| |
Estamos sempre a estabelecer algumas metas para nossas vidas, a elaborar projetos, pois sem estes, a vida seria um tédio, não é mesmo? No entanto, no dia de hoje chamou-me a atenção uma questão sobre a qual eu creio que não havia pensado antes: o que nos leva a ter um sonho e pensar que podemos transformá-lo em realidade, se este sonho é algo que pode estar num nível tão alto em termos de tangibilidade -- e ainda assim insistimos e sonhamos com sua realização e, por vezes, em nome desse sonho deixamos de ver outras pequenas realidades ao nosso redor, também gratificantes? Tenho como exemplo meu pai, de uma família quatrocentona, em que todos os filhos levaram adiante os estudos, menos ele. Caçula teimoso, mas com queda para o ofício de seu pai, dentista, ele até que tentou ajudar o pai no consultório e se interessou pelo assunto, mas, Don Juan incorrigível, cortejou minha mãe, os dois ainda bem novinhos, ela um ano mais velha que ele e, com isto, casaram-se. E, logo tiveram filhos. Segundo meu pai, a condição imposta pelo meu avô para que casasse com minha mãe, é que fosse trabalhar. E, com isto, dizia meu pai, ele deixou de estudar. Não duvido que a coisa tenha sido assim, pois meu avô materno tinha um discurso absurdamente convicto de que apenas o trabalho, aquele feito com o suor do homem, enobrece. Foi da marinha mercante, depois sitiante, agiota, comprou casas e alugou-as, nos Jardins e Vila Madalena, principalmente, quando estes bairros ainda não eram o que são hoje. Em contraste, foi casado com uma francesa que atravessava a rua, em Lins, para tocar piano no cinema, embora tivese que voltar correndo para amamentar sua primeira filha, a minha mãe. Minha avó, como estrangeira que era, queria ter seu dinheiro e sua independência -- isto lá em 1921. Voltemos ao meu pai. Seus irmãos, de algum modo, prosperaram, mas ele não se deu bem nos negócios e seu maior prazer era chegar em casa e tocar flauta e piano. Várias e várias vezes eu me vi ao lado dele, ao piano, vendo-o tocar peças intrincadas, de Chopin e outros. Tudo de ouvido e com um pequeno aprendizado que veio de sua irmã, minha madrinha, que foi professora de música, escreveu livros sobre música (do cancioneiro popular) e chegou a dar um concerto no Municipal (ela me deu o recorte de jornal, do anúncio, pouco antes de falecer). Voltemos ao meu pai: ele sempre alimentou um sonho: ficar rico. Meu pai vivia comprando bilhetes de loteria e vivia falando em uma vida melhor. Claro, ele se media com um tio meu, muito nosso amigo lá de casa, que era riquíssimo, um primo da minha mãe, que eu chamava de tio. (Este tio teve um fim trágico, infelizmente). De qualquer modo, enquanto tínhamos uma kombi e um fusca, meu tio tinha um Sinca Chambord rosa com um rabo de peixe branco. Lindíssimo. Na verdade, creio que este era o carro da minha tia, se bem me lembro. De qualquer modo, lembro-me de uma viagem ao interior e de como meu pai ficara impressionado com o carro, a fazenda que fomos visitar (este meu tio era fazendeiro, lá para outros lados do estado, próximo a Botucatu) e lembro-me que, nesse passeio, minha prima me disse que ganhara dez cruzeiros de seu pai, para gastar com o que quisesse. Descendo do carro, eu pedi dez cruzeiros ao meu pai. Ele me deu, contrariadíssimo, e eu pude sentir o quanto ele ficou nervoso. Ele não quis negar tal dinheiro na frente do meu tio rico, mas também pude sentir que eu havia pedido uma exorbitância para um pai que não era rico. Aquilo me deu uma culpa terrível. Mas, voltando à questão, meu pai está agora com 89 anos e com Alzheimer; e ainda fala em ficar rico. Em suas alucinações, ele diz que tem que sair para trabalhar, porque várias pessoas dependem dele e que gastou muito com a terra e que precisa sair para a fazenda, pois muita gente depende dele, afinal, ele empregou muito dinheiro naquilo tudo. E, assim foi, ao longo da vida, meu pai sempre centrando suas preocupações e dinheiro, negociatas, fazendo um trabalho aqui e ali em que vislumbrasse "ficar rico" e enaltecendo não o caráter das pessoas, mas sim, suas posições na sociedade. Ele sempre encheu a boca para falar: fulano? Filho de um engenheiro famoso, tem um carro espetacular, uma casa maravilhosa, num bairro muito chique... E por aí vai. Subir na vida, ter dinheiro, como obsessão, uma obsessão central, que o impulsionava para a vida. Mas nele, sempre se via uma inquietação que não o deixava pôr foco em nada, nada mais próximo, como o interesse pela vida de seus filhos (a não ser que tivessem obtido um "cargo importante" e ganhassem mais -- esse era o foco, ou se tivessem comprado um carro muito bacana..), as coisas "menores" e mais próximas, na vida, mesmo. Eu me pergunto por que algumas pessoas são assim e me vejo também obcecada pelo meu trabalho ficcional e também sobre as reflexões que faço sobre a cultura em geral, sobretudo sobre as artes, o cinema, a literatura. Será que ponho foco demais nisso e acabo esquecendo outras "cositas" importantes na vida? Em nome disso, resolvi criar um outro cotidiano, em que escolho com carinho o que vou preparar para o almoço e com algum critério o filme que vou ver no cinema (porque sempre fui compulsiva em "ver tudo", em "ler tudo", em querer saber tudo... -- se não sempre, ao menos de uns vinte anos para cá, mais incisivamente). Mas, ao menos não tenho filhos e, se prejudico alguém, ao não ter tempo para mais nada que não isto, é somente a mim mesma. Aliás, já estou colhendo os frutos, com um sério problema de coluna, que me roubará o tempo ao ter que fazer cotidianamente uma hora de fisioterapia. E, acabadas dez sessões, RPG. E, depois, voltar a caminhar todos os dias, como sempre, mas com o acréscimo de alongamento e exercícios, o que me tomará tempo... De qualquer modo, como deve ser a vida de uma pessoa que não tem obsessões?Insossa? Inútil? Não posso responder, apenas ter uma vaga idéia, porque não sei o que é isto.
Escrito por isa às 08h03
[]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|