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Foto de Richard Hugues (Winnipeg, Canadá), baterista da banda britânica Keane e fotógrafo. É mesmo muito estranho ficar quase um mês trancada em casa, com mau tempo, maus programas de tevê à disposição (OK, tinha uns ótimos, também), sem contato direto com amigos e a rotina. A rotina que eu amava. De qualquer modo, sensação inusitada, por conta de uma visita ao médico, voltar à região da Paulista, o coração de Sampa, e entrar no Conjunto Nacional, ainda que rapidamente apenas para sacar dinheiro... e depois pegar a Santos, ir até próximo ao Ibirapuera. Ainda bem que o consultório era gostoso, acolhedor, com cafezinho, chazinho, bolachinha, bem decorado (uma sequência de cadeiras dos anos 50, de babar!), secretárias genuinamente educadas e gentis, médico atencioso. E a presença do meu irmão, muito gentil dele ir me encontrar lá, me esperar, me levar para casa. Na volta, chuva, supermercado, espera, ah a paciência, sempre a paciência para o que virá. Mas depois foi chegar em casa e encontrar a diarista também solícita, bem humorada, com boas palavras para meu consolo de doente (uma doente mais animada depois da visita ao médico, "isso deve ser só uma bactéria, mas um exame pode detectar facilmente")... E lá vou eu comer a comida insossa de sempre, tudo apenas no sal e invento uma omelete de clara de ovos, para ter alguma proteína, já que o frango e tudo que foi de carne vermelha, que comi nas últimas semanas, não me caiu bem. Uma geléia de laranja na bolacha Maria, para ter algo doce para arrematar, já que não sei o que é um chocolate há trinta dias. De qualquer modo, estou em casa, lá fora faz frio e é bom ver tudo bem limpo pela diarista, as roupas passadas, a roupa limpa no varal, o cheiro bom de limpeza em todos os ambientes. E fico à espera, aliás, parece que estou sempre à espera, como diz a música de Keane: "I am waiting for my moment to come/ I am waiting for my moment to begin... (...) I am waiting for a revelation...". E por aí vai... E espero que o organismo funcione a contento para fazer o tal exame e detectar a tal bactéria e já sei que vou ter que sair correndo de volta para os arredores da Paulista, onde fica o laboratório, mas estou preparada, hoje parece ser um dia para ser prática, mesmo e ir à luta. Faz frio, chove, o tempo escurece e nada. Nada de possibilidades do exame. Pois é, a vida é assim; ontem à meia-noite, eu com diarréia, já era a quarta no dia e hoje, NADA. Hoje que preciso que o maldito funcione, NADA. E é preciso paciência e é preciso esperar. E na vida nada vem como queremos, é tudo assim, de viés, orquestrado de maneira a nos confundir na sequência das notas da pauta. Enfim, isto é a vida. De qualquer modo, viva a vida, viva o otimismo, vivam os bons dias com cheiro de fuligem e chuva, viva São Paulo que amo/odeio, viva a minha amiga que bateu papo longo comigo no telefone, na maior paciência... Vivam os bons dias e esperemos por menos piores. Ao menos, é nisso que agora estou botando fé. Chega de reclusão! Sampa foi feita para se curtir, ir ao cinema, a teatros, a bares, livrarias, cafés, para flanar e comprar, paquerar, ser surpreendido... enfim, Sampa espera por nós, assim como esperamos muito dela. Esperamos e esperamos e esper... É isso.
Escrito por isa às 21h54
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