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Concedi, ontem à tarde, uma longa entrevista para a tevê Cultura sobre depressão. A ironia da coisa é que a questão central era: quando pedir ajuda; a urgência de pedir ajuda e a inconsciência do paciente quanto a este pedido urgente de ajuda. Digo ironia, porque é o que tenho vivido, embora eu afirmasse com toda a energia que nós, sagitarianos, signos de fogo, sabemos retirar de nós mesmos, em momentos de necessidade de afirmações categóricas, que quando deprimidos, devemos pedir ajuda. E lá estava eu, repetindo: é preciso pedir ajuda, é importante que se peça ajuda! A ironia é que estou metida em dezenas de problemas que patinam numa área escorregadia, não consigo encaminhar ou solucionar nada, sinto-me profundamente angustiada com isto, mas não estou conseguindo pedir ajuda profissional. Mas no meu caso, que já passei por duas terapias e duas análises, creio até que já fiz a minha parte (de não descontar a neurose no outro) -- embora achasse, muitas vezes, que quem contaminava a minha vida é que estava precisando de uma boa análise e não eu (mas, de qualquer modo, eu era a parte afetada e se sucumbisse, sem ajuda... qué hacer?) Mais uma das ironias da vida... Então, eu dizia, eu que sinto-me profundamente angustiada por não ter forças para resolver problemas, priorizo então, diante desta impotência, os filmes que tenho que ver nos cinemas e minhas caminhadas, os escritos, a internet, os dvds que alugo e assisto a eles diariamente (muito porcamente nesses últimos dias, com um cão sobre meu teto, do vizinho, a pular e uma pianista que resolve exercitar o seu piano por duas, duas hora e meia, bem na hora em que vou ver meus filmes...). Priorizo o que me tira o foco dos problemas e vou em busca do que mais gosto: cinema, literatura, museus, uma boa comida, lanchinhos aqui e ali por onde caminho, uma vida contemplativa e... angustiada. Vamos ver até quando vou continuar me solapando, adiando as tarefas emergentes, com medo de sair dessa zona de conforto... desconfortável. Mas há tanta novidade por aí, que esqueço que tenho que mudar urgentemente de apartamento, que tenho que renovar meu passaporte senão não viajo em agosto, esqueço que tenho que emagrecer e me entupo de bobagens, esqueço que todo ano estou dizendo que neste ano meus livros serão publicados (de tempos em tempos até que tento alguma coisa neste sentido, mas só ouço nãos e mais nãos e que o mercado é mesmo difícil e que para publicar é preciso estreitar relações aqui e ali -- oh God. É preciso, então, frequentar os barzinhos da Vila Madalena, é isto? ). Esqueço que preciso fazer atividades que me tragam novos amigos, pois os antigos se dispersam e, alguns, correndo atrás do próprio sonho, parece que se esqueceram de mim. Esqueço que preciso urgentemente fazer algum exercício que coloque de novo a minha coluna no lugar, muito dolorida. Esqueço, enfim, de me colocar em foco e vou para o cinema me entupir, ainda bem, de bons filmes. Filmes com os quais pretendo me entupir que vêm por aí: o de Woody Allen; o de Aki Kaurismaki. Diretores que adoro. Ah e tem muito mais! Pois os lançamentos em dvd também estão aí e ontem já comecei a ver Clamor do Sexo (1961), com a linda e meiga Natalie Wood e o não menos charmoso Warren Beatty, ambos sob a batuta de Elia Kazan. E os problemas... -- mas quem quer saber de problemas? Viver é mesmo administrar problemas? Como achar a medida ideal para isto, lidar com os problemas de um lado e sair para os prazeres da vida, de outro? Ainda não consegui responder isto a mim mesma.
Escrito por isa às 11h07
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