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membros da banda britânica Keane em bairro de Belo Horizonte; ao fundo, o fotógrafo oficial da banda, Alex Lake. A mídia tem dado demasiada atenção ao que é brega. A começar por Hebe e Sílvio Santos, os destaques do ano. Até onde sei, estas personalidades da tevê não mereceriam um pingo de atenção. O melhor seria a imprensa ignorar ou ser muito dura com aqueles que mamaram nas tetas da ditadura militar (e, até onde eu saiba, Hebe apoiou Maluf descaradamente em uma das eleições passadas, antes do Pitta). Que eu saiba, Hebe sempre teve um salário altíssimo e agora, ao que parece, vai ter o mais alto da Rede TV!. Nada contra quem ganha um bom dinheiro em troca do suor do trabalho, mas tanto a fortuna de Sívio Santos, assim como o salário astronômico da apresentadora são no mínimo indecentes num país como o nosso. Aliás, há vários salários indecentes e, claro, sempre há aí uma troca. Ninguém vendeu sua alma: Não mesmo? Não esteve de conluio com os poderosos opressores? Não mesmo? Quando todo mundo estava babando os ovos ou, nos ovos do senhor Sílvio Santos, aquele, que só agora cedeu de lambuja e apenas por um mês um terreno ao Zé Celso, foi bom ler uma pequena mas crítica e interessante matéria que saiu na Folha por ocasião do aniversário do apresentador. Muito curta para o meu gosto e, infelizmente, não guardei a dita cuja para colocar o nome do autor aqui. Juro que quis escrever à Folha parabenizando o colega jornalista, ele e sua coragem em ir contra a corrente. Mas apareceram prioridades, achei que andava mandando cartinhas demais ao jornal (fiz muito isto, este ano) e deixei para lá. Mas me arrependo. Digo isto porque ontem um amigo me fez perguntas sobre o que era brega e eu não soube se queria extrair algo a mais de mim ou se realmente em sua inocência (apesar de culto, viajado -- viajado não nos moldes de agora, mas bem viajado, se é que se pode dizer assim) ele realmente não tinha/tem noção do que é brega. Tanto que uma das suas perguntas foi se "tinha a ver com o contexto em que o objeto ou a pessoa aparecem". Claro que tem... (E coloquei a ele a questão do pinguim de geladeira, que na prateleira da Livraria Cultura, é uma referência ao kitch, sem ser brega e teve um propósito, que é uma referência divertida quando do lançamento das obras da Penguin no Brasil. Quanto a alguém que, inadvertidamente, coloca um pinguim sobre a geladeira, como era moda assim que as geladeiras foram lançadas no mercado... Claro que era brega! Claro que era kitch! O kitch é a redundância, é um signo que não é puro, ele vem referencializado por outro signo. O brega é o mau gosto e não há o que se discutir sobre isto e, sim, gosto se discute, sim!). O mau gosto é marcado pela impulsividade que não leva em conta todo um contexto, seja em arte, em moda, no mobiiário. Eu, por exemplo, tenho um sofazão na minha sala, que é de tremendo mau gosto, mas eu sei disso, o que não muda nada, quem entra na minha sala vê que é um sofá de mau gosto. Mas eu privilegio o conforto e o despojamento e tenho preguiça de trocá-lo por um novo, então, apesar de saber que é de mau gosto, isto não retira em nada o mérito. Mas a maioria das pessoas adere ao mau gosto por pura falta de informação, mesmo -- creio eu, pois o mau gosto aparece aliado à ignorância, a meu ver. O mau gosto ignora o olhar do outro -- é só perceber a moça de calça legging branca, justíssima no corpo, e uma camiseta curta que lhe mostra o barrigão de gordura acumulada. Sim, o mau gosto é inapropriado... Meu sofá é grande demais para a minha sala, por exemplo e exibe uma estampa (que cobri com uma colcha de motivos indianos) que saiu há muito de moda. Mas eu estou satisfeita com ele e, claro, os que aplaudem Sílvio e Hebe e nossa musica country estão satisfeitos com eles... na falta de algo melhor que alguém de gosto melhor não lhes ofereceu. E é aí que entra o papel da cultura. Mas, enfim, eu acho que, diversões à parte -- e elas devem (devem do verbo dever, sim) ser poucas quando se trata do que é brega, para não sermos concessivos com o que é ruim -- o brega deveria ser menos exaltado pela mídia e por quem sabe o que é cultura ou compreendeu o seu propósito. Mas as novas gerações, gente até, digamos, esclarecida, adora enaltecer o brega. É só ver como a apresentadora Astrid Fontenelle baba pela Hebe e enaltece suas qualidades. Tudo bem, a apresentadora octogenária loira é brega, mas parece ser solidária com quem ama e parece ter algum senso de justiça, em sua franqueza, quando lembramos por exemplo a maneira como colocou o Gugu na parede quando daquele terrível episódio armado pelo seu programa -- creio que se lembram... de alguém se passando por um traficante ou bandido ou algo assim. Aquilo me pegou tanto, acreditei para valer e realmente me impressionou a ponto de eu levar o assunto para a terapia. Digo, eu sabia que a violência grassava e grassa em nosso país, mas aquilo do programa me pegou de um jeito que