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                                                            Entrando na faca

Eu queria perder alguns quilinhos, mas não assim, de maneira abrupta e sem poder, paralelamente, me exercitar. Mas, enfim, somos bêbados equilibristas na corda frouxa e sempre pronta para surpresas, agradáveis e desagradáveis -- embora muitas vezes tenhamos a ilusão de que, esticando-a e, sóbrios, chegaremos fácil e seguramente, como previsto, do outro  lado. Puro engano. Mas, enfim, se "não posso te levar, deixo que você me leve", ó vida! E, mansamente e levemente nervosa (de início), lá fui eu da consulta direto para o hospital, com a suspeita de apendicite aguda. E os exames revelaram: era mesmo. Diante da urgência, de ser arrancada desde as cinco da manhã do meu habitual cotidiano, a terra afundou sob meus pés e os dentes não pararam de bater até que alguém disse, colocando-me uma máscara de oxigênio: "respire fundo e solte... só isso; não se preocupe". Preocupar-me, eu? Seja o que Deus quiser, agora! Agora que estou aqui sem dignidade alguma, à mercê de um médico de plantão que conversou comigo sem me olhar no rosto, muito frio e calculista, cercada de uma equipe de jovens extremamente jovens para o meu gosto de paciente, que poderiam muito bem estar à beira da piscina de um clube conversando sobre futebol, todos eles tão sorridentes e fazendo brincadeiras. Juro que pensei que um ambiente de cirurgia fosse um pouquinho mais sério; nada contra brincadeiras, descontração, mas e se o pessoal se distrai, perde o foco, perde a mão? Não deu tempo para pensar que, com aquele médico sisudo, provavelmente toda a meninada ao meu redor se calaria e faria a coisa direitinho. Bom, acho que fizeram...

Mesmo estando num dos melhores cinco hospitais de Sampa, é possível ver como é triste a situação de quem vai parar numa emergência. Não uso celular e os dois orelhões de entrada estavam quebrados. Acho que se supõe que, hoje em dia, todo mundo adore um celular, o que não é meu caso (ok, a partir dessa experiência, vou adquirir um, bem basiquinho...). Claro que um gentil enfermeiro ligou para um parente e, pronto, acabou-se a necessidade do celular. Mas que deu insegurança, deu. No meio da noite eu quis levantar e não havia nenhuma meia, nenhum sapato de pano possível e eu disse à enfermeira: a última coisa que posso pegar agora é uma gripe! Ela foi no armário, a meu pedido, pegou minhas meias e lá fui eu ao banheiro, de piso frio, somente de meias. Caramba, eu pago tão caro um plano médico e não tenho direito a uma sapatilha para ir ao banheiro? No dia seguinte, trouxeram-me duas meias estranhas, sem costura, mas então eu já estava de posse das minhas havaianas.  Também não vi, nos dois dias em que estive internada, higienizarem o quarto uma única vez; apenas retiraram o lixo e deram um jeito no banheiro e nesse dar um jeito, sumiram com o pacotinho de fio dental. Ao menos havia, na entrada do quarto, um box com gel e todos que ali entravam higienizavam as mãos antes de me entregarem a refeição ou trocar um soro. Meno male.

Fazia tempo não acordava cedo e lá, claro, cedo pra eles é cedo meeeesmo. No melhor dos sonos, entra alguém tagarelando sobre o remédio que vai no soro; e eu lá quero saber o que vai no soro? Põe aí e pronto! OK, é em respeito ao consumidor doente -- afinal, ele tem o direito de saber o que está tomando. Mas eu não quero saber; nem sei quantos pontos levei; se não fosse um irmão perguntar, eu não saberia se a operação foi por laparoscopia ou não. Que importa? Estou doente? Salvem-me, vocês que estudaram e são pagos pra isto. Ponham-me de novo na minha rotina de livros, filmes, caminhadas, internet, escrever e flanar pela Paulista e não se fala mais disto.

Falar era algo em que meu médico não estava interessado. Pessoa estrangeira, de difícil compreensão, lacônico e, como eu disse, daqueles que quando falam deixam a impressão de que você é uma parede e não um ser humano: nada de contato visual. E apressadinho. Ou seja, na minha cabeça sempre ficaram perguntas: o que comer, agora? Posso caminhar? Posso isso e aquilo? Bem, o homem se revelou extremamente generoso, me atendeu prontamente em todas as situações, ligava para a minha casa para saber de mim, etc. Mas, nada de muitas perguntas! Porque as respostas vinham enroladas ou não vinham. Então tive que ir na internet, pesquisar e perguntar: posso tomar tal remédio, já que a diarréia não passa? E ele: sim, pode. E eu, comigo: porque não me disse antes, caramba? Precisei descobrir sozinha um remédio que me cure? Nessas de problemas gastrointestinais, emagreci três quilos, até agora. O lado bom da história triste.

Eu sou das que afofam almofadas antes de sair de casa; mas não sou xiita. Posso deixar um sapato largado no chão, essas coisas. Mas quando você tem dores fortes às cinco da manhã e sabe que algo grave está acontecendo, a última coisa que pensa é em fazer a cama, arrumar a sala, essas coisas. O ruim de pedir a alguém que vá até sua casa pegar suas coisas é que, se está lidando com uma pessoa excessivamente crítica e exigente, terá que ouvir coisas como: não sei por que aquela pilha de jornais na sala! E, só pude responder: mas eu sei. E eu sei, eu vejo os filmes sem ler a crítica, gosto de ler os artigos depois, então vou empilhando os cadernos de cultura até que finalmente eu possa lê-los. Ou, há aquela matéria imperdível no jornal, que não saiu na internet. (E, não gosto de ler artigos longos na internet). E, enfim, a sala é o único lugar disponível que eu tenho para isto: empilhar jornais. É feio? É. Mas minha casa é assim, minha sala há muito deixou de ser uma sala de visitas no modelo tradicional. Mas é duro, estando frágil, ter que passar por determinadas críticas (e aqui vai apenas um exemplo básico de todas as críticas que viriam ao meu peso, ao meu modo de vida, ao meu apê, meu estilo simples de viver, minha antipatia aos celulares, etc.). OK, a gente dá um desconto, porque se alguém te socorre e se preocupa com você, sempre que você na vida precisou, a gente deixa pra lá o lado ruim da história. Mas que pega, pega... Ou seja, nada está mesmo sob controle, nesta vida. E, muitas vezes, pessoas que se dizem tão próximas de você, passam batido pelo seu problema, a sua situação delicada, nessas horas. Sou das que comunicam, que gostam de fazer a ponte, nem que seja via internet. Se a pessoa não se pronuncia, você crê que de fato não se importa com você, né mesmo? Enfim, há amigos e amigos neste mundo e nem todos se parecem. Sem cobranças; apenas uma leve decepção, mas o que é isto, frente às enormes decepções? Enfim, muitas vezes o problema do outro parece menor aos nossos olhos, mesmo. E é interessante como nessas horas surgem estranhos ou gente nem tão apegada que aparece para salvar uma situação: um taxista gentil; uma faxineira leal e prestativa; um parente cricri mas de boa vontade; um parente distante que te dá dicas por telefone e ainda ressalta: é sério, se precisar de mim, é só avisar que apareço correndo! Tudo isto conforta. Já que ir parar no hospital de sopetão é algo tão... desconfortante, desagradável, brutal e é algo que não desejo para ninguém. OK. somente para os inimigos.



Escrito por isa às 08h54
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