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Solilóquio ao pé da jaboticabeira invisível Eu gosto de jaboticaba, que é uma fruta pequena, escura e pode ser bem doce. Mas eu prefiro chocolates, embora estes sejam industrializados. É uma pena. Eu podia ter sido viciada em jaboticabas, se os quintais com árvores ainda existissem nas casas, como no tempo da minha infância. Também poderia ler sob o pé de uma jaboticabeira, no silêncio, Mas hoje em dia não vejo muitos pés de árvores frutíferas e silêncio não há mais. A primeira vez que vi um pé de jaboticaba de perto, eu não lembro, mas não esqueço daquele do quintal do meu amado Joca, quando ele era vivo (faleceu aos 18 anos, no auge da minha paixão por ele, de acidente de carro. O pior é que ele não sabia que eu era apaixonadíssima por ele. O pior é que eu acho que ele se interessava mais por minha amiga Eliane, do que por mim. O pior é que depois fui estudar na faculdade onde ele estudava, quando morreu, aqui em São Paulo e isto me fez lembrar dele quase sempre que punha os pés lá. Foram quatro anos de FAAP e volta a um passado triste. Mas, não é disto que quero falar). De qualquer modo, ainda está na minha memória a visão da última vez que vislumbrei um pé de jaboticabeira, e sob o silêncio. Foi no consultório do meu terapeuta, uma casa enorme e linda e bem cuidada, cuidada com muito esmero e amor, de meu terapeuta. A sala possuía (ou, possui) uma grande janela envidraçada e víamos a jaboticabeira no canto esquerdo, ao fundo, próxima a uma piscina onde se praticava watsu, que é uma terapia na água (que, nunca fiz, e me arrependo). Neste consultório, na sala de espera, havia uma pequena lareira para os dias de frio. No banheiro, um pequeno quadro de Volpi. O empregado, João, era de uma dedicação e gentileza inesquecíveis e meu terapeuta dizia que havia feito, ainda bem, nesta vida, boas parcerias. (Isto conta! Boas parcerias, nesta vida, ah como contam para que a vida da gente fique um pouquinho mais gostosa, confortável, sem atropelos, falando a mesma linguagem). Um dia, meu terapeuta pediu ao João que me desse muitas, mas muitas mesmo jaboticabas para que eu trouxesse aqui para casa. Eu adoro meu terapeuta, embora eu preferisse que ele fosse um psicanalista. Mas aí, claro, ele não seria ele, com todo aquele amor transbordando, aquela gentileza em pessoa, aqueles abraços e beijos sinceros, aquela escuta maravilhosa, aquele seu dom para ajudar as pessoas, adepto de São Francisco que é e um crente das coisas simples do interior e da medicina alternativa. Mas, para mim, muita coisa não funcionou, como por exemplo a sua crença no espiritismo, por exemplo. Mas ao menos ele parecia também não gostar de Paulo Coelho, o que é um alívio. Mas às vezes acho que ele dizia isto para me agradar, não sei. Também não sei se era adepto dos livros de auto-ajuda. Infelizmente, sete entre meus atuais amigos, digo, os mais próximos, são adeptos de livros de auto-ajuda e jamais leram os clássicos da literatura universal, ou leram muito pouco. Ontem uma grande amiga, que recuperei há já alguns anos, lá da adolescência e que fez teatro comigo, disse que não lê livros. Que não tem o hábito da leitura. E, como não passou muito bem, com crises internas, salvou-se lendo textos na internet sobre controle da mente. Será mesmo que ela se salvou ou pensa que se salvou? Por que, segundo entendo, de vida, psicanálise, terapia, nosso processo tem que ser individual, não? E, com a presença de um terapeuta/psicanalista para ouvir nossos lamentos e perceber nossa voz e atos falhos, não? Enfim, eu já li livro de auto-ajuda, num momento longe da terapia e com uma necessidade premente de conforto acerca da morte de minha gata querida, que era como uma filha adolescente que eu não veria nunca mais. Eu sei, a coisa pega. E entendo porque há tanto livro de auto-ajuda abarrotando as prateleiras. O que não justifica... claro. O que eu quis dizer ao telefone para esta amiga, ontem, que não mora no Brasil, mas não tive coragem, é que um texto de auto-ajuda é paliativo e pode, muitas vezes, menos ajudar do que se pensa. Por que o tal método de controle da mente que ela falou incita a pessoa a ir construindo todo um universo mental, passo a passo. Com isto, ao ter que entender tal método, será que a pessoa, envolvida com o texto e com essa espécie de "jogo", não passa ao largo do fundamental? Que seria escutar a própria voz, numa linguagem e sendo assim orientada por um profissional, em sua dor mesma, em sua falta e na dor e na falta que é dela, em sua fala única e individual e que nenhum método universal jamais conseguirá captar? Aliás, métodos lidam com demanda, apenas e não captam nada, é uma via de mão única, já que o sujeito inexiste, para o tal método, que é simples e pura teoria. Distanciada. Não? Adoro jaboticabas. Mas prefiro chocolates, ainda que industrializados. O ser humano é mesmo muito contraditório. Pena.
Escrito por isa às 10h13
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