde e não estar acima do peso, claro. Mas, se você está fora dos padrões, não se desespere. O que seria do verde, se todos gostassem do amarelo? Dê uma banana para os padrões e tente ser feliz vivendo a diferença. Com saúde, claro. Mas deixe aos bulímicos e anoréxicos que se privem de chocolates e outras gostosuras. Seja inteligente. Dê uma banana para os chatos e os padrões. Como diz o Jô Soares, sou gordo mas sou feliz!
P.S.: Em tempo, esta que vos escreve está oito quilos acima do peso, tem espelho, é chocólatra, caminha todos os dias e faz alongamento duas vezes ao dia e não se sente rejeitada socialmente — apesar de não se sentir, por outro lado, aceita e amada. No entanto, sabe-se feliz por ter tido a sorte de ter descoberto que, além do visível, há o campo do invisível: a arte, a filosofia, uma expressão inusitada e poética de um gato que dorme; a poeticidade de uma imagem cinematográfica. Quanto aos medíocres, está dando uma banana, fruto que despreza por ser alérgica a ela, para todos eles. E sonha com o dia que deixem a sua massa corpórea em paz. E privilegiem nela outras qualidades — possivelmente, para os medianos, até agora, invisíveis. A estes, meu grito furisoso, em outra língua, para não parecer pouco educado... : give me a break and damn you!
Escrito por isa às 21h51
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Acabo de assistir ao filme Bodas de Papel, de André Sturm. André costumava freqüentar a Cinemateca no começo dos anos noventa e, pouco depois, comprou um cinema no Bexiga, acho que o Cine Bexiga, mesmo, e creio que mudou de nome, mas não me lembro mais. O que me lembro dele é algo muito mais pessoal, como a morte trágica de alguém próximo a ele e que também freqüentava a Cinemateca, quando esta era em Pinheiros, próxima à Vila Madalena. Passei anos vendo os melhores filmes do mundo, ali. Dreyer, Ozu, Mizoguchi, Bergman, Resnais... e mesmo filmes raros vindos da Cinemateca do Uruguay -- então conheci bem seus freqüentadores. Bons tempos. De qualquer modo, não vi o primeiro filme de André e não posso comparar para falar de um estilo seu -- o que seria bom. Mas o que vi em Bodas de Papel me deixou intrigada, já que tenho como referência que foi rejeitado pela crítica e não muito bem aceito por parte do público (ao menos, foi o que li via internet). Mas com as artes no Brasil é preciso se ter muito cuidado; muitas vezes tudo aparece de maneira invertida, vide a má crítica (de alguns críticos e de peso) ao belíssimo Luz Silenciosa -- como coloquei aqui, um dos melhores filmes da década, até agora (fortemente inspirado em Dreyer, mas, e daí?).
O que achei bem consistente e convincente em Bodas de Papel foi o relacionamento amoroso do casal, da artista plástica brasileira e o arquiteto argentino. No entanto, eu me ressenti de alguns momentos de maior dramaticidade, reservado para o final, com a morte do rapaz, Miguel. Parece que a tal virada demora um pouco a acontecer, mas, enquanto isto, o que o espectador tem são cenas bastante agradáveis de se ver de uma cidadezinha no interior de São Paulo, Candeias (que, ao que parece, teve sua locação principal em Monte Alegre, como se vê pelos créditos) -- e o que se tem é mais que isto, é todo um bom gosto na decoração de uma casa, com móveis que muito provavelmente a produção garimpou na Vila Madalena, em São Paulo, bairro aliás que aparece quando há um lançamento de livro na Livraria da Vila, forte ícone do bairro. De qualquer modo, a produção se esmerou na composição do look artesanal/interiorano... às vezes até demais, pois o bar em que trabalha Walmor Chagas carece de um pouco mais de autenticidade, extremamente asséptico, com absolutamente nada fora do lugar -- nem um lápis jogado sobre o balcão, sequer. Dignas de nota as locações nas proximidades do Trianon, de onde o rapaz escreve à namorada -- acertadíssimas. O paulistano reconhece ali um lugar de intimismo agradável que, só quem mora na cidade o identifica, mas, ao mesmo tempo, é um terreno que, mesmo para quem nunca esteve lá, é colírio para os olhos.
