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   Foto: Richard Hugues: um corredor na China.               

 

                                                        A verdade veio da boca de uma cigana

                                                                (uma crônica do cotidiano) 

A cigana com cabelos cor de fogo pegou minha mão, assim num repente, e eu que já ia me desembaraçando dela, aflita, ouvi: cadê o seu lado otimista, aventureiro, sagitariana? Mais do que depressa, estas palavras saíram da minha boca: os tempos estão difíceis. Ela emendou prontamente, com segurança: os tempos sempre foram difíceis. Pensei: sim, por isto os dinossauros sumiram da Terra. E mataram Kennedy. E Eva e Adão foram, dizem, expulsos do Paraíso. Mas só pensei, não disse nada. Porque não se tratava de fazer malabarismos com a mente, mas sim, sim -- eu compreendi --, penetrar um pouco mais naquela filosofia de rua, já que a cigana acertou, por assim dizer, meu signo sem me conhecer. E disse palavras certeiras: o lado otimista, aventureiro, cadê? Ela (devo dizer que limpa, até cheirosa e mesmo bem vestida, lá nos seus andrajos) deixava pesar a palma de minha mão na sua; soltou, sentenciosa: os adultos vão aos poucos esquecendo o significado de duas importantes coisas: alegria e leveza. Eles se deixam enredar pelos problemas...Enredar? Uma cigana de rua usa o termo enredar? Temos aqui alguém com um pouco de sofisticação, estudo -- pensei. Meus olhos cravaram-se nos dela: você veio de onde, mora onde, estudou onde? (Eis um pouco do meu lado sagitariano, a curiosidade!) E ela, sorrindo meio de lado e mostrando os dentes brilhantes, os olhos verdes plácidos: não estamos falando de mim, mas de você. Está doente, não sabia? Digo, o seu lado sagitariano. Pobre do seu cavalo, com sede, atado, nervoso, querendo galopar e você aí segurando o bicho! Ela riu, um riso tão cristalino e sincero, que comecei a acreditar que, sim, uma estranha ainda podia me encantar e trazer alguma surpresa, num mundo cinzento e tão sem surpresas. Numa cidade dura como São Paulo e que estava deixando meu lombo mais duro ainda. Pesado. Sem a tal leveza, que tanto prezo... Esperei que dissesse mais coisas. Uma cigana que fala enredar! Mas ela largou a mão e ergueu sua outra, espalmada: apenas um real, para completar o que tenho e comprar um lanche. Eu vivo! Eu vivo e o estômago ronca, amiga! Mais do que tudo, o que me impressionou foi aquele seu eu vivo! Era como se me dissesse: se você já decidiu morrer, eu não.

Detalhe de foto de Richard Hugues, mural chinês



Escrito por isa às 04h03
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