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Quero colocar uma questão delicada, aqui, a de que a França tem expulsado ciganos do país. Já ouvi várias versões, pró e contra, no que diz respeito à migração, como um todo. A meu ver, a questão tem que tender para o lado da sensatez. Vou dar um exemplo que pode, a princípio, parecer meio tosco, mas é a imagem que tenho da situação e que pode, muito bem, não corresponder à realidade, mas eis como a vejo: você mora numa casa com quatro pessoas e está tudo, de certo modo, organizado. São quatro adultos que pagam as contas de gás, telefone, água e dividem as despesas do aluguel e do supermercado. Aí, repentinamente, chegam mais quatro pessoas para morar nesta mesma casa. Você, que dormia sozinho e tinha uma relativa privacidade, vai ter que dividir o seu quarto. Depois, descobre que as pessoas que vieram ali morar, e que nem pediram licença, não têm dinheiro para dividir as despesas. Como ficará a situação, então, onde todos moram no mesmo espaço, mas de maneira desigual? Como fica você, que se sente invadido, mas ao mesmo tempo não quer parecer egoísta e acha que "dá para pôr mais água no feijão" e ajeitar a situação? Na minha opinião, que leio por cima, superficialmente, sobre política, pois não é foco principal de meus interesses no dia a dia, digo, não me aprofundo como deveria em política, embora o assunto me interesse desde há muito -- para mim, na minha opinião, eu acho que a França está tentando fazer o melhor, digo, o possível, considerando a caótica situação em que vive o país nesta questão da migração e que se arrasta por décadas (ok, países colonialistas estão pagando o preço, agora, do que fizeram no passado, mas deve a população atual pagar os erros daqueles governos?). Leio a manchete na Folha de São Paulo e ela é rasa e forte: "após expulsar ciganos, França deve adequar a legislação à da UE". Expulsar ciganos é mesmo um pouco forte, mas, depois que lemos a matéria, entendemos que: o porta-voz do Ministério do Interior afirmou que a França tem tratado os expulsos caso a caso e que, portanto, não dá para falar em expulsão coletiva e por serem ciganos. Ou seja, há uma permissão e isto vale para todo estrangeiro, de que qualquer pessoa pode ficar por três meses na França, o que a caracterizaria como turista. Passado este prazo, cada caso deve ser visto indivualmente, para que a pessoa dê suas razões para permanecer no país (casamento, trabalho, convite formal, etc.). No caso dos ciganos, o que alegariam? Que são ciganos e que sua prática, seu modus vivendi é migratório Complicado... Diz ainda a matéria da Folha: " Como tanto a França como a Romênia são membros da UE, seus cidadão podem viajar livremente e permanecer nos dois países por até três meses". O que tem acontecido é que desde primeiro de agosto deste ano, 10.000 romenos e búlgaros foram encaminhados aos seus países de origem. Diz a França que isto não se deve a uma discriminação, mas sim à questão do prazo da permanência, previsto em lei. Quando estive em Paris, há mais de dez anos atrás, os franceses já se queixavam do seguinte: você estuda (e o francês estuda muito), se forma, está preparado para o mercado, mas este não o contrata, preferindo pagar um salário menor àquela pessoa que veio de fora e que aceita ganhar menos do que você, que está preparado para o setor. Com isto, sofre você e sofrem as pessoas que utilizam o (mau) serviço desta pessoa despreparada e que "tirou o seu lugar". E, com isto, Paris incha. O trânsito e a poluição pioram e há problemas de moradia. Os migrantes, que mal falam o francês, quando o falam, vão estudar com franceses que já dominam a língua. As diferenças se acirram em sala de aula. Nas ruas. Há a questão dos costumes. Enfim, é toda uma problemática de difícil solução. Porém, a meu ver, chamar os franceses de vilões, eu acho que é passar longe de uma situação que pode ser pensada e equalizada, ao invés de pender para o lado emocional da questão. É claro que é uma solução difícil, mas, levando-se em questão a gravidade da questão, não teria como ser diferente, não é? E, queiramos ou não, o mundo está dividido entre nações e estas têm suas leis, para que a população possa viver de maneira civilizada. Pensar o contrário disto, ou seja, anarquicamente, é retroceder no tempo e, pior, ter uma idéia utópica, neste momento, de que os espaços são para todos, independentemente de suas nacionalidades. E diferenças. Não, esta não é, presentemente, a realidade.