Helena Ranaldi e o ator argentino, que trabalhou com Almodóvar em Fale com Ela, no entanto, não decepcionam, estão muito bem e confortáveis em seus papéis. Nas primeiras cenas, praticamente não há conflito, o que pode levar o espectador a se entediar, mas também é algo que deixa com que se respire aliviado, pois ultimamente o que se tem são filmes que revelam um estresse exagerado, altas cargas dramáticas, deixando o espectador, quando não em suspense, em estado de contida aflição. Que não se espere isto do filme de André... o trem corre suave nos trilhos e o barco desliza em águas calmas -- até a morte de Miguel. Que aliás, não vem abalar muito o antigo cenário, pois a artista plástica continua a revê-lo em pensamentos e... o que seria aquilo, um sonho, um delírio? O filme não nos dá pistas. Miguel retorna, bate à porta como se nunca tivesse "ido embora" e conversa com sua antiga namorada com se a tivesse visto no dia anterior. O mesmo se passa com ela. O que deixa o espectador confuso, mais do que surpreso e eis aí a minha crítica; acho que de, algum modo, uma narrativa tem que direcionar o que está sendo mostrado para o espectador; acho uma falha terrível quando isto não acontece. Não se trata de subestimar a inteligência do espectador, mas sim de uma condução ficcional que não o deixe perdido, pois, apesar de ficção, quando assistimos a um filme, mergulhamos na estória como se ela fosse real, claro... e seguimos um ponto-de-vista; um caminho, dado pelo filme. Se isto se perde (e não estou falando aqui de cortes abruptos propositais, que aparecem em alguns filmes de arte de maneira bem articulada), o espectador também se perde e, aí, sim, é capaz de achar que o estão fazendo de bobo. Foi o que me aconteceu e tenho uma bagagem que me permite separar o que é ambíguo do que não é, num filme. Lembremos de Match Point, de Woody Allen e a cena dos que já morreram, na cozinha. Claro que quanto ao filme de André, sabemos que Miguel não voltara da terra dos mortos, mas ao menos poderia haver algum indício de sonho ou de memória; este nos é dado, por exemplo, quando a personagem de Helena Ranaldi vai pegar a bola para algumas crianças, em seu quintal e vê o vaso de orquídeas. A questão da lembrança fica muito bem resolvida, depois, quando ela está com a bola nas mãos e um dos meninos diz: e aí, dona e a bola? Ou seja, ela estava com o pensamento longe. Mas, na cena em que Miguel supostamente retorna, ficamos sem entender nada, porque o filme não nos quis dar indício algum. E ficamos perdidos, acreditando em espíritos ou memória, seja qual for a opção, mas que não é nossa e sim da maneira errônea, a meu ver, como a cena foi conduzida -- ou, o que não veio a seguir. Sim, mais tarde a impressão se desfaz, mas até isto acontecer, já fomos esquecidos, desrespeitados, enquanto espectadores. Ao menos, foi a impressão que me passou, neste momento. Não a de uma confusão saudável, se me entendem... nada a ver com meu direito de optar ou pensar o que quero, mas sim uma confusão que pertence à má condução da narrativa, mesmo.
Mas não se deve crucificar todo um filme somente por uma cena; digamos que é um trabalho despretensioso e tem que ser visto como tal. (Lembrei-me de um filme italiano muito semelhante, chama-se, se não me engano, Viagem à Toscana. Não dá para esperar nenhuma força dramática do filme, pois seus personagens não a têm). Os personagens de André, aliás, casam-se bem em temperamento e não há praticamente conflito entre eles, a não ser quando Miguel deixa, um dia, de telefonar à namorada, para dizer que não chegaria para o almoço. No mais, é barco navegando em águas calmas. Até aí, tudo bem. Mas que não se espere mais que isto deste filme. Isto é bom, isto é ruim? Há obras que são dramáticas, outras, singelas. Bodas de Papel não é nem um, nem outro, mas fica próximo do segundo, pelo seu cenário de interior e a calma e o ajuste entre os amantes. Mas não é um filme para ser revisto, certamente -- simplesmente porque é um filme por demais correto e nada, nada apaixonante. Simplesmente por isto. Como se diria popularmente, faltou uma pegada mais forte... É isto. Bodas de Papel, eu diria, é um filme... legalzinho... e nada mais que isto.
