| |
Foto: Richard Hugues, baterista da banda Keane e fotógrafo. Pessoas castradoras e o Alzheimer Como meu pai está com Alzheimer já há alguns anos, tenho lido muito sobre esta doença. Ele ainda está num estágio intermediário, em que fala coisas desconexas e outras com nexo. Emagreceu muito, embora seja um glutão e adore comer. Está com 88 anos, mas ao mesmo tempo tem uma vitalidade surpreendente. Não que isto seja motivo para que se desloque com facilidade; não. Está com problemas de locomoção; mas o pior mesmo são as confusões que faz entre passado e presente e, as fantasias. O que eu sei é que meu pai teve um pai muito repressivo e muito sério, extremamente sério. Não me lembro do meu avô sorrindo. Meu pai é piadista, mas se o ambiente é contaminado pela alegria, ele logo dá um jeito de tudo voltar a ser como antes, um ambiente sério. Meio pai sempre foi meio falastrão, cheio de histórias e aventuras para contar e sempre muito fantasioso. Talvez eu tenha herdado esse lado fantasioso, mas uso a ficção para me expressar, o que acho positivo. No entanto, é difícil achar um ambiente em que me sinta relaxada e tranqüila, a não ser quando estou em casa, com minhas coisas: meus livros, meu computador, filmes, fazendo uma comida. Talvez eu tenha que ter novamente um animal de estimação para que a alegria volte para minha casa. Estou, de algum modo, convencida de que a alegria tem a ver com um certo bem-estar emocional e portanto, cerebral. Mas, não é só isto. Preocupam-me as amizades com pessoas que prezo, mas que identifico como castradoras. Acho este um defeito muito chato numa pessoa e minha primeira reação, devido à desagradabilidade da convivência, que não flui (porque o castrador está sempre te dando broncas, sejam elas pequenas ou não, mas estão sempre TOLHENDO A SUA ESPONTANEIDADE) é me afastar por um tempo. Acho isto terrível, porque quando ocorre, digo, a repressão, o cérebro é obrigado a repensar o que foi dito e há um desconforto, ao menos para mim, terrível. Isto, muitas vezes, me deixa ensimesmada e me leva à depressão, já que costumo identificar a repressão com um mal-querer. Uma tentativa do outro em solapar minha identidade, minha personalidade, a espontaneidade. E vejo muito, muito mesmo, isto na nossa sociedade, em geral. Não estou falando daquele toquezinho que pais dão e devem mesmo dar aos filhos, ao colocar limites. Estou falando na repressão, mesmo. Quando você não deixa o momento fluir ou quer que o outro diga algo diferente do que ele acabou de dizer. Ou chama a atenção do outro em sua espontaneidade. Outro dia mesmo uma amiga me disse assim, ao telefone: "por que você disse isso? Você devia ter esperado eu explicar a coisa toda ao invés de dizer isto o que acaba de dizer". Ora, eu teria então que pedir desculpas por ter sido espontânea e do meu cérebro não raciocinar DENTRO do raciocínio da pessoa? Pessoas assim, eu sei, são extremamente narcísicas. Elas estão espelhando no outro elas mesmas o tempo todo. E isto é IMPOSSÍVEL, enquanto resultado satisfatório, então estas pessoas quase sempre estão de mal com o mundo. E são agressivas. Claro. Eis aí um traço da esquizofrenia. Claro. Mas, enfim, nem todo mundo assim é esquizofrênico, mas eu acho que um esquizofrênico sofre e faz os outro sofrerem, o que é terrível. Estas pessoas também têm uma instabilidade emocional muito grande e, quase sempre, presencio situações em que dava para levar com tranquilidade, mas estas pessoas complicam tudo... o que é uma pena. Elas dão um jeito de complicar e cortar o fluxo natural das coisas. Não deixam fluir. Acho que também foram muito exigidas ou reprimidas quando criança, então cobram demais de si e dos outros e, mais do que cobrar, entra a questão do narcisismo de que tudo tem que ser feito à sua imagem e semelhança -- como se fossem pequenos deuses exigentes e mimados. Conheço ao menos três ou quatro pessoas assim. próximas a mim e elas sofrem e fazem os outros sofrerem. Enfim, tendo clareza disto, sempre acho que vou driblar o que acontece, mas quando vejo, caí na armadilha. Sofro e fico pensando em dar respostas e no fim, reconhecendo que são pessoas doentes, deixo para lá. (Deixo para lá em termos, porque as frases ficam na minha cabeça e há algo como: eu devia ter dito aquilo quando ela me chamou a atenção, como deixei passar? Ora, simples, deixei passar porque não é do meu feitio ser repressora!) E, temo que, nessas relações afetivas, todos sejam afetados e com isto, apressando a corrida em direção ao Alzheimer. Pois um dos quesitos é a confusão mental e, sem dúvida, aí, nos casos que citei, creio haver confusão mental, ao confundir o outro com si mesmo -- por exemplo (na situação de espelhamento).
Escrito por isa às 20h34
[]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|