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Jamais gostei da música cantada por Elis que diz "vivendo e aprendendo a jogar". Há nela algo de cruel, desumano, artificial, maquiavélico -- que não condiz,por exemplo, com o sentimento de amizade. Eu sempre prezei muito a amizade, embora talvez não tenha sido uma boa amiga para meus amigos, aqui do meu jeito malajusted. Não todos, mas alguns resolveram -- por razões que desconheço e outras, as quais consegui perceber o subtexto -- jogar. Talvez já fossem assim e eu não lhes tivesse percebido a natureza. Acho triste, o toma lá e dá cá, e todo um racionalismo atuando na arte de fazer contas. Ultimamente vários e também familiares, mas entre os familiares, isto de pegar o caçula para bode expiatório é o mais comum... vários resolveram deixar claro que eu é que sou a complicada na hora de marcar compromissos. Parece até que ninguém tem rotina, prioridades, consultas médicas, preguiça, vontade de ficar em casa com livros e discos e dvds -- só eu. Alguns, quando eu escrevo, agem de uma forma capciosa, pois assim não se comprometem: simplesmente utilizam seu tempo como querem e não respondem aos e-mails. Assim, quando eu, ao invés de não responder aos e-mails, me coloco se posso ou não ir a um encontro, passo por complicada. ("Todos são campeões em tudo" -- dizia irônica e magoadamente Pessoa, em um texto). Ao menos sei ter consideração com as pessoas! Não é? E se digo um não, quem sabe, estou sendo verdadeira e não dando uma desculpa. Mas as pessoas jogam, vejam só e quando a coisa sobra, sobra somente para o meu lado.

Desculpem, mas honestidade e transparência nas relações eu acho imprescindível. Outros, talvez por não se sentirem devidamente amados, no auge de alguma carência, quando abro uma disponibilidade, eles dão-me as costas e contam com vantagens boas experiências que tiveram ou vão ter com outros amigos (um almoço, uma viagem), ou seus amigos, meus desconhecidos. Outros, vingam-se ao deixar-me de fora de suas vidas íntimas. Uma amiga namorou um rapaz por dois anos (uma amiga íntima!) e eu jamais o conheci. Ela simplesmente "fugiu do mapa", como se diz. Sou do tempo em que as pessoas se frequentavam e, quando não podiam ir a este ou àquele evento, eram educadas e abriam o jogo -- na base da sinceridade. Nem que fosse na base do "vou ver, não sei...". Que é o que faço. E, claro, é o que acho correto. A vida é corrida para todos, todos têm projetos pessoais, compromissos, momentos de preguiça, de não querer ver especificamente aquele amigo e sim encontrar com um outro ou ficar sozinho... -- mas é preciso que isto fique claro!

O mundo está mudando, mas nesse aspecto, eu, que sempre prezei os amigos, antes mesmo da família, por vários anos em que esta esteve muito dispersa e com outros valores, estou me sentindo órfã. De qualquer modo, há sempre um remédio para uma cura, não é? Tenho que apostar nisto. Ou devo acreditar que a humanidade está mesmo perdida? A Humanidade e a humanidade, enquanto sentimento do olhar ao outro?



Escrito por isa às 08h44
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