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Durmo mal todos os dias, porque tenho um vizinho mal-educado, que mesmo tendo sido advertido, não cessa de me incomodar com seus barulhos fora de hora. Leia-se: madrugada. Com isto, não sei o que é ter uma noite de sono ininterrupta. Mas, hoje, tive e acordei maravilhosamente bem disposta e havia um sol, um silêncio tamanho no ambiente, que me senti em férias, no céu, em outro planeta. Quando abri o jornal, lembrei que hoje é feriado, aniversário de Sampa e eis aí a explicação: o dito cujo deve ter viajado e levado o maldito cachorro barulhento, além da namorada, também barulhentíssima, de uma risada italiana de doer os ouvidos -- isto, mais de meia-noite. Não é só o fato de serem jovens, mas jovens e bobos, jovens e sem educação, sem noção de horário e, enfim, não é deles que quero falar e sim do feriado de hoje, aniversário de Sampa. Ah, feriado, que dia ótimo para trabalhar nos meus textos! Para mim, que amo o silêncio e necessito dele para pensar, todos os dias do ano poderiam ser feriados! Ou então, eu poderia criar coragem e ir morar no meio do mato. Quem sabe? Ou em alguma cidade européia cheia de velhos, e portanto silenciosa (creio, no meu imaginário, e se não tiverem Alzheimer, naquele estágio que fazem com que os velhos griten e xinguem como loucos) como deve ser a Suíça, por exemplo. Pena que eu odeie o frio... e ame os cinemas e as livrarias, os cafés! Sou da cidade, mas acho a cidade insuportável. Viva-se com essa contradição! Sampa. Esta cidade foi boa para mim até o começo dos anos noventa, quando então eu ainda morava na Vila Madalena e podia fazer tudo a pé e mesmo chegar tarde da noite de um cinema e fazer o trajeto do ponto de ônibus até em casa a pé. Andar por suas vielas então desconhecidas, hoje tomadas de boutiques e lojinhas. Restaurantes. Descer as escadarias escuras e descobrir, apesar de morar anos no bairro, um novo pedaço, inusitado. O pessoal dos Jardins ainda não a havia tomado de assalto, como fizeram também com os lugares onde eu costumava passar férias, como Trancoso, então sem luz, na Bahia, Jericoacoara e mesmo a região de Camburi (Juqueí, Praia da Baleia, Toque-toque grande e pequeno), no litoral norte, antes de abrirem a estrada. Antes das praias paradisíacas se tornarem privativas, para o lazer de poucos. Sampa. Estão reabrindo a Mário de Andrade, mas haverá lá hoje em dia algum silêncio ou tocarão os celulares em meio à minha leitura? Mistério. Queriam agregar o entorno à biblioteca e isto é bom, mas me dá arrepios; não é elitismo, mas eu acho que biblioteca tem que ser isolada porque requer silêncio. Falam em abrir um café, lá, outra coisa que também me arrepia, a não ser que seja modestíssimo e sem grandes auês. Que seja um espaço apenas para que se tome um café no intervalo de uma leitura, mesmo e não mais um point barulhento de Sampa. Ah, desculpem se pareço ranzinza, mas é a minha relação com o silêncio que me faz assim... exigente para com ele, os espaços nessa urbe... Ao contrário de muita gente, não gosto das bicicletas nas ruas e nem me comovo com grafittis (esqueci como se escreve essa palavra...). Claro que já me embeveci com bons grafittis (raros), presa no trânsito, e claro que acho bicicleta o máximo, mas em geral quase sempre sofro algo próximo de um atropelamento, quando caminho na Paulista, porque o ciclista de Sampa, em geral, é mal educado. Como o meu vizinho e como a maioria dos jovens que não têm noção do outro, ainda presos em seus umbigos curtindo a sua felicidadezinha particular. Claro que adoro bicicletas, mas por onde trafego, normalmente, o que mais vejo são infrações. Portanto, não gosto de bicicletas em São Paulo, embora isto esteja cada vez mais na moda. O trânsito de São Paulo é pesado, há mesmo uma homenagem a uma garota que morreu na Paulista... Nossos motoristas de ônibus são brutos e mal educados... Enfim, não acho que a cidade seja um bom lugar para bicicletas. Não, do jeito que as coisas estão, embora, confesso e concordo, as mudanças têm que começar por algum lugar e ter seus custos, não é mesmo? Mas, não, não é para mim. Que venham para as novas gerações, mas numa proposta mais interessante, com a cidade cheia de ciclovias e ciclistas responsáveis -- o que não é o que se vê hoje. Que os ciclistas possam ir, agora, então, para o Ibirapuera, por exemplo. Que façam ali o seu reduto. Skatistas também me soam como pesadelo... ainda mais, também, na Paulista e ainda mais também num dia como hoje. Hoje que teremos Maria argh Gadú cantando Sampa lá no centro e bicicletas aqui e ali, skatistas aqui e ali, pagode aqui e ali...
Ou seja, parabéns, Sampa, locupletem-se mas eu vou ficar aqui e curtir o silêncio raro do meu apartamento... Trabalhando nos meus textos, motivo maior de felicidade para mim. Eu mereço, no aniversário da cidade (esta cidade louca e bela, em sua caoticidade) onde vivo por mais de trinta anos. Parabéns para mim, heroína que sou, creio, também.