Em tempo: lembro-me de um colega de faculdade, que hoje é apresentador de um programa de tevê à noite, empresário e muito rico; o rapaz ia impecável à aula, diríamos que havia se vestido para um jantar elegante às sete horas da manhã. Usava um mocassim de verniz, terno, gravata, o cabelo sempre arrumadinho -- parecia estar num curso de advocacia e não de jornalismo. Aquele rapaz tinha uma coisa tão certinha e enjoada, tudo nele estava sempre tão impecável, nos lugares, que ninguém gostava dele. Faltava alguma coisa de interessante nele. É só um recorte daquele sentimento, que todos tínhamos e que, creio, cabe bem aqui.
Escrito por isa às 15h59
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A banda Keane em novo visual
A banda britânica Keane dá uma reviravolta na carreira, com o lançamento hoje do single Perfect Symmetry, disponibilizando para os fãs em seu site oficial uma das músicas, Spiralling, com forte ritmo dançante. Em entrevista , o vocalista Tom Chaplin fala da influência de Bowie e Talking Heads, entre outros ícones dos anos oitenta. Eu me lembro bem de Talking Heads; um amigo muito íntimo era fã dessa banda e trazia uns elepês lá para o meu apê para a gente ouvir, enquanto juntávamos material em xerox (não havia ainda o computador caseiro...) sobre cinema, literatura, fotografia, garimpados em bibliotecas de Sampa. Foram os meus anos de paixão pelo cinema de Wim Wenders, que adorava Ozu -- e meu mestrado seria em Ozu. Enfim, lembro bem de Talking Heads e menos de Bowie; Bowie me pegou mais quando apareceu nos anos setenta (e eu era adolescente) com um LP em que discutia a misoginia. Meus amigos e eu ficamos de boca aberta -- lembro bem. Era uma irreverência total.
De qualquer modo, os anos oitenta foram os chamados anos cínicos, em contraposição a todo um romantismo dos anos 60, sendo que os setenta ficaram no meio, meio indecisos, aí no final da década surgiu a dance music ou melhor, disco music, que eu particularmente detestei porque só os mauricinhos e as patricinhas (que eram chamadas de cocotas e eles, de playboyzinhos) de onde eu estudava (FAAP) aderiram. Teve uma festa no diretório acadêmico, alguém levou as músicas do filme Embalos de Sábado à Noite e minha amiga Jane começou a dançar, tirando sarro, no meio da pista, enquanto eu não sabia se aderia ou não, porque tinha um ritmo alegre mas era meio babaca. Exigia habilidade na performance... e um talento para algo robotizado. Aliás, o próprio personagem do filme era um babaca, com aquele terninho careta, aquele cabelinho com gel, tudo o que detestávamos. Vieram os glitters, as meias com glitters, roupas que pareciam seda, mas eram de um tecido artificial, enfim, toda uma estética fake. Quanto mais artificial você fosse, mais in você estava. Nada de corpo solto, batas flutuantes, franjas, leveza, improvisação, criatividade. O negócio era pegar pesado. Nada de dança espontânea (que remetia a algo sonhador e mais ingênuo, porém a meu ver mais verdadeiro, genuíno), o negócio eram os passos ensaiados. Aí veio aquele azul gritante, bem forte (que se vê em Veludo Azul, de Lynch), as ombreiras, os cabelos artificiais -- tudo o que representasse FORMA. ("Spiralling", "Perfect Symmetry"?)
