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Quem, ou, o quê, matou Michael Jackson? A vida é muito complexa. A vida de uma pessoa é tão complexa, que fica difícil dizer isto ou aquilo sobre uma pessoa com quem não convivemos; e, com quem convivemos, as surpresas sobre sua personalidade ou atitudes às vezes podem nos deixam boquiabertos. O jornalista norte-americano Talese está no Brasil, convidado para a festa literária de Paraty, a FLIP. Em entrevista à Folha, ele diz que quem matou Michael Jackson foi a mídia. Quando Michael morreu, pensei o mesmo -- era só lembrar da entrevista maldosa de um jornalista britânico, que o colocou na parede o tempo todo e parecia francamente chocado com as respostas mais ingênuas e deliciosamente românticas sobre o que é ser criança, como conviver com crianças e por que não sermos agradáveis com elas e tratá-las bem e com aconchego (como, dar-lhes um leite morno, colocá-las na cama junto a nós e contar-lhes uma estória ou colocar uma música para ouvirem juntos). Essa imagem de aconchego retratada ingenuamente por Michael (pois o jornalista demonstrou ser cínico, desde o começo) não teve respaldo algum nem da mídia e nem de boa parte do público ou, claro, da sociedade norte-americana, que sempre teve uma imagem distorcida do que é o afeto e do que é a proteção familiar. Para o americano e boa parte da classe-média brasileira, se o seu filho vai numa van para a escola e se você (aqui no Brasil) enche a sua casa de grades e um muro alto que proteja a todos de um assalto, você está sendo bom pai. Nada de leitinho morno e contar estórias para trabalhar o lado simbólico da criança, sobre a cama, quem sabe ao lado de uma boa lareira -- como provavelmente poderia ter a rica casa de Michael -- ou aquela fraca luzinha de uma vela que pode intensificar a intimidade. Intimidade esta que, numa sociedade minada pelas notícias da mídia acerca dos pedófilos (não que eles não existam) é vista com maus olhos. Disse o jornalista britânico, então, colocando-se pessoalmente frente à questão: eu não me imagino deitado numa cama com crianças. Ou algo assim. O que provocou uma reação francamente de estupefação por parte de Michael: como não? É assim que devemos tratar as crianças! (Leia-se -- e vou aqui psicologizar um pouco: era assim que eu gostaria de ter sido tratado, pelo meu pai, quando fiz parte da banda Jackson Five, e não a pontapés e, à época, tão pequeno, com tão grandes e sérios compromissos, sem tempo para brincar). De qualquer modo, acredito que a mídia tenha uma parcela de culpa, se é que dá para falar assim, nisso tudo. Mas isso acontece um pouco com nossas vidas. Influenciamos pessoas, negativa ou positivamente, e somos influenciados por elas; no bem e no mal. Isto é a vida. Não estou justificando nada, mas isto é a complexidade da vida. Se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael (que teve na arte a possibilidade de fazer a sua catarse -- contrariando seu jeito manso, viam-se os gestos agressivos, a postura rebelde nas coreografias -- mas sempre com leveza e alguma elegância, muitas vezes, e com um certo brincar -- aqueles passinhos deliciosos de deslizar... -- em meio a isto tudo), repito, se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael, o fato de ter sido um tanto ingênuo em relação à essa mídia e, ainda as suas opções individuais, ainda que não deliberadas, pelas suas escolhas visivelmente bizarras do tipo adquirir um parque de diversões