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Reflexão Fazer esforço para ser feliz não é o mesmo que ser feliz. Digo, fazer esforço para ser uma pessoa estruturada não é o mesmo que ser estruturado. Claro que todo esforço é válido, se lá atrás deram a entender que você não foi amado o suficiente pelos seus pais ou, que sua mãe te rejeitou por ser um filho que viria numa circunstância em que a família não estava bem financeiramente. Pessoas levianas e que falam impensadamente podem lançar isto no seu rosto e você acreditar e o seu cérebro processa: é melhor lutar bastante, porque o fato de estar aqui é quase um milagre... O seu cérebro também processa: você não foi bem-vindo, você não foi bem-vindo, você não foi bem-vindo. O sentimento de rejeição é algo que dói. No entanto, os livros de auto-ajuda dizem que, ainda assim, você pode e deve ser feliz. Afinal, se seus pais não souberam, desajeitadamente e também como herança, não lhe dar amor, ao menos jamais te espancaram ou xingaram ou não quiseram que fosse feliz. Aquece o chakra do coração ouvir alguém dizer, como Ivete Sangalo, que foi muito amada pelos pais e que recebeu muitos abraços amorosos e que, quando erraram, se erraram, o fizeram mas em meio a muito amor. Você pensa: há gente que se salva, nesse mundo, do espectro da rejeição. Que bom. (Isto dá confiança em si mesmo!) E, como ela disse (num programa da GNT), com isto, os seis filhos (seus cinco irmãos) foram muito bem encaminhados. Aí você pensa: as coisas saíram meio tortas porque houve falta de amor? Houve comida, um teto sobre a cabeça, roupas, escola, médico, férias no mar, sorvetes, bonecas -- mas e o tal amor, a tal compreensão, o tal afeto? OK., é armadilha chorar sobre o leite derramado. Mas e se isto vai e vem, assombrando os dias, ou pior, deixando a coisa cimentada como uma certeza que vai se prolongar até o fim dos dias? Você vai a sessões de psicologia, a analistas, lê sobre o assunto, procurar aprender com isto e sabe de pessoas que passaram pelo mesmo e estão aí, dando conta do cotidiano, não apenas sobrevivendo, mas construindo para si uma nova história. Virando a página. É alentador. Então você, afastando os livros de auto-ajuda, que falam apenas do que pode ser e não do que realmente é, superficiais que são e generalizadores, você então tece e se apossa da sua nova história e tenta seguir adiante. Alguns mais próximos o decepcionaram e, outros, continuam decepcionando e no dia em que se quer muito o sol, chove e é tudo cinza. No entanto, é preciso paciência e sabedoria e seguir em frente. É possível ter clareza das coisas e não lamentar o passado. É possível, sim, você sabe, virar a página. Mas às vezes, dependendo do tempo (já ouviram falar nisso?), a cicatriz dói. É preciso, então, não fazer de conta que a dor não existe, mas olhar para ela com aquele afeto que poderia ser o de mãe ou de um pai. Olhar para a dor como se olha para um filho. E com realismo -- mas compreensivamente. E afastar a auto-piedade. Que seria como nadar no sentido inverso ao da direção da ilha. E você não quer morrer na praia, quer?
Escrito por isa às 11h24
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