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Quando está sol, fico mais feliz, disposta, animada. Mas sempre gostei de livros e filmes sombrios, não exatamente os góticos, mas gosto de obras de arte que propõem incertezas, ao invés de me dar tudo mastigado, chapado e com um único viés (e isto se dá, o mais das vezes, com filmes americanos). Foi com surpresa que li um depoimento do cineasta chileno Raúl Ruiz (seu filme mais conhecido chama-se As três coroas do marinheiro) para a Folha, em que diz algo que sinto, mas que jamais soube articular direito; diz ele, quando perguntado sobre nossas novelas:

--- Sim, elas são muito simpáticas. Vê-se que são de um país "enfático", frontal, com um discurso aberto --- o que me choca um pouco. Mas assisti a trechos de "Maysa", que tinha planos bonitos.

o entrevistador: Por que o Brasil é "enfático"?

--- Porque há um excesso de realidade em seu país: muita luz, muitos estímulos, muito de tudo. Quando estive aí, me senti esgotado.

Justamente, é como me sinto, às vezes: esgotada. Certamente que o calor cansa; incham os membros e por aí vai... Mas é mais que isto a que se refere Raúl Ruiz e é a exata sensação que tenho: a de que o país carrega em si um excesso de realidade e pouco mistério ou lugares intimistas. Mesmo nossos cafés, quando procuro um para ler em paz, não consigo, como consegui certa vez em Paris, quando lá estive por 17 dias apenas -- há sempre gente falando alto, aqui, há sempre uma espécie de estardalhaço, mesmo entre os garçons e donos de estabelecimento. Não gosto de gente sisuda, mas um pouco de contenção seria bom, em alguns lugares, penso eu. Em nome de um silêncio que não se encontra mais, nem nos estabelecimentos fechados. Lembro-me mesmo que não havia silêncio nem nas bibliotecas da USP, principalmente na ECA. Os jovens falam demais, demais mesmo e agora com o celular em todos os lugares, a coisa se tornou impossível. Não somente entre os jovens, mas em meio a toda a população. Oh meu Deus, penso eu, o que dirá, então, na Itália, famosos que são os italianos por seu excesso de expansividade?

E leio hoje que a TAM disponibilizou em um de seus voos a conversa ao celular. É o fim do sossego em qualquer lugar, mesmo... Imagine quando as luzes se apagam e você tenta dormir um pouquinho e logo vem aquele chato que não consegue pregar o olho em aviões jogar conversa fora com os que ficaram em terra. Ai... :.(



Escrito por isa às 11h13
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Eu me pergunto: será que alguém leva a sério o que Pondé escreve na Folha? Que desperdício de espaço e papel! Ele é uma criança birrenta que quer ser do contra, mas não sabe articular bem as idéias e nem fazer a defesa do que acredita. Mas há uma coisa que ele sabe fazer, que é ser chato e do contra. Quem necessita de um articulista assim? Há muito deixei de ler seus textos, mas hoje me parecia promissor, e nada ali me pareceu convincente ou inteligente. Tristeza...

Qual é o critério de contratação de um articulista permanente no jornal? Será que quem o contratou está satisfeito? Será que os poemas também do fraquíssimo e imaturo Corsaletti agradam a alguém?

Eu me pergunto, com certo desânimo.



Escrito por isa às 11h03
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Sou frequentadora da Mostra de Cinema Internacional de São Paulo desde a primeira, creio que no ano de 76. Nos anos seguintes, comprei permanentes e fiz loucuras para ver os filmes que a crítica considerava excelentes e imperdíveis. Depois que defendi minha tese em cinema e parti para uma espécie de luto, um ressentimento feroz contra o meio acadêmico e das artes, aqui em São Paulo, que se tornava cada vez mais competitivo e mesmo desumano, desleal, dei um tempo das mostras internacionais; via um ou outro filme, quando chegava no cinema e percebia que podia assistir a ele sem ter que brigar por ingresso e lugar.

