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Quando do lançamento de Luz Silenciosa (para mim o melhor filme já lançado, até agora, nesse século, como já coloquei aqui), o crítico da Folha, Inácio Araújo, foi um dos poucos que viram ali um filme de valor, de primeira, uma verdadeira obra de arte, enfim. Aquilo de certo modo me surpreendeu, porque o Inácio Araújo a que estou acostumada é aquele que fazia sinopses sobre filme de Godard sem entender nada da proposta do mesmo e que só sabia reconhecer e louvar, em seus textos, filmes de Western, ainda que dos bons, como os do diretor John Ford. Pensei que houvesse mudado, aprendido mais sobre a arte do cinema e não apenas como analisar filmes; mas não; hoje deparo-me com um péssimo texto na Folha, que revela sua total ignorância sobre o cinema de Kieslóvski. E não perdeu a oportunidade para escrachar com os filmes (a seu ver) supostamente de arte. Creio que possivelmente é uma velha rixa sua (estou inferindo...) com aqueles que estudaram cinema nas faculdades, dominando portanto melhor a teoria e portanto alargando horizontes na hora de examiná-los, em detrimento daqueles, em que incluo Inácio, que apenas vêem o cinema a partir de um olhar mais informal e até certo ponto amador, intuitivo -- embora o referido crítico esteja na profissão há muitos anos. Eu me pergunto, aliás, como se manteve tanto tempo num grande jornal como a Folha de São Paulo; permito-me uma brincadeira: ficaria muito caro mandá-lo embora? E, permito-me uma conclusão séria: está tão difícil achar bons críticos, com formação sólida, como um Sérgio Rizzo? Ou, com uma prosa elegante, como o Calil (o que um dia dirigiu a Cinemateca e de maneira estupenda, no que eu chamo "os bons tempos da Cinemateca"). Há hoje, ainda, na Folha, uma pertinente matéria sobre Retratos da Vida, de Lelouch. Eu ainda não tinha estudado cinema, apenas os escolhia através de alguns critérios poucos, com a recomendação daquele amigo ou amiga que tinham o mesmo gosto que eu. Mas sempre vi muitos bons filmes, desde que cheguei a São Paulo e o primeiro deles foi (ainda bem!) Belle de Jour, levada pelo meu amigo Marquito (que tem excelente gosto para cinema, ópera, teatro...) até o antigo Belas Artes -- que possuía apenas três, mas maravilhosas salas, principalmente a do meio, enorme, confortável... Hoje em dia, eu tremo em pensar que o filme que quero ver está lá naquele cinema que se tornou nome de banco e cujas salas são pra lá de ruins. Enfim, há coisas piores, um outro se transformou em nome de palha de aço, o que é bem pior, a meu ver. E tinha um nome lindo: Cinearte... (Mas ao menos a sala 1 é uma das melhores de São Paulo, em termos de beleza e conforto. Adoro ficar esperando as lindas cortinas vermelhas e grossas abrirem, à minha frente, magicamente... -- como se eu estivesse no teatro. Dá um certo frisson!). Enfim, eu tinha lá meus parâmetros cinematográficos, respaldados pelo fato de andar com pessoas interessantes do meio teatral, colegas do Equipe e professores diqueiros do mesmo (foi no Equipe que vi os primeiros filmes de Eisenstein, levados pelas mãos de Serginho Groissman, então diretor cultural do colégio/cursinho). E foi quando fui ver Retratos da Vida; afora os últimos minutos do filme, com aquele final apoteótico, eu tinha achado tudo muito confuso e, a bem da verdade, tudo uma porcaria. Mas falava-se dele. Ficou famoso, à época. E hoje vejo uma pertinente matéria de Cássio Starling Carlos sobre o filme, que sai em dvd, corroborando o que, de certa forma, intuí: o filme é brega, cafona, ruim. Bem ao gosto mediano da classe média que vê o cinema apenas como entretenimento, que vai "pegar um cineminha", como se diz... após almoçar o macarrão com frango com a sogra e deixar as crianças com a tia. (Oh, que maldade, a minha, agora! E que clichê!). Mas é que eu odeio esse tipo de cinema, que não é cinema, é só um filme, um filme a mais e pronto. Todos voltam para casa e continuam suas vidas e zero de reflexão (se bem que tenho uma amigo que consegue tirar leite de pedra; já o vi analisando com certa profundidade um filminho desses enlatados, que costumavam passar à tarde na televisão, desses em série e que são transposições ruins de personagens mitológicos, como mulheres corajosas da época das cavernas e que deixam transparecer o silicone colocado no século XXI -- algo assim...). Analisando é maneira de dizer, mas não é que este meu amigo se entusiasmava com tais lixos? Enfim; vivas ao cinema inteligente e sensível e sacado de Kielósvski (infelizmente, para poucos) e zero para o comentário de Inácio Araújo; abaixo Claude Lelouch (e o cinema massificado) e vivas à crítica acertada de Cássio Starling Carlos. Em tempo: há tantos anos fazendo televisão, como é que alguns apresentadores da rede Globo, como aquele rapaz gordinho do Videoshow e Angélica, ainda não sabem como usar corretamente a concordância verbal na língua portuguesa? Ambos dizem a torto e a direito: ele é um dos poucos que ficou... ele é um dos que sabe... (OMG!). É de fazer doer os ouvidos... E depois vem essa história de não precisar de diploma de jornalismo para exercer a profissão, para coroar a mediocridade que assola o campo da mídia... Quem viver, verá. E, em tempo ainda: assistir ao programa de Marília Gabriela entrevistando Angélica foi uma das coisas mais aborrecidas a que assisti este ano; a moça tem um vocabulário precário, uma bagagem cultural tacanha, não sabe filosofar, navega em águas mornas demais. Prefiro-a como a apresentadora energética que é, do Videoshow. Seu programa aos sábados deixa a desejar, também. Desperdiça bons momentos com bons entrevistados em perguntas medíocres e sem imaginação. Pena.
Escrito por isa às 10h50
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