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                                                                                                  Um Natal

                                                                                 Isa Fonseca

                                              "em terras de vulcão/deito de costas no milheiro (...) /verás:malgrado teu cuidado/as cinzas deste campo" (Sete Suítes, "Cantos da Montanha"; Antonio Fernando De Franceschi)

 

Sou uma dona de casa. Mas, isto não importa -- embora só uma dona de casa saiba o que seja verdadeiramente sê-lo. De qualquer modo, isto não contou muito quando o almoço de Natal foi lá em casa. Digo, sabiam dos meus famosos doces, assados -- os dotes para a culinária. A bonita árvore de Natal, todos os anos armada no canto da sala e decorada com esmero. E criatividade (recorto anjos de papel, fabrico bolas disformes, brinco com a cor e tudo o mais). E o vermelho inunda o lugar. Mas a reunião seria em casa porque estavam todos, digo, as pessoas da famíllia, digo, os irmãos e suas famílias, de passagem por São Paulo, por causa das viagens internacionais que fariam a seguir, a fim de comemorar o Ano Novo fora do Brasil.

A primeira notícia, decepcionante, veio rápida, via texto no celular, esta terrível arma moderna de comunicação à distância: iremos só os irmãos. Suas cunhadas e sobrinhos querem chegar mais cedo ao aeroporto e fazer compras. Compras, em pleno Natal? No aeroporto? Bem, nos dias de hoje, tudo é mesmo possível, pensei, sem evitar a careta que sempre fazia quando o assunto era "ai essa classe média ávida pelo consumo!".

Recebo um beijo distraído e sem cor de cada um dos dois irmãos, à entrada. Molemente, Fernando me estende um buquê de flores esmaecidas e quis crer que era para mim. Peguei-o, agradeci, procurei seu olhar, o meu, derretido, mas ele estava examinando um quadro, à entrada, e do qual eu sabia não gostar. Se não gostava, por que lançava a ele sempre o mesmo olhar, ensimesmado e reprovativo, com cara de quem comeu e não gostou ao adentrar o apartamento? Eu gostava de pintar gatos. Não tinha talento para a pintura, mas quis retratar meu gato Zé, morto há cinco anos, o companheiro em seus 16 anos de vida, nós dois ali sozinhos naquele apartamentinho em Higienópolis. Sozinhos e felizes, ouvindo música, vendo tevê e assistindo a todos os filmes interessantes realizados neste planeta, via tevê a cabo ou mesmo comprados por mim. E o Zé era engraçado, comilão, tinha um enorme senso de humor, era esperto, não muito afetivo, é verdade, mas era engraçado, esperto e brincalhão. E me fazia rir. Diferentemente dos meus irmãos. E, de quebra, lá do seu jeito, ouvia-me com atenção, respondia-me, conversava comigo. Sim, o Zé sabia como fazer parte do meu mundo e isto me enchia de satisfação, de amor por ele.

Eu havia passado toda a tarde anterior na cozinha. Havia feito o frango recheado com farofa de que gostavam, regado ao molho de calda de vinho e ameixas. Eles só não lamberam o prato, porque haviam sido rigidamente educados -- como eu. (Só que na juventude eu dei minhas escapadas, eles não). E, enquanto buscava a sobremesa, Felício atendeu ao celular e começou uma briga com sua mulher, Carina, por causa de um videogame que meu sobrinho estava pensando em adquirir em alguma loja -- apesar de, segundo escutei, já ter ganho os seus presentes de Natal.

Retirei o manjar branco da geladeira e cobri-o com uma calda feita com o resto das ameixas que usara para colocar no frango. Depois remexi a calda, grossa, onde havia pequenas lascas de coco. O ouvido em pé. E veio-me à memória eu ali sentada na cozinha, no dia anterior, vasculhando o livro de receitas e pensando na melhor sobremesa para todos. Suas preferências, na infância. E a ida ao supermercado. E o coco sendo fatiado, com disciplina e paciência, dando às lascas o tamanho e textura ideais. E agora eu o revolvia naquela espessa calda negra. Era bonito, o contraste. Mas eu não poderia comentar isto -- digo, usando a palavra contraste com entusiasmo --  com meus irmãos, porque achariam que eu os estava provocando, ao evocar a importância da não-discriminação. Da convivência, em harmonia, entre os opostos. Essa nossa irmã... envelhece e não perde o hábito da rebeldia -- como se ainda fosse a estudante de vinte anos, de esquerda, que adorava sair em passeatas contra o governo. A ditadura militar. O governo Maluf, e outros. Pobre irmã, o mundo caminha, e ela não se dá conta. Sim, eis o que pensariam desta velha hippie -- embora eu não me vista e nem pense como uma. E, jamais fui hippie, tampouco! O termo que usavam para nós, jovens de classe-média e que queriam algo mais e não o mesmo de sempre era... alternativos.

Fernando repreende Felício, chamando-o de mão-de-vaca. Eles iniciam uma discussão e, Felício, ainda irritado com a questão do videogame, eleva a voz. Minha mão hesita em colocar mais uma camada de calda sobre o pudim. Fernando deve ter empurrado o irmão, pois ouço um baque seco e em seguida o grito breve e, também: seu merda, você machucou minha perna! E olha como ficou a calça do meu terno! Fernando, com a eterna voz de caçula xororô, diz que foi provocado, antes -- justificando o que presumo tenha sido um empurrão. Presumo, porque nada vi. Caminho da cozinha à porta da sala, sustentando a colher da calda em uma das mãos. Peço que se acalmem (para terem soltado um merda, era porque a coisa estava feia! Eles, que viviam me lembrando que era necessário ter modos). Mas é como se eu estivesse invisível e muda, pois não me olham e não me ouvem e continuam a se provocar.

Dali da porta, juro, mentalmente, que nos próximos anos passarei os natais sozinha. Isto é, em companhia da ausência presente do meu gato Zé.



Escrito por isa às 12h07
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