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foto:Richard Hugues, da banda Keane Jamais considerei que, para ter uma amizade (apesar de prezar muitíssimo a cultura), os amigos fossem necessariamente cultos. Claro que entre amigos há sempre uma troca e creio que vem de meus amigos, digamos, incultos, a minha curiosidade em relação ao espiritismo. Afora isto, meu primeiro terapeuta, lá nos anos 80, era/é um homem interessado em religiões, cultura indiana, astrologia... enfim, fazia/faz o tipo chamado de "alternativo", que caracterizava bem os habitantes e profissionais do meu antigo bairro, a Vila Madalena. Creio que veio daí, de tudo o que li e aprendi sobre, a minha motivação em ir ver o filme sobre Chico Xavier. Antes quero fazer uma observação: quando digo amigos incultos, falo daqueles que abandonaram os estudos ou não deram valor a eles, não prosseguiram lendo os clássicos da literatura, da filosofia, não vão muito a cinema, não lêem um jornal diário, enfim, amigos que gostam de muitas coisas legais mas não são necessariamente da turma "papo-cabeça". Creio que não preciso me alongar aqui sobre isto, creio que já deu para perceber a que me refiro... e que não há aqui nenhum sentido pejorativo ou depreciativo do termo inculto. O que me levou a me distanciar de certas posturas, digo, do tempo da terapia, se dá pelo fato de eu estar sempre buscando coisas novas na área da cultura e, ao começar o curso de pós, pude constatar que a psicanálise é muito mais eficaz, embora leve anos, do que a terapia ou seja, a análise que devolve ao sujeito suas próprias inquietações e apenas funciona como bússola, é muito mais eficaz que conselhos aqui e ali, que muitas vezes são mero paliativos e um conforto momentâneo, mas podem desviar o paciente de sua verdadeira vocação/anseios pessoais e mesmo mexer com sua estrutura de caráter. Caráter aqui no sentido reichiano. Ao menos o sujeito se reconhece como indivíduo, mesmo na sua dor e incertezas, enquanto que a terapia pode ser um bálsamo momentâneo. A meu ver. E fui ver Chico Xavier. Minha conclusão, talvez parcial, é de que o homem era mesmo de uma simplicidade adorável e ao mesmo tempo patética. Bem ao gosto do que é popular (lembro-me agora das canções lamentosas da música sertaneja). Este homem era o espelho da população miserável, à época, que nem ao menos direito a um Bolsa Família, tinha. Ou seja, a miséria quando era miséria, era miséria total mesmo. O povo carece de tudo e pede a Deus e aos invisíveis que o ajudem. Nada mais coerente, já que os visíveis e o que é palpável não lhe dão resposta alguma. A crença nos santos, nos anjos, nos espíritos, no poder de Jesus, Maria e toda a família sagrada em atender, individualmente, a pedidos. Por que não? Eu mesma, quando fui operada, antes pedi a todos os céus que eu tivesse uma boa operação. O homem, diante do medo, da dor, do sofrimento, apela mesmo a uma possível salvação, a uma possível não-dor. Isto é do humano. Um dos males do espiritismo, a meu ver, é relacionar psicóticos/doentes mentais com pessoas que são médiuns, que ouvem vozes e então são "especiais". Sim, são especiais, porque estão doentes e necessitam de tratamento. Não espiritual, mas de um bom psiquiatra. Claro que este as tornará dependentes de terríveis (ou não, salvadores) remédios, que a deixarão como um zumbi em vida por algum tempo, de tão dopadas, mas ao menos as vozes torturantes sumirão e a pessoa pode voltar a ter suas atividades normais, sem medo de enlouquecer. Porque uma pessoa que ouve vozes, pode de fato enlouquecer e somente a psiquiatria a salvará. Mas o que se vê são psicóticos e pessoas em surto por estresse (o que tem acontecido muito) ou outros motivos, encherem as salas dos templos espíritas, o que é de uma ignorância profunda. O filme. O filme não é ótimo e não poderia ser melhor, pois tem a mão da dona Globo por trás, ou seja, sempre vai ficar na superficialidade do esquema televisivo ao se trabalhar a ficção. Mas, para quem se interessar pelo assunto, recomendo que leia os evangelhos espíritas. São uma lição de humildade, de compaixão, que não deixam atrás nenhuma teoria esquerdista em favor dos miseráveis neste mundo.
Escrito por isa às 12h50
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White Stripes Perguntam-me se gostei do último filme de Laís Bodansky. Digo que há coisas boas, como o tema central e o roteiro e coisas ruins como a escolha do filho de Fábio Júnior para um dos papéis principais, porque o ator, apesar de bonito e ter presença, fala meio para dentro, como a maioria dos atores televisivos e às vezes não se escuta o que ele fala. O comentário: o Fábio Júnior, aquele cantor brega? E a atendente da locadora, onde estou: mas brega é legal. Quero perguntar por quê, mas digo: mas esse cara é brega demais, não dá. Depois vou para casa com a seguinte questão: por que alguém acharia legal algo brega? Será que essa pessoa sabe a diferença entre brega e simples? Porque há uma diferença. Temos num grupo: Beatles, Beethoven e Chopin. No segundo, Fábio Júnior, Sidney Magal e Calcinha Preta. Por que o pessoal do segundo grupo seria "legal", se fazem algo pobre, sem imaginação, com jeito comercial, de sucesso fácil? Por que isto seria legal? Temos a poesia simples de uma Cora Coralina, mas ali há substância e não se compara a "batatinha quando nasce/esparrama pelo chão...", não é? Quando é que as pessoas vão saber diferenciar o brega do simples e o simples convivendo com a mesma importância do que é chamado de sofisticado? E isto se aplica às roupas que usamos, aos acessórios, aos móveis que temos em casa, aos costumes, assim por diante...
Escrito por isa às 11h53
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Notas: Hoje minha mãe faria 89 anos de idade, se não tivesse falecido no final da década de 70. Que esteja bem, onde estiver. Apesar das diferenças, amo muito minha mãe. Estou cercada pelo banal: o cachorro do vizinho que late, o piano insistente de outro vizinho, crianças na piscina. Como criar envolta nesta espécie de aura tão banal? Deixo os textos de ficção de lado; volto-me para o dvd, mas o piano do vizinho é tão forte, que tenho que aumentar o volume e, quando as cenas são silenciosas, a música do vizinho invade o ambiente. Desesperador. Não há mesmo mais silêncio e paz no mundo? Contam-me coisas, pedem-me segredo e fico num fogo cruzado. Temo me trair, trair o outro. Não fui feita pra guardar segredos, aliás, acho que nosso cérebro não foi feito para isto e é por isto que nos traímos, às vezes, dizendo o que não deveríamos ter dito...
Escrito por isa às 19h04
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