| |
Ela, o vinho? Ele, a Fanta Uva? Alta e baixa cultura. Cultura de elite, cultura de massa. Lembram-se destes termos? Pensando nisto, num gráfico virtual, podemos então colocar a "literatura" de Márcia Tiburi no alto, em oposição à "literatura", embaixo, de Paulo Coelho. À primeira, caberia a seguinte questão: basta o bom uso das palavras, um vocabulário sofisticado e o arcabouço de um saber filosófico para se fazer literatura? (Não darei, aqui, adjetivos, "boa" ou "má" literatura). E, a Paulo Coelho, como sempre, aparece a seguinte questão: um texto vulgar, acessível às massas e sem engenhosidade nenhuma, com ausência de boas metáforas -- seu material, presta-se ele a o que chamamos de literatura? Os textos, ou melhor, a "literatura" de Paulo Coelho seria uma vingança aos textos cerebrais e intelectualizados, e portanto inacessíveis às massas, como aquela de Márcia Tiburi? A popularidade de Lula, ainda que não o presidente ideal, é uma vingança popular contra o discurso correito de seus opositores, com seus trejeitos de mauricinhos, cujos eleitores formam, em grande massa hoje, uma parcela da população que se diz mais esclarecida? (E, penso agora, entre os que fazem parte desta, em alguns articulistas da Folha de Sâo Paulo, ou no ferrenho opositor a Lula, o poeta Ferreira Gullar, articulista fixo da Folha de São Paulo). E, em oposição, entre os que não são, digamos assim, esclarecidos, mas encontram-se acima da média do nível intelectual e, portanto, de educação, da maior parte da população (e, note-se, deixam-se levar por textos que considero mercadológicos, de uma Veja, ou por uma matemática simplista de como estão as coisas no país, com base no que vêem nos jornais televisivos, que quase nunca levam a uma reflexão mais aprofundada das questões ou, de maneira intuitiva, opinam sem base do que seja uma visão de Economia política, sem noção do que seja, por exemplo, o capitalismo, em oposição ao comunismo, enquanto sistema de governo). Mas, voltemos a Paulo Coelho. Hoje, sai matéria sobre ele na Folha de São Paulo (o que me motivou escrever aqui) , com entrevista de um jornalista estrangeiro, na Suíça, país onde o autor, riquíssimo, tem uma segunda ou terceira moradia. O que faltou a este jornalista, a meu ver, foi concluir que Paulo Coelho só poderia ter explodido, enquanto sucesso, num país como o Brasil, o país lá da década de oitenta, mais pobrinho e de escanteio, do que hoje. Pelo motivo citado mais acima. É como se os de pouca cultura pudessem, finalmente, ter acesso a um tipo de "filosofia", de raciocínio mais abstrato (desencantados, talvez, com as religiões enquanto instituições e o texto sagrado da Bíblia -- quem sabe?), ainda que de maneira diluída. (E lembro que suas leituras começaram a ser comentadas entre o pessoal dito alternativo, na Vila Madalena, os frequentadores de restaurantes indianos e praticantes de ioga, adeptos da filosofia oriental, hippies e por aí vai... -- e eu, apesar de frequentar tais restaurantes, à época já estava preparando o que seria a tese de mestrado em Semiótica, daí a recusa pelos textos ditos fáceis e de uma filosofia diluída, de PC). E, enfim, veio o sucesso, junto aos iletrados. (Lembro-me que um garçom do restaurante vegetariano que eu frequentava, quando veio fazer um serviço de encamento em meu apê, me "apresentou" O Alquimista, de Paulo Coelho e não consegui passar das primeiras páginas). Não se tem vinho, mas tem-se Fanta Uva. (Mas eu não colocaria a "literatura" de Márcia Tiburi como nosso vinho, e sim aquela praticada por João Gilberto Noll -- a meu ver, literatura com ele maiúsculo). Claro que o fazer de Tiburi não é farinha do mesmo saco, em relação ao fazer -- para não chamar de trabalho -- de Paulo Coelho. Mas mesmo em oposição, leva-nos a pensar de que material, afinal, é feita a literatura. (O próprio Coelho admite, hoje, que não é escritor mas sim alguém ligado ao rock, o que sempre, aliás, eu defendi em minhas opiniões, que ele deveria ser reconhecido como um bom letrista de rock e que se permitiu a aventura de escrever, sem ser propriamente um escritor de literatura). E fica a questão: de que tecido é feito, afinal, a literatura? (Vou dar uma pista, leiam os últimos textos de Noll...)
Escrito por isa às 11h59
[]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|