Escrito por isa às 10h12
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Eu não gosto do Pondé, mas como assino a Folha e leio primeiro a Ilustrada, antes dos outros cadernos, acabo dando uma olhada no que diz. Jamais ou, muito raramente, concordei com suas opiniões. É sabido que é conservador e que dá aulas na FAAP, onde, aliás, estudei (uma época em que as vacas estavam magérrimas e minha tia e madrinha, então, pagava a mensalidade do curso de jornalismo). Eu me sentia melhor e mais à vontade com as pessoas simples do curso de Letras da USP, embora tenha feito amizades no jornalismo, que me são caras até hoje. Não, Dória, que era da minha turma, não ficou meu amigo, se querem saber. Ele fazia parte daquela elite de nariz empinado e idéias reacionárias e tive um probleminha de autoritarismo com ele ao gravarmos um depoimento de um escritor, à época. Mas não tem sentido, aqui, falar sobre isto. De qualquer modo, é esquisito vê-lo com aquele ar de Mauricinho engomadinho na tevê... Mas, vamos aos fatos da matéria de Pondé, que mesmo sendo ateu (foi o que entendi de suas matérias) diz agradecer a Deus "todos os dias" por ter deixado a Medicina pela Filosofia. Pois eu tenho um sentimento contrário -- que o mundo estaria melhor com ele, se tivesse sido apenas médico e daqueles que não falam muito --, mas quanto a isto, não tenho que achar nada. Mas, quanto a ele dizer que é contra a democracia porque ela barateia tudo, ai que ledo engano! Tenho algo a dizer, sim! Vamos por partes: ele diz que universidades boas são caras. E que, portanto, é para uma elite e que, assim deve ser. Claro que ele vê o jogo com as cartas já dadas, ou seja, sob o regime político que temos e a má administração no que se refere à Educação, como um todo (e não é herança de Lula -- aos desavisados. A coisa vem desde o golpe militar de 64). Mas não é disto que quero falar, aqui, porque pretendo ser breve. Quero dizer que: sim, o ensino é elitista nesse país (e em vários outros no mundo), por uma distorção mesma do que é que uma pessoa deve fazer/estudar/aprender ao entrar numa universidade. Toda a noção de ensino/aprendizado está equivocada. E não é o fato de termos atualmente trocentas faculdades merracas, somente interessadas em jogar o aluno no mercado de trabalho (isto não é de agora, diga-se; meu curso de jornalismo foi o último porque a instituição não estava interessada em um curso no qual as pessoas pensavam com suas próprias cabeças e sim em, provavelmente, ampliar os bancos da Engenharia, etc. -- cursos de gente que não entrava no movimento estudantil, não questionava o absurdo das mensalidades, o ensino precário e por aí vai... e que, claro, dava mais lucro à instituição -- aliás, lá há um histórico de uma mescla entre grandes e medíocres professores e adivinhem onde encaixo o autor da matéria?). De fato, as faculdades ruins proliferam, mas eu proporia o seguinte: ao invés de ser contra o acesso das classes C e D à educação, que tal encher essas instituições de bons professores, digo, daqueles que só pensam em dar aula em universidades que pagam ótimos salários, como PUC, FAAP, por exemplo e, com isto, ganhar menos e trabalhar numa instituição não tão conceituada e, com isto, partir para uma revolução individual e elevar o nível dos debates em classe? Mas não sobre as elites e sim sobre os direitos daqueles que vieram das classes menos favorecidas, ou seja, os próprios alunos, numa atitude que lembraria a pedagogia de Paulo Freire? Que tal bons professores que não apenas ensinassem a cartilha do curso, mas que também procurassem 'dar' aos alunos aquele algo mais que os faz se sentirem cidadãos dignos, pensantes, atuantes e não meramente pessoas que estão ali de olho no futuro carro, na futura casa, no gordo salário no final do mês? Mas é claro que isto não ocorre ao articulista em questão, pois ele é CONTRA o acesso dos mais pobres à educação! E, no entanto, com isto, saindo da mesmice, teríamos um país melhor, sem dúvida. Creio que a questão vem de base. Professores mal pagos, escolas precárias, falta de bons docentes e por aí vai. Mas o que gostaria de acrescentar, aqui, é que, muito humildemente, quando quis um dia lidar com educação, fui fazer um curso com a filha de Paulo Freire na antiga (digo antiga, porque dizem que tudo por lá mudou muito) Escola da Vila. E fiz também cursos de licenciatura na USP, embora tenha apenas iniciado e não terminado, pois desisti de ter uma escola, como era então meu sonho -- mas tive sim muitos bons professores que em momento algum enfiaram na minha cabeça que o acesso à educação é para poucos. Jamais, muito pelo contrário. Os que são pela ditadura são contra a democracia. Só que, curiosamente, como coloquei no começo desse post, o ensino começou a decair no país com... uma ditadura! Como desfazer da democracia, senhor Pondé?
Escrito por isa às 11h02
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