Não quero dizer que a volta aos oitenta de Keane represente mau gosto. Mas me pergunto se não há aí um intuito de vendagem, de comércio, de show business muito forte. O que talvez descaracterize o estilo da banda. Pois se há uma coisa que eles sempre tiveram foi estilo. E quando eu vejo Justin Timberlake ganhando todos os troféus da mídia com sua música dançante, aqueles passinhos ensaiados em coreografia rígida, fico pensando no que está por trás desse novo Keane. E no que seus produtores pensaram sobre a boa e velha música de Keane.
Parece que o terceiro álbum promete mais; em entrevistas falou-se de clima de cabaré e Marlene Dietrich; falou-se Beatles, talvez aquele de Revolution, pelo o que deu a entender um breve recorte de música colocado no site oficial. Enfim, é esperar. E ver se vale à pena continuar apostando na banda. Esperemos que sim...
Escrito por isa às 12h56
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De vez em quando, ou seja, a cada vinte ou dez anos -- se tivermos sorte -- acontece de assistirmos a um daqueles filmes que são capazes de nos deixar em êxtase, embasbacados e sai-se do cinema como se se dissesse a si mesmo: enfim, um gênio -- alguém que chegou à perfeição, que compreendeu tudo, todas as lições dos grandes mestres e, no entanto, fez um cinema singularíssimo. Este é o caso do cinema de Carlos Reygadas, com o seu magnífico Luz Silenciosa. Nenhum plano, nenhuma fotografia, nenhum gesto, nenhuma palavra, nada é desperdiçado -- nada sobra. É um cinema pensado, artesanal, elaboradíssimo, preciso, conciso. Em alguns momentos pensamos em Wenders, ora em Ozu, ora em Carl Dreyer. Mas é um cinema particularíssimo; vê-se o traço do gênio, como um Picasso, que se distingüe de um Van Gogh, de um Monet.
Talvez tenhamos que esperar alguns anos para que apareça outro filme igual ou semelhante à Luz Silenciosa. A mão segura do mexicano Carlos Reygadas nos oferece poesia em tempo integral. A maneira como trabalha o tempo na narrativa, dando ao espectador aquele tempo necessário para analisar uma bela fotografia (destituída de todo e qualquer pedantismo, de qualquer afetamento, diga-se e raramente afiada, de cortes bruscos, diga-se também; a câmera por vezes desliza e nos aproxima do que deve ser observado em detalhes: uma lágrima que ficou colada a uma face, um pêndulo de relógio que espelha a família reunida para a refeição, um par de casas gêmeas). Este é o tempo também de quem está longe do freje das grandes cidades, da dita civilização. Pois Johan, o personagem principal, pertence aos menonitas, protestantes que vieram para a América no século XVI, provenientes da Europa e se estabeleceram no México. Adeptos da vida simples e afeita ao que é natural, da religiosidade, da não comunição com outras comunidades, os menonitas do círculo de Johan não são radicais e já se permitem ter automóveis e uma fazenda mecanizada. E é num ambiente bucólico que a estória se passa e é deste ambiente que extraímos o que nos dá uma nostalgia de algo vivido, ainda que distante ou, até nem vivido: um rio límpido onde se pode nadar e tomar banho, grandes e verdes pastagens, campos floridos, o nascer do sol em todo o seu esplendor, as noites escuras e estreladas embaladas pelos uivos dos cães, o pio da coruja. E é nesta atmosfera que o adultério acontece, que algo se parte e vem tirar a paz e a tranqüilidade de uma família.
A paz é mais forte que o amor, diz uma personagem, a certa altura. Tocados pela culpa, os amantes querem se separar, mas não conseguem. No entanto, não há melodrama, aqui. Não há passionalidade. Esqueça os italianos, esqueça Almodóvar. Os encontros são calmos, pensados e a câmera insiste na imagem de um beijo apaixonado, porém de um erotismo sutil, quase seco -- um beijo longo e quase, se isto fosse possível, casto. É a força de tais imagens, quando nos são apresentados gestos mínimos, todos com grande força de intenção, que leva o espectador a analisar, mesmo contra sua vontade, o enquadramento dos elementos focados. É deste modo que o filme nos envolve: temos uma estória de amor, de traição, mas somos obrigados a nos embuir de um espírito distanciado, racional -- o que nos faz atentos. São personagens dignos, que procuram levar uma vida correta, firme e se espantam, sem desmesura, diante do novo, do inesperado -- e nós somos levados a compartilhar deste ritmo e daquele que o filme nos impõe.
