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Rápida reflexão sobre a arte e as elites culturais Não sei dizer qual foi a última vez que vi minha amiga, antes que se mudasse para a França, há cerca de dez anos atrás. Vinte anos? Sei que as grandes recordações, afora este nosso encontro aqui em São Paulo neste mês, são da adolescência, passagem para a juventude, quando então fomos colegas de ginásio, depois do Clássico e cursinho em Campinas, quando finalmente no ano seguinte vim para São Paulo definitivamente, em meados da década de 70. Minha amiga, quando então eu morava em Campinas e tinha um grupo de teatro -- e, ser atriz, assim como assistir a peças e ler os grandes autores, foram atividades que me envolveram completamente nesta época --, acompanhava com afinco as montagens das peças e o próprio grupo, em si, relacionando-se com os atores. Era uma entusiasta das produções de então; acompanhou com interesse o grupo Rotunda que montou a peça Hipólito, a qual inauguraria o Centro Cultural de Convivência de Campinas, um belo teatro de arena com excelente acústica. Depois o grupo veio para São Paulo, no Ruth Escobar e também Santo André, que possui (espero ainda possuir) um belíssimo teatro municipal. O de Campinas foi demolido na década de 60 por alguma administração de gente insana -- uma pena, pois aos dez anos de idade cheguei a ensaiar uma peça infantil ali... (com Sonia Hirsh, que depois viria a ser jornalista e finalmente trabalhar com saúde, alimentação natural e, atualmente, tem muitos livros publicados sobre... e também Regina Duarte, que dispensa apresentações; esta, logo foi substituída por outra atriz, por veio tentar carreira em São Paulo). De qualquer modo, o que quero dizer é que há alguns dias atrás pude finalmente encontrar esta amiga que é motivo do meu primeiro texto (fraquinho! Perdoem!)aqui neste blog. Foi um encontro que me emocionou muito, por tudo o que vivemos naqueles anos e também pelas recordações de pessoas em comum e das quais falamos -- seus destinos, o jeito de ser, etc. Nem tudo foi perfeito, a hora correu rápido e quando vimos era saída do pessoal que trabalha na região da Paulista e eu, que queria que ela provasse uma deliciosa comida árabe onde sempre almoço, vi o desejo frustrado pela avalanche de pessoas que lotaram o edifício em questão. Acabamos indo a outro lugar e não foi bom do mesmo jeito, muita gente e uma comida sem sabor, do tipo "mata-fome". Mas foi bom saber dela, de suas atividades, seus planos, o rumo de sua vida, enfim -- colocarmos os papos em dia. Amiga inteligente, sensível, poliglota, trabalhando com a língua portuguesa em Paris e dedicando-se à literatura brasileira e tradução. Fiquei muito feliz por ela, que sempre, como eu, quis sair do interior e alçar vôos mais altos. Mas uma coisa ficou na minha cabeça e passei alguns bons dias matutando sobre isto: minha amiga, a certa altura, falou em "arte para as elites" e algo como " François Ozon é um diretor que faz cinema para as elites". Conversamos sobre isto, mas não saí convencida quanto a alguns dos argumentos. Então, vamos lá... Não gosto muito da afirmação de que haja uma arte elistista e para as elites. Prefiro acreditar que haja, no terreno cultural, gente fazendo arte ruim e gente fazendo uma "boa arte". Honesta. Claro que há, na indústria cultural, aquela fatia que vai para o popular e mesmo, infelizmente, para o popularesco. O popular seria talvez um livro de Paulo Coelho, que atingiu todas as classes e a massa em geral, pela acessibilidade de sua linguagem (e que, particularmente, eu não aprecio). Mas, o fato de eu não apreciar Paulo Coelho me torna elitista? O fato de eu ter tido acesso a um trabalho sofisticado de Ozon faz de mim uma pessoa que transita apenas pelo terreno de uma arte supostamente elitista, para poucos? E, se assim for, não é lamentável que nem todos tenham acesso a uma obra genial do francês Ozon? (Aliás, o seu magnífico Angel é uma crítica à literatura de massas, aquela feita e para mulheres histéricas e superficiais, plena de adjetivações e grandiosidades... só que Ozon é tão bom, que não somente mostra esta questão, mas a trabalha em nível de metalinguagem; enfim, cinema para poucos, para os que estão acostumados a refletir sobre as questões culturais como um todo). Acho difícil dizer o que é uma produção cultural para as elites ou o que seja elitista. Quando li Freud pela primeira vez, entendi o que minha professora da PUC, a já falecida Samira Chalub quis dizer ao comentar que Freud escrevia com simplicidade e que seus textos eram acessíveis, num todo. Certo, há leituras que necessitam de orientação, ou mesmo que o leitor já tenha alguma bagagem prévia para poder acompanhar o texto comme il faut. Mas pensando em Freud, em Shakespeare, meu Deus é uma pena mesmo que muito pouca gente tenha acesso a tais obras, de caráter universal. E eu, que tive acesso a elas, a Ozon, devo sentir uma certa culpa burguesa ao poder falar sobre tais obras e autores? Creio que não. O que talvez eu possa fazer seja, como retribuição a tudo que tive acesso, tentar passar um pouco do que sei aos que estão ao meu redor. Digo, aos menos privilegiados. E, pensei comigo, lembrando das garotas que já citei aqui, que trabalham numa doceria e a quem peguei amizade ou mesmo pensando na minha diarista e seus filhos: estou sempre à cata de bons livros e boas referências para que possa passar a eles, na medida do possível, seja em época de Natal, aniversários... Sei que não é muito, não pertenço a nenhuma ONG ou coisa que o valha, mas é o mínimo que posso fazer e que está ao meu alcance. Sei que essas pessoas vão continuar lendo Paulo Coelho eZíbia Gasparetto, mas ao menos tentei levar algo melhorzinho e sempre pensando na questão da acessibilidade, como os best-sellers razoáveis que são, por exemplo, O caçador de pipas e Thousand Splendid Suns (esqueci o nome em português, é que adoro o título em inglês, então meu inconsciente apagou o título em português de propósito!). Lembro que quando a filha da minha diarista era pequena, eu ia atrás de livros da Ruth Rocha, Lygia Bojunga e outros bons autores para dar a ela. Mas me ressinto de bons livros para adolescentes, agora que ela cresceu. Enfim, o que quero dizer é que talvez o ideal seja que transitemos pelos espaços da arte sem a preocupação de rotulá-la, mas sim aproveitar dela o que tem de melhor. Claro que este melhor vai depender do parâmetro de cada um. Minha amiga acha que há uma leva de diretores e textos franceses que não param de falar do "próprio umbigo". Concordo, vi um filme que se não me engano chama-se Natal, com Catherine Deneuve, que me encheu a paciência... Mas longe disto, a meu ver, está o cinema de Ozon. Mesmo quando ele coloca entre quatro paredes mulheres que falam de si e de questões familiares (com grandes atrizes como Deneuve e Huppert), ele o faz de maneira interessantíssima, bebendo na fonte do teatro para uma excelente performance de tais atrizes em questão -- como neste 8 Mulheres. O modo como o perfil de cada personagem é traçado, a exuberância das cores, a maneira como a câmera se move num espaço tão exíguo... Enfim, é cinema de primeira. E porque não podemos beber desta arte sem culpa, sem julgamentos? Eis o que venho me perguntando, desde então...
Escrito por isa às 20h46
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