Meu Perfil
BRASIL, Mulher, de 46 a 55 anos, English, French, Cinema e vídeo, Livros, artes plásticas, filosofia



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Blog da Penélope
 minhas sínteses
 telakino
 aureaterranova
 doidivana
 blog da Helena


 
hisafarr


                                      Beatles em "With the Beatles"

Sai matéria de Santaella, que foi minha professora na PUC, nos anos 80. Na Folha. Sobre Haroldo de Campos e como ela, Santaella, se divertia dançando com Samira Chalub, nas festas, esta também minha professora de Psicanálise no curso de Semiótica. Era um curso perfeito, aliás, pois estudávamos a linguagem, então estudávamos a linguagem da fotografia, do cinema, a psicanálise, literatura. Em termos de estudo, de aprendizagem, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, mas também porque eu pegava a lista de livros do semestre e devorava. Comprava-os todos e estudava os textos com paciência e determinação. Infelizmente, não havia muito diálogo com os colegas, a maioria trabalhando em tempo integral (eu havia conseguido uma bolsa e trabalhava em casa com revisão de textos ou corrigindo redação para bons cursinhos de SP) ou com uma noção diferente da minha, a minha visão do que era um curso de pós-graduação. Tive um colega que havia sido também meu colega numa agência de publicidade e que me confessou estar lá porque assim subiria na empresa. Ora, vejam. Que mentalidade. Hoje em dia, ele deve ser maioria em cursos de mestrado, pelo o que ouço contar o que virou o ensino no país. A PUC, a última vez que fui lá, me senti num shopping center. Esse meu comentário é sobre a paisagem do entorno e não sobre os cursos, obviamente. Triste. Sou do tempo das velhas cantinas, com seus sanduíches de presunto, queijo e tomate, honestos. Ruinzinhos, mas honestos. Do tempo em que ninguém fazia um "social" nas bibliotecas, mas sim, íamos lá para estudar arduamente.

Santaella fala da morte precoce de Samira. Lamentei muito e sinceramente, anos depois, fora da PUC, quando soube. Seu curso foi um dos mais brilhantes que fiz. Ela era rigorosa, exigente, porém havia algo nela que fazia com que você se sentisse importante, considerado, sendo aluno medíocre ou não. Uma vez, ela me disse: "você daria uma boa psicanalista, porque você sabe ouvir". Sim, eu sempre ouvi o que os colegas tinham a dizer, adoro acompanhar raciocínios, saber da outra pessoa e saber o que lhe vem à cabeça. Mas confesso que eu não tinha muita paciência para com os colegas medíocres e, infelizmente, nos anos oitenta, eu já lamentava não estar nos setenta. Que foi o período em que fiz parte do meu curso de letras na USP e todo o curso de jornalismo na FAAP. Era o tempo da ditadura, das assembléias (e eu ia em todas), mas também era o tempo de, além de ir fundo nas coisas, dançar para ficar odara, como diz a matéria de Santaella. Esta, também foi professora brilhante, mas eu tinha receio de seu gênio e uma vez tivemos uma querela em seu gabinete, de onde saí chorando. Haviam mexido numa matéria minha, em revista da PUC, sobre Ozu e eu quis saber do autor de tamanho ultraje, antes de uma viagem de Santaella, emtão coordenadora do curso de Semiótica, para o exterior. A mulher estava atarefada e me disse isto com todas as letras e que no entanto teve que ter o trabalho de tentar saber o que eu queria, ou seja, eu estava dando-lhe trabalho. Senti-me um estorvo, em sua vida, naquele momento. Nós não discutimos, mas quando me senti culpada por vê-la estressada, fui defender minha posição e nessas, fiquei nervosíssima, chorei e fui embora sem me despedir. Com receio de ser expulsa da PUC, por desacato, no dia seguinte levantei cedo, comprei uma rosa branca e fui bem cedo, antes das aulas, em seu apartamento, para entregá-la com um pedido de desculpas. Não me lembro como obtive seu endereço, nada. Ela me recebeu rapidamente, mas foi gentil e paciente e, dias mais tarde, antes de uma palestra no auditório, sobre Guimarães Rosa, de um americano, conversou rapidamente comigo. Eu disse: eu não guardo ressentimentos. Mas eu estava mentindo, eu estava mesmo era com uma imensa raiva dela. Eu a achava despótica, prepotente, arrogante e que havia sim feito pouco caso sobre a minha matéria, pelo fato de eu não ser professora e sim aluna. Talvez não fosse nada disso, digo, despótica, mas seu gênio forte me dava medo, pois me lembrava um episódio recente, trágico, com uma amiga, de gênio forte e que havia resvalado em uma tragédia em que eu saí perdendo, e muito. Ou seja, eu a temia e não queria ser sua amiga.

Na verdade, eu não a conhecia e não a sabia como alguém que também dançava nas festas. Porque eu sempre dancei muito nas festas. Mesmo sendo o que muitos de meus amigos classificavam como intelectual. Mas isso é bobagem e eu sempre soube, e sempre dancei muito em casa ouvindo principalmente Beatles e Caetano, ou com amigos, nas festas e onde desse e também fazia Tai-chi e alongamento, ou seja, meu foco estava no corpo também. Aliás, era uma época em que se falava muito em corpo, mas não no jeito de agora, o corpo sarado, bombado, de peitões fake e barriga tanquinho de academia. Graças aos céus, foi um tempo em que as academias não eram moda e sim os cursos de dança livre, espontânea. Tínhamos que ser criativos e ter graça, dançando e não fazer malabarismos e exibir os corpos. Bom, a exibição se fazia, sim, mas não era imprescindível e uns poucos bocós estavam preocupados com isto. A vaidade, na hora de dançar. Nós outros queríamos a dança lúdica, com expôs Santaella em seu texto sobre Haroldo de Campos. Uma vez eu disse àquela amiga com quem me indispus (para sempre), pois também fui aluna de Haroldo: como pode alguém sintonizado com poesia, etc., descuidar tanto do corpo? Eu me referia à enorme pança de Haroldo e, hoje, lendo muito e escrevendo muito, também, eu também adquiri a minha pança, pois fujo das academias. Mas de vez em quando eu deixo os chocolates de lado, os textos e vou fazer minhas caminhadas, hoje em dia menos pelo prazer de sentir o corpo em si, em atividade, e mais para cuidar da tal saúde. Pois é, envelhecer é perder também um pouco (não muito) o gosto por certas coisas interessantes. Sempre recuperáveis, claro. Para ficarmos odara...

 



Escrito por isa às 11h57
[] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]