de proporções gigantescas, como Neverland, seu apego aos diversos, inúmeros brinquedos com que enchia/lotava sua casa, ou seja, tudo o que formou sua personalidade, também o levou a ser o adulto em que se transformou. Por que, como está em Peter Pan, é contário às leis da vida não querer crescer. (Isto está mesmo em Peter Pan ou é apenas a minha leitura distanciada da obra?) Quando viajo, compro alguns brinquedos para mim, como um ônibus miniatura típico de Londres, aquele de dois andares; na Escócia, um pequeno carneiro de pelúcia com uma boina escocesa, e por aí vai. Mas devo ter no máximo uns vinte brinquedos em casa, em muitos anos de maturidade. Não quero me colocar como exemplo nem parâmetro de nada, mas, sendo assim, digamos, no meu jeito razoável, médio , dentro dos padrões da chamada normalidade, de ser adulta, creio que como grande parte da população que habita o planeta, acho curiosa a personalidade de Michael. Um pouco mais que curiosa, talvez excêntrica, pois mais e mais adultos vêm comprando brinquedos para si mesmos (lembram-se da cama da Xuxa, plena de bichos de pelúcia?), principalmente aqueles que tiveram suas infâncias roubadas. Há cada vez mais filmes de animação para crianças, que servem para entreter adultos (os quais, aliás, não me atraem nem um pouco, em geral, com exceção de poucos). Os celulares vêm com jogos e cada vez mais estes são propagados e com sucesso, na internet, há os playstation e por aí vai. (E é sabido que os jovens têm resistido mais e mais a se emanciparem, hoje em dia). O homem ocidental adulto dos anos anos sessenta (e ali, com a revolução cultural, se extingüiu o hábito por completo) usava chapéu de abas nas ruas, terno, gravata, abotoaduras e lenço no bolso -- o que lhe conferia um ar... adulto. Passar a usar calças compridas era sinal de transição da infância para a maturidade. Hoje em dia, crianças, jovens e velhos usam jeans e boné; todas as gerações falam palavrão à vontade, não importa o lugar. Se algo veio em nome de uma maior liberdade de ação (os jeans, a não necessidade dos costumes formais), por outro lado houve um degringolamento nos hábitos que levaram e estão levando as pessoas a não se reconhecerem mais em suas faixas etárias e de comportamento (como a questão do palavrão, por exemplo), fechadas e determinadas pela sociedade através de hábitos, costumes. Há um lado positivo, aí, claro, pois foram abolidos muitos preconceitos. Por outro lado, há um exagero que é preciso notar, aparar e que, para mim, fica explícito numa Neverland -- para voltar a Michael Jackson. O assunto dá pano para manga. Mas tenho para mim que Michael, apesar de ter tido a oportunidade de ser pai e conviver com as crianças que "adquiriu", trazendo-as para sua convivência e fugindo da necessidade da companhia de outras que não de sua família, correndo o risco de ter que ser processado por pedofilia, ainda assim, algo para ele havia ficado incompleto. Como para todos nós, que lutamos diariamente para preencher aqui e ali nossos desejos e necessidades. Como para todos nós. Mas a fama parece pesar para alguns, que lidam com ela da mesma maneira com que expressam suas carências, ou seja, de uma forma um tanto transbordante. Esse transbordamento aparece no excesso de plásticas e remédios por que passou o cantor e dançarino. Tudo, em Michael, a partir de um certo ponto, começou a se tornar excessivo. Mesmo algumas de suas coreografias. Quem ou o quê matou Michael Jackson?