Luz silenciosa é um filme magnífico, não há outro adjetivo para ele. E ganhou vários prêmios, entre eles o do júri no festival de Cannes em 2007 -- o que significa que ainda não estamos de todo entorpecidos pelos filmes de ação, aventura e blockbusters. Talvez a televisão e a internet ainda não tenham nos deixado burros demais, parafraseando uma canção dos Titãs... É um filme para encantar platéia de exigentes, embora a sua singularidade possivelmente comova todo e qualquer um que aprecie o bom cinema. Eu, saí nas nuvens e fiquei em estado de graça como há muito não me acontecia. As buzinas dos carros na Augusta soavam perto, mas longe de mim. Ainda bem que fez uma noite de Junho quente e estrelada. Perfeita para depois de um filme como este, raro presente.
Escrito por isa às 20h37
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QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E VIVA ROBERTO FREIRE
EM NÓS

Escrito por isa às 22h40
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Por uma vida mais alternativa
Para terem uma idéia de como acordei hoje: é uma pena que eu tenha que escrever o que me vem à cabeça numa tela de computador e não nas areias virgens de uma praia deserta.
Acordei com saudade do antes dos anos cínicos (e, por vezes, interessantes) que foram os oitenta. Embora o começo desta década, para mim que vivi o auge dos anos setenta, tenha sido o ápice, uma espécie de prolongamento daquela atmosfera 60/70, pois eu tinha uma turma enorme e nós nos dávamos bem e acampávamos e cozinhávamos na praia, lavávamos a louça no mar, tomávamos todos, com as crianças, banho de cachoeira pelados e sem malícia, usávamos roupas quaisquer, não usávamos salto ou maquilagem -- éramos muito à vontade como mandava a nova noção do que deveria ser aquele que estava optando pelo "alternativo": livre; sim, se possível o mais livre possível de tudo o que de perverso e castrador havia na sociedade. Alguns amigos não usavam cheque; eu até hoje não deixo o banco me cooptar e me levar a um grau máximo de sofisticação -- embuída dessa idéia de dizer não ao status via consumo abusivo. E para não dar o gostinho de vitória a essa sociedade orgasticamente consumista em que vivemos.
Tudo bem, tudo mudou, porque a vida está em eterno movimento -- mas certamente, em muitas coisas, para pior. Para começar, eu não tinha essa barriga -- ; eu comia menos, muito saudavelmente e caminhava mais -- fora que o Tai-Chi era sagrado... (Aliás, lembro agora, ter carro, para mim -- que não mais dirigia -- significava dizer um grande sim ao fetiche moderno da burguesia e ao sedentarismo). Se não podia nadar na praia, nadava no CAOC, que é um clube que fica atrás da Medicina na dr. Arnaldo, para alunos ou ex-alunos da USP. Eu larguei o curso de Letras quando minha mãe faleceu e tirei o diploma de jornalismo -- então estava na categoria de ex-estudante da USP. Depois voltei ao curso de Letras, já no tardio e cínicos anos oitenta, quase meados, quando fui colega de Arnaldo Antunes. Mas ele usava preto e tinha uma posição anárquica e evasiva nas eleições abertas; eu ainda usava minhas batas de algodão, sapatinho preto chinês e votava pela Libelu -- ter consciência política continuava sendo fundamental. Ah, a Libelu -- cá pra nós, era um pessoal de esquerda muito interessante, com exceção de algumas maçãs podres que conheci depois, indo dividir uma república.
Sim, há socialistas de fachada -- como hoje em dia há petistas ou esquerdistas de fachada (há até direitistas que posam de esquerdistas, é só ver o horrível Manhattan Connection, no canal GNT). No dia-a-dia revelam-se egoístas, cruéis, exclusivistas, fascistas -- e infelizmente eu vivi isto e levei um tombo feio. Foi por volta de meados dos anos oitenta, para mim o início de uma forçada maturidade, uma passagem pela depressão e o começo de um estado fóbico (que me persegue até hoje) e, ainda, os olhos mais abertos para os anos cínicos.