Neste ano, não tive sorte. Cheguei com 15 minutos de adiantamento à fila da compra de ingressos, no Cinesesc, pois o filme me interessava: sobre dois irmãos escritores, um fracassado e outro bem-sucedido, diz a sinopse. Dois rapazes da mostra parecem estressados atrás do balcão; um terceiro juntou-se a eles e nada da fila andar. Era uma fila pequena. Às 15:32, portanto dois minutos depois do prazo do início do filme, o rapaz à minha frente foi atendido e eis que ouço, após ficar 17 minutos na fila, com os pés inchados pelo calor: "não há mais ingresso para esta sessão". Se isto não é desrespeito e descaso pelo espectador, não sei então o que é. Corri para o Livraria Cultura e vi o fraquíssimo Hammada, que só pode gostar dele quem não viu nada mais interessante sobre o assunto, o que não é meu caso. O filme tem roteiro preguiçoso e é mal amarrado e me ressenti de alguém pegar uma câmera e entrevistar um habitante que colocasse a real situação daquela parte do mundo, na fronteira do continente africano com a Espanha, próxima ao Marrocos e, pelo que entendi, no Saara -- ao invés de apenas mostrar o cotidiano banal de uma criança local.

Tudo isto para dizer que resolvi, ontem, não ceder à tentação de ver o esperado filme de Manoel de Oliveira, ao meio-dia. E nem de ver Abbas Kiarostami no Reserva Cultural, já que lá a sala é pequena. Ao invés disto, fui devolver um filme na locadora e flanar pela Paulista e me deparo, numa banca de revistas, com o livro Middlemarch, de George Eliot (que, na verdade, se chamava Mary Ann Evans -- britânica), a um preço de 14 reais. O livro é um catatau, imenso e me lembro que, quando do seu lançamento, assustei-me com o preço e, à época, tinha outras prioridades. Mais do que depressa comprei o volume e a dois passos dali já o abri para ver se estava perfeito. Estava, para minha felicidade.

Estou terminando a releitura de Mrs. Dalloway, o fantástico Mrs. Dallaway, de Virginia Woolf, mas ainda assim arrisquei dar uma olhada nas primeiras páginas (assim como fiz com Solar, de Ian McEwan) e eis que logo me deparo com um diálogo em que uma das moças, observando as jóias de herança, diz à outra que jamais colocaria no pescoço uma cruz, como um penduricalho. Devo dizer que achei aquilo fantástico. Hoje em dia, desculpem-me a visão conservadora, mas é que é a pura verdade... todo mundo coloca qualquer coisa sobre o corpo sem a menor discriminação, sem o menor senso do que é próprio, do que é brega e não brega, enfim, do que é apropriado. É a superficialidade como tônica, é a banalização. Como sou contra a banalização, na medida do possível, nesse mundo muderrrno, achei a frase fantástica. Não que eu ache o máximo a era vitoriana, mas ao menos as pessoas, ao que parece, tinham um senso do que é próprio.

Isto me faz lembrar aquela amiga que, com uma cruz ao pescoço, declarou-me (numa viagem ao litoral), após fazer duas ou três sessões de meditação em um templo budista aqui em São Paulo, que era budista. Eu fiquei sem fala; speachless. Como eu convivia muito com ela, eu sabia que ela não era budista. E ler O capital não me faz marxista! Enfim... tempos de banalizações. O que quero dizer é que os tempos de uma certa retidão, talvez tenham mantido um pouco os pingos nos is (ou, pensando no trema, teremos também que tornar essa expressão inusual, se resolverem tirar os pingos dos is?).

Falando em banalização e novos tempos, após meses em que coloquei uma manta indiana sobre uma velha poltrona dos anos oitenta, que minha gata desmantelou com as unhas, reparei que há ali, numa sequência, na barra, um elefante e uma palmeira. Ou seja, são vários elefantes em azul, à sombra de palmeiras. E eu não tinha notado isto. Foi preciso um domingo de silêncio, coisa rara e sem me atirar no trânsito infernal da cidade, para que, ao ler o jornal, eu pusesse foco no desenho da manta. Vejam só, o que a maioria das pessoas está perdendo, hoje em dia: a precisão dos detalhes das coisas.

Uma pena. Uma pena mesmo. Meu total repúdio à banalização, ao superficial, à falta de silêncio e o olvido aos detalhes. Porque isto tem um preço e já estamos pagando por ele.



Escrito por isa às 12h41
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