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                                                O Passado ou, o Presente não perdoa!

                                       

Ontem resolvi dar uma passeada no meu primeiro endereço aqui em São Paulo, na década de setenta, no bairro do Paraíso. Morei, por um ano, com meu irmão, na mesma rua onde fiz cursinho, o Colégio Equipe (e onde estudou minha querida amiga leonina que aniversaria hoje) -- antigo Colégio Santo Alberto, onde meu pai estudou nos anos 20/30. Eu morava logo no começo da rua, próxima ao Hospital Oswaldo Cruz e ia descendo toda a ladeira, depois do almoço, passando pela interessantíssima Vila Itororó e, no caminho, ia observando as lindíssimas casas com seus jardins floridos e enormes quintais. Havia, se não me engano, na Pio XII, um enorme edifício antigo e todo arborizado e que era algum instituto católico importante -- não me lembro mais. A Cúria? Não lembro. Sei que era lindo, pomposo, interessante. Pois é, era. Agora fizeram um enorme complexo chique lá. E, descendo a rua, não achei noventa por cento das casas, todas derrubadas; há um hospital novo, um mastodonte chamado Hospital Paulistano. Alguns prédios de muito mau gosto ao redor e escassas casinhas velhas e que já eram velhas à época.

Quanto à Vila Itororó, é de sentar no chão e chorar. Irreconhecível. Tornou-se uma imensa favela, mesmo governo após governo terem prometido que a recuperariam, que a manteriam. De dar nó na garganta. Já o Colégio Equipe, que fechou há muitos e muitos anos atrás, conserva sua fachada estranha cinza -- sempre teve uma fachada estranha, parecendo um caixotão -- dentro é que era muito interessante, com uma capela ao fundo e com as atividades culturais promovidas pelo Serginho Groissman. E as aulas, maravilhosas, de todos aqueles professores sacados; excelentes apostilas! Ir ao Equipe era ter um dia de festa todos os dias! Todos que estudaram lá, que eu saiba, amaram aquele espaço -- e olha que o anterior, no antigo Colégio Dex Oiseaux, onde estudou minha mãe na década de 30, era muito mais interessante! De uma arquitetura inigualável -- eu o conheci um pouco antes de ser demolido, quando vim me inscrever para o Equipe -- mas este já funcionava numa rua transversal.

De qualquer modo, foi um baque ver que tudo está tão mudado, e para pior, lá onde morei. Ao lado do Equipe, a majestosa igreja do Carmo, toda ladeada de altas grades e com dois seguranças à porta. Entrei. Ai que alívio, continua a mesma, só que com cartazes falando de participação da comunidade, etc. Mais vulgar, mas de qualquer modo, intacta. E silenciosa, constrastando com o bar em frente, com mesinhas e som alto de pagode. Nas calçadas, pessoas extremamente simples -- mas o lugar tem muita vida, constatei. Achei interessante, até. Mas ao subir de volta, deparei-me com vários mendigos próximos à Pio XII. Próxima à padaria, uma mendiga jovem, de seus vinte anos, negra e de voz incrivelmente doce, me pediu dinheiro. Perguntei se queria algo da padaria e ela só disse: uma coxinha... Comprei a tal coxinha e água também, pois fazia um calor absurdo. Também tinha comprado um chocolate para ela, mas quando acabei de pagar, uma menininha mendiga, de uns dois anos estendeu a mão para mim, mostrando a palma, insistente e depositei o chocolate ali, sem dizer nada. Lá se foi a sobremesa da mendiga mais velha. Vi a menininha correr para um bando, parados ali perto, próximos ao complexo chique -- e pude ver babás com crianças no playground de tal edifício, todas uniformizadas e tudo muito bem murado e com cara de ser muito chique mesmo. Triste. Triste constraste.

Voltei para o meu bairro achando o melhor bairro do mundo (bem, se não do mundo, de Sampa), embora alguns mendigos costumem se postar em frente aos dois supermercados próximos. Embora dois carros de polícia e quatro policiais estivessem parados em frente ao meu prédio há dois dias atrás -- e eu nem sei o que houve, mas o porteiro daqui falou que não tem hora para tentarem roubar as motos que estacionam ali perto. E eu que pensei que a minha rua estivesse livre disto! De qualquer modo, a violência DENTRO é que incomoda, com vizinhos barulhentos e sem noção de comunidade. Ah, Sampa, Sampa, o que fizeram, o que estão fazendo de ti?

Eis o que achei na internet sobre a Vila Itororó:

"Localizada na rua Martiniano de Carvalho, encontra-se a Vila Itororó,
considerada uma das construções mais extravagantes de São Paulo dos anos 20
e é um dos símbolos do Bexiga que está degradada.

A vila foi construída pelo tecelão português Francisco de Castro, em
1922. Ele era proprietário de uma confecção em Piracicaba e resolveu vir
para São Paulo construir sua residência na cidade. Apesar de trabalhar com
tecidos, o português possuía conhecimentos técnicos sobre engenharia e
arquitetura.

Numa área de 4,5 mil metros quadrados foi construída o casarão de quatro
andares, sendo o último andar no nível da rua Martiniano de Carvalho, e 37
casas menores ao seu redor. Aproveitando da nascente do Vale do Itororó, foi
construída também uma piscina, hoje considerada a primeira piscina numa
residência em São Paulo.

A vila com as suas formas arquitetônicas, suas estátuas e grandiosidade
foram consideradas exóticas para época, que acabou recebendo o apelido de
Casa Surrealista".

 

 



Escrito por isa às 22h50
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