Escrito por isa às 09h06
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Estou no meio do livro da releitura de Mrs. Dalloway (a primeira foi nos anos 70). Contei com minha memória, ao escrever esse texto, e sirvo-me do filme que vi recentemente, em dvd, baseado no livro homônimo. Dedico o texto a duas amizades recuperadas recentemente; às minhas amigas que estudaram comigo no Pio XII e que, indiretamente, me inspiraram a escrevê-lo. A natureza traída "Joana errou de João" (Chico Buarque) Septimus, o personagem da escritora inglesa Virginia Woolf em Mrs. Dalloway, romance que é um clássico da literatura universal, foi à guerra. Ele viu um companheiro de luta morrer, explodir à sua frente e não sentiu nada. Os sentidos de Septimus, àquela altura, já estavam embotados. O que viria mais tarde, seria a loucura. O que fez com que Septimus se desviasse de seu caminho e traísse a própria natureza, para agradar a outrem e, com isto a si mesmo, naquele momento e, ainda, agradar ao que chamamos de sistema? Ele, a conselho de seu superior, entregou-se aos esportes, mais especificamente ao futebol — para endurecer — e depois, às armas, e tornou-se, assim, viril. Tornou-se um homem que, via-se, era exemplar. Deixou de ser fraco. Deixou de ouvir as queixas de seu coração — ah nosso coração, tão mole! É ali que residem as paixões. O órgão flechado por cupido — que responde fácil, músculo que sangra. Mas, muitas vezes, é difícil ver sangue. É difícil resignar-se à fragilidade. Encará-la de frente. Então criamos um universo fictício e nos colocamos ali como personagens. Septimus não era forte. Septimus resolveu ser forte (uma opção, digamos assim, vinda de uma idéia — uma opção, portanto, artificiosa). No entanto, a cada passo que faz com que nos desviemos de nossa natureza — e é quando paramos de ouvir a nós mesmos, fazendo ouvidos moucos aos apelos dessa mesma natureza — pagamos um preço caro. No caso de Septimus, que escolhe friamente uma garota frívola para ser sua companheira, modista, que dava mais importância às aparências e não sabia ler o caráter das pessoas — uma ignorante, neste sentido, de não saber penetrar transparências, de não saber ler o outro —, no caso de Septmus, somados a isto, todos os atos decorrentes da sua personalidade artificialmente moldada, seguem-se rumo à tragédia. A tragédia da loucura. Que é quando se perde a clareza das coisas. Que é quando tudo se mistura e já não temos mais o juízo perfeito. Mas, que juízo, se antes ele já não soube separar o joio do trigo? Se prestou-se a ser joguete de uma situação, por assim dizer, confortável? Ser um outro, que não ele mesmo. Para evitar a dor. E, evitando-se a dor através de um artifício, Septimus termina por evitar a si mesmo, ou seja, a sua natureza. Mas é preciso lembrar que um dia as janelas dos porões serão abertas, forçosamente e tudo o que foi aprisionado, sairá com a fúria de uma maré revolta. A energia psíquica. Septimus não contava com isto, com a força da energia de sua psique. Nem poderia. Septimus era um homem comum. Quando chegou ao exército e provou ser capaz, capaz de enfrentar a dureza da vida e fez tudo o que esperavam dele — afinal, estamos nesta vida é para isto mesmo, para enfrentá-la com cega determinação —, achou estar no caminho certo. Não houve questionamento. Dúvida. Ninguém desatou os nós, ao contrário. Firmeza pede nó bem atado, se possível daqueles que não se consegue desatar nunca mais. É quando tudo se dá na marra — eis a expressão. Na marra. Sem sutilezas ou detalhes. Sem escuta. Maquinalmente passa-se de uma condição, à outra. Só que não somos máquina e disso Septimus não se deu conta. Da (sua) natureza humana. O desfecho da vida de Septimus é trágico, já que cai nas mãos de um médico pouco hábil, naquele começo de século XX, quando enlouquece. (A mulher que, como se disse, não sabe ler o outro, crê mesmo que tal médico é uma ótima escolha — já que lhe parece um homem digno, um homem "com quatro filhinhos"e ela, ela já com cinco anos de casamento e sem filho algum, ela que tanto queria um filho, pois sentia-se solitária). A loucura de Septimus. A loucura de Septimus o faz delirar e ver, num cachorro, um homem. Ou seja, não há mais definição de campo. Os campos estão misturados. Mas, eles já não estavam antes? Já não havia uma falta de critério, antes? O que foi exigido de Septimus, quando, a ele, deu-se (e, ele, por sua vez, aceitou) um senso de dever e não um senso de prazer? Teria achado que sairia incólume? E, desde quando saímos incólumes das situações em que nos metemos? O que dirá quando metemos os pés pelas mãos, quando escolhemos um caminho artificialmente? Inpensadamente? Inconscientemente? No entanto, nós nos penalizamos dele. Pobre Septimus, dizemos, ao ler Mrs. Dalloway. O que nos leva a sentir pena de Septimus? Seria, como um reflexo, pena de nós mesmos, que muitas vezes somos empurrados pelo destino a sermos um outro, que não não nós mesmos? Conhece-te a ti mesmo. Se não o segredo da fechadura, que resida aí, ao menos, uma das possibilidades para um final de vida menos trágico. Uma vida, ela em si mesma, menos trágica. Pois, dizem, ninguém cava nossa sepultura por nós, e sim somos nós os responsáveis pela nossa História, desde aquela idade em que começamos a criar juízo. Somos, portanto, o sujeito da nossa história. Aliás, quem falou isto foi Lacan. (Mas, no começo do século XX, Lacan ainda não existia para o mundo. Existe agora, para nossa fortuna. Estaremos com os ouvidos e olhos bem abertos para escutá-lo e enxergar algumas de suas lições/revelações?).
Escrito por isa às 08h56
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