fiquei muito, muito mal. Se eu tivesse pedido uma indenização ao SBT, hoje estaria rica, e acho que a coisa pegou em mais gente, pois mexeu com a fobia de muita gente e realmente foi algo muito violento e traumatizante, tanto que deu no que deu. Gugu teve que se retratar publicamente, etc. Mas estou fugindo da questão. Quero dizer que a mídia tem dado espaço demais a estas pessoas que jamais fizeram programas decentes nesse país, em respeito à cultura, mas sim sempre de olho nas cifras, a meu ver... e que acho que está na hora de termos um jornalismo menos qualquer coisa e mais crítico. De qualquer modo, não foi ruim ver com meu amigo (por acaso, após longo papo no Reserva Cultural) a decoração de Natal da Paulista, que pode lá ter o seu lado brega, por causa do povo todo ali fotografando e com um excesso de entusiasmo por aquelas figuras paradas e sem vida dos espetaculosos papais noéis e mamães (argh) noéis gigantes, com aquelas mesmas musiquinhas de Natal também sem vida... -- mas o interessante foram as luzes nas árvores, embora eu as prefira como vi o ano passado, de uma maneira meio sinistra, gótica, quando passei de ônibus sob uma chuva torrencial e me deparei com as árvores em azul e sem o efeito visual que deram a elas este ano, com bolas de fogo como que caindo de entre os galhos -- então, prefiro aquela visão meio sinistra e interessante que vislumbrei do ônibus, quando então o parque, com seu ar de floresta fechada, me pareceu então saído de algum conto de fadas europeu. Mas não amaciado pela ótica de Walt Disney, por exemplo e sem o caráter espetaculoso de Hollywood, que detesto, assim como detesto os musicais Cat e tantos outros (odeio musicais!) -- mas sim algo mais contido e sóbrio. A contenção e a sobriedade, aliás, a meu ver, são o contrário, o oposto do brega. E é nisto que aposto. Mas ninguém, claro, precisa concordar comigo e nem gostar do que gosto.
Escrito por isa às 09h21
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Detalhe de foto de Richard Hugues, da banda Keane, em estação da Filadélfia
Nosso futuro está nas mãos dos jovens e, adivinhe o quê? Sim, eles são irresponsáveis... ... claro, como eu já fui um dia. E, claro, não são todos os jovens que são irresponsáveis. E, nem todo jovem é imaturo. Mas, digamos que é norma. E, pensemos, o domínio da tecnologia e que parece regular nossas vidas e ditar normas de comportamento, ai tremo em pensar -- está nas mãos deles. Não, não quero nenhum velho caquético ditando normas, quando temo o jovem, não louvo o velho, o conservador, em contraposição. Apenas assusto-me e às vezes envergonho-me com o que vejo, ou seja, o rumo de nossas vidas, o rumo que tudo está tomando. Tudo bem, jovens podem ser mais idealistas e até mais sonhadores -- ou seriam, já que a juventude de agora tende a ser mais cínica, fruto daquela reviravolta que foram os terríveis anos oitenta? Ah como eu detesto em muitas coisas os anos oitenta, que roubou todo o romantismo dos 50, 60 -- 70 não conta, é uma década sanduíche... e os noventa, também. Enfim, eu temo e vou ver o filme de Godard e aquele monte de gente brega comendo, bebendo, jogando bingo e se "divertindo" numa piscina de um navio, lotada de gente o tempo todo. Tudo lotado de gente o tempo todo e metralhado por imagens, imagens, imagens, imagem nos telões, mesmo na missa que rezam ali, em cores gritantes que é o tom do filme de Godard, cores estouradas em vermelho, amarelo, azul. Não, não foram os jovens que inventaram os cruzeiros bregas, mas o que me deixa atônita é essa vontade de querer viver tudo agora e, superficialmente e, isto tem cara de gente jovem. Tudo está mediocrizado, tudo vem permeado de imagem, tudo é ego, tudo é vaidade, tudo é excesso de exposição, tudo é um teatro que se faz para o outro, tudo é essa vontade de se comunicar, não importa o conteúdo, o importante é estar conectado, é estar falando no celular, é mandar torpedos, é estar conectado o tempo todo e, se for ler um livro, leia no iPad. Não, não vou ler meus livros no iPad, vou resistir e continuar com o papel, essa matéria gostosa de pegar -- o tato, ah o tato! O tato que não me deixa tocar o dedo em coisas frias, gélidas, como um iPad. Terei um iPad? Não sei. Não sou retrógrada, não sou contra as novas tecnologias, mas tenho receio do excesso e em que mãos tudo está. É isto. Por hoje. Vejam Film Socialisme. Aprecie o poder dos jovens com moderação. Em tempo: uma chuva caiu no parapeito da minha janela. Ela fez pequenos rombos pretos nesse parapeito. Por que esquecemos o horror da chuva ácida? Por que estamos deixando nossos rios morrerem? Vi um documentário sobre rios. É assustador. Quem necessita de Facebook, Twitter? Vamos repensar a questão da poluição, do inferno das grandes cidades, da superpopulação -- vamos salvar os rios. E manter nossas casas e apartamentos em pé. Vamos salvar os rios e vislumbrar um futuro, seja com ou sem iPad.
Escrito por isa às 09h17
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