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Fora de lugar Assisto nesta manhã a dois programas no canal GNT, um com Preta Gil e Fernanda Young e outro com Marilia Gabriela e Lúcia Veríssimo. Preta Gil lançou seu primeiro cd em que no catálogo aparece nua. E ela diz: como não posso, se Tom Zé tem uma foto sua com uma bolinha de tênis lá no sexo e meu tio, Caetano, que fez um LP com minha tia e meus primos todos nus na capa... Pois é, Preta, de tempos em tempos ocorre uma coisa que se chama contextualização cultural e, no tempo do seu tio Caetano, a nudez expressava um rompimento com o velho; a nudez era a afronta, a rebeldia com causa, o apelo à liberdade, um grito de revolta, enfim. E incomodou a censura, pois o disco foi vetado.Já a partir dos anos oitenta, depois do fim da ditadura, a juventude deu uma acomodada (como bem diz Lúcia Veríssimo no programa da Gabi) e deitou em berço esplêndido e confundiu, sim, tudo ou, melhor, optou por um recomeço que era o mesmo do velho lá nos anos 50, ou seja, retroagiu. Eu me lembro bem das camisetas dos mais novos com a cara do Mickey estampada no peito e nós, que vivemos a ditadura, sabemos bem que essa figura de rato estava associada (foi um símbolo forte) àqueles ratos que perseguiam os políticos de esquerda, os estudantes que pediam mudanças no país e criticavam o capitalismo estrangeiro, o americanismo -- invasor em nossas vidas de brasileiros, com nossa cultura própria. Nos anos oitenta, deram uma banana para o nacionalismo, numa antropofagia inconsequente, e os valores estrangeiros (não os da cultura, mas o que dizem diretamente à economia e ao "way of life") foram incorporados de maneira abusiva à nossa sociedade. Há escolinhas infantis com nomes em inglês, edifícios, produtos, lojas, tudo de maneria escancarada e por aí vai... (Como se fosse o curso natural das coisas). Não é. Pois bem. Preta Gil achou que ia fazer uma foto como aquela e não ser criticada. Acontece que quem estava com o senso crítico em dia, afinado, sabia que, naquele momento, a nudez representava mais uma relação objetal, mercadológica com o corpo, do que propriamente um signo de libertação. Mas a querida Preta, como ela mesma diz no programa à Fernanda Young, estava com as idéias lá nos anos 60/70. Ou seja, seu pai, o Gil, que a advertiu, estava mais antenado que ela... até por sua própria bagagem de ter passado pela ditadura já jovem, maduro. Lúcia Veríssimo diz à Marília Gabriela, no programa de entrevistas desta, e esta concorda com a fala de Lúcia, que foi hipocrisia proibirem o anúncio da cerveja Devassa com Paris Hilton. Pois sabem o quê? Não achei. Achei bem apropriado e vou dizer por quê. Uma coisa é você ter um filme de Hitchcock e todo um contexto em que um homem explora o universo à sua volta, de binóculo em punho (na verdade, o zoom de sua máquina fotográfica), porque sofreu um acidente e está preso a uma cadeira de rodas, fechado no apartamento. E o filme explora tudo à volta e não, fica fixado num fetichismo, intencionalmente. Já a propaganda se fixa na semi-nudez de Paris Hilton, que com uma saia curta e provocante -- e a atitude provocante -- parece não só estar à vontade em casa, mas saber-se olhada. lá de seu jeito antinatural e toda sensual. É voyerismo, claro, trata-se disto. Mas vou dizer sobre o impacto da coisa: o deslocamento da provocação da nudez. Primeiro: é para vender cerveja, um produto. Segundo, e que poderia ser primeiro: coloca a mulher como objeto sexual, pura e simplesmente e a associa a um produto. Ou seja, ela também é um produto cobiçado. Terceiro: pedagogicamente, creio que há um furo aí, já que o anúncio passava em momentos que sabemos crianças e adolescentes estão de olho na atração que viria, o BBB10. Pois é, não deveriam, mas as crianças assistem sim, ao BBB10. E, se estamos colocando a questão em termos pedagógicos (pois todo processo cultural passa pela pedagogia e a tevê enquadra-se na questão cultural), por que dar a idéia prematura e distorcida aos muito jovens e crianças de que mulher é um objeto? De que a sexualidade é arrancada do seu lugar de intimidade e invadida (pelos olhos de um invasor, um voyeur), contra a sua vontade? Ou, pior, instantes depois, com seu consentimento, já que esta mulher também se exibe sexualmente, como se esperasse, sim, ser observada? Perversão pura, amigos (ela se coloca, sim, na condição de objeto). Ah, mas é o que existe, está aí, na sociedade, para todos verem... ok. Mas o fato de eu não compactuar com isto, com a perversão, não me torna hipócrita, mas sim um adulto maduro que aprendeu que tudo tem o seu lugar. Ou vamos voltar à barbárie e transar no meio dos passantes, na rua, em qualquer lugar? Quando crianças, queremos almoçar dentro do banheiro mesmo, onde acabamos de tomar nosso gostoso banho, mas em adultos, sabemos que devemos sentar à mesa e fazer as refeições ali, não é? Essa questão de lugar e propriedade tem a ver com amadurecimento. Mas, como sempre, os publicitários e os comerciantes não querem saber disto e, sim, vender vender vender. A qualquer custo.
Escrito por isa às 11h19
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