Escrito por isa às 12h33
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Em primeiro lugar, a notícia da morte de Pina Bausch. Pegou-me de surpresa. Eu gostava de seu trabalho e, claro, também o de Michael Jackson; coloquei para uma pessoa que o meu cérebro deve ter processado algo errado, pois este último, eu o achava imortal. Vejam só!  Leio no blog de uma escritora que ela está de malas prontas e indo para a Flip (o encontro ou, a festa literária de Paraty) e ainda diz em resposta a uma leitora que talvez vá para a cidade onde esta reside e quem sabe dará autógrafos ali. Oh meu Deus, são essas, mesmo, as pessoas que se sobressaem na mídia? Não, nada contra, esse oh meu Deus é porque penso em mim, que não gosto muito de sair do meu canto, a não ser para uma caminhada, um papo com um amigo e um café, ir ao cinema (sempre) e não muito mais que isto. Não viajo há exatamente dez anos, de tão caseira que me tornei. Em casa, assisto a dvds, vejo um pouco de tevê, leio e escrevo muito. Será que tenho remédio, digo, será que minha carreira de escritora vinga? Não vou aos bares da moda, perdi muito dos contados que costumava ter... e, no entanto, modéstia à parte, acho que estou escrevendo ficção cada vez melhor. (Um romance a cada dois anos está uma boa média, creio). Acredito que seja a prática, a dedicação, o tempo para reflexão, lapidar o texto. Isto conta para os editores, para a mídia? Não. Começo a crer, ou melhor, sempre soube... Se você não aparece... ora, você não aparece! Elementar, meu caro Watson! Mas, quem sabe, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura mesmo?  Stella. Venho aqui para falar desse filme imperdível. Francês. Vi no Cinesesc, aqui em São Paulo e, para meu alívio, numa sessão tranqüila. Lembrei-me de Ana Torrent, em Cría Cuervos, de Saura e mesmo da pequenina e ocluda miss Sunshine. Mas Stella é mais velha que a Ana de Cría Cuervos, por exemplo, pois é pré-adolescente e nem é tão desajeitada como miss Sunshine (aliás, esse filme não me cativou muito, não, apesar da persogem ser interessante e também fazer parte, como Stella, de uma família disfuncional). Mas Stella não é americana, como Sunshine (era este o nome da personagem?) e sim francesa; então, para mim, o fato de assistir a um filme em que a história de uma garota pré-adolescente, com todos os conflitos que essa fase da idade traz, num contexto europeu, me pareceu muito mais fascinante do que inteirar-me daquela outra, num contexto da sociedade norte-americana. A começar da época, anos setenta, muito próxima à minha década de pré-adolescência e lá estão os professores (a de inglês) insensíveis, os ídolos na vitrola, a necessidade de fazer amizade no recreio, se você não é muito popular... a procura da atenção dos pais e por aí vai... Os pais de Stella são donos de um bar na periferia de Paris e abrigam os sem-teto numa parte do terreno. Eles tocam o local em meio às farras, à bebedeira geral, ao jogo, ao barulho. Quem terá tempo para saber dos sucessos e insucessos, na escola e na vida, nas amizades e no amor, da pequena Stella? Ninguém. A não ser a nova amiga, de origem argentina e filha de intelectuais. Elas, então, se compreendem. Mas Stella, em geral, não se vê compreendida. E tem dificuldades, tendo recentemente chegado de uma escola inferior a que está então, de entender o que os professores dizem. Ela não tem o hábito da leitura, mas sua nova amiga, sim e Stella então, através da convivência com esta, começa a conhecer os clássicos e a apreciar os autores franceses. A primeira menstruação, o primeiro amor, o primeiro beijo roubado num assédio masculino, adulto -- o que a deixa revoltada, mas, enfim, a vida tem que prosseguir. Stella se torna entre agressiva e melancólica. E onde estão os pais, que nada vêem? Perguntamos, já incomodados na cadeira. Fechados em seus pequenos mundos e, quando solicitados, não parecem ter o menor jeito para lidar com os problemas por que passa a filha. Recomendo esse filme sensível e interessante. Não entendi como a Folha de São Paulo deu apenas duas estrelas; merece três ou até mesmo quatro. A maior qualidade deste filme, a meu ver, é a sutileza; mesmo sem ainda sabermos que a história se passa nos anos 70, aos poucos vamos tendo um painel da época através de rápidos signos: o poster do ídolo na parede, o programa de futebol na tevê, a calça boca-de-sino... Maravilha. Adoro isto. E que atriz, impecável -- aliás, todos os atores estão excelentes, sem exceção. Não perca Stella; é um bom, envolvente e delicado filme.
Escrito por isa às 15h34
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