Depois da experiência frustrada de conviver com quem fingia ser alternativo, fui ter meu apê e reneguei tudo o que havia vivido. Mas, pelo meu temperamento, no fundo de mim aquela Isa otimista e que gosta de dividir o que tem e o que sabe, o que apreende da vida, permanecia em mim. Então, foi difícil, mas ao menos eu optei por estudar um cineasta que tem um cinema singelo, como Yasujiro Ozu. Mas havia Wenders, os jogos eletrônicos, Madonna (um ou dois enes?), os posudos ligados em modas efêmeras, nas grifes e tudo o mais. Disso tudo se salvava Wenders (e Coppola, claro e outros...), mas que também estava com um pé em algo com o qual eu não conseguia me identificar totalmente. Era uma melancolia que vinha substituir a nossa proposta de alegria (daquela turma pelada na praia, vendo estrelas no céu negro na noite sobre a areia deserta de alguma praia perdida no litoral brasileiro -- que, eu presumo, não existe mais), mas ainda assim tinha um quê de alternativo e resistência. Sid & Nancy. Eu não queria saber de Madonna (com dois enes?) ou Sid & Nancy; não queria saber dos punks e da violência. Eu ainda procurava aquela coisa romântica, idílica, mas nunca mais encontrei. Ou melhor, raramente voltei a encontrar. Fui estudar vídeo, cinema (fui largando a macrobiótica -- que, para mim, tem algo de estalinista -- e aderindo um pouco ao vegetarianismo) e comecei a 'namorar' com a Semiótica. Ainda fiz umas viagens para Mauá, para São Tomé das Letras, mas não era mais a mesma coisa (apesar de ter sido bom). Havia um poeta na minha antiga turma e aquilo era muito bom, porque dava para delirar, para ter uma troca de uma maneira interessante. Não havia os hippies porra-loucas, mas às vezes nós nos consentíamos ter atitudes porras-loucas, criativas, o que era bom.
Em Mauá (RJ) havia todo um clima interessante, a começar das pousadas, daquele verde, do rio, as pedras, as pessoas em torno com ares de vida alternativa. Mas não me lembro de ter sido interessante porque eu me lembro de uma conversa em que defendia as idéias de esquerda e, não sei porquê, do Bivar (do Bivar!) e uma garota, publicitária, amiga de uma amiga (que fumava o tempo todo, mas não do bom, mas sim os horríveis cigarros aos quais tenho alergia até hoje), não conseguia engolir minhas idéias. Claro, ela tinha um pé forte na burguesia e bebia daqueles valores como o mais precioso dos néctares -- hoje deve ser pró PSDB. Nunca foi minha amiga, embora eu a encontrasse em festas, vez ou outra. Mas ela conseguiu estragar o pouco do que eu queria curtir quando fui para lá, para tentar reviver um pouco daquele clima alternativo com minha velha turma. Mas algo me dizia que não seria mais a mesma coisa.
E hoje acordei com saudade dessa turma, de uma vida mais natural, sem muito livro, computador, museus e cinema -- vida urbana --, pelo o quê mais me interesso atualmente. Mas queria voltar um pouco no tempo e caminhar sobre areias virgens de uma praia, enfrentar o mar bravio, tomar sol de biquíni, peça que muito provavelmente não vou usar mais; comer um peixe frito na areia, como meus amigos e eu comíamos no nordeste -- Praia do Francês? Ah o forró da praia do Francês, o verdadeiro forró e não essa coisa brega televisiva... Foram tantos os lugares, nós com nossas mochilas às costas, dividindo um pê efe aqui e ali: Bahia, Pernambuco, Ceará... Novos acentos, nova cultura, novos ares. Bons tempos.
Sei que nunca mais vou viver essa coisa lúdica, que ficou para trás. Mas acho que é a segunda ou terceira vez que falo disto neste blog. Porque algo em mim não se conforma de ter perdido esse tempo no tempo.
Escrito por isa às 09h21
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