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Se uma vez eu disse aqui que o melhor filme deste século, até agora, chama-se "Luz Silenciosa", devo dizer que descobri o segundo. Isto é, eu já sabia, mas foi revê-lo em dvd que me fez ter tal certeza. "Dúvida", com a excelente Merryl Streep, é o melhor filme deste século, depois de "Luz Silenciosa". Quando fui vê-lo no cinema, não sabia que era uma adaptação teatral; revê-lo, lembrou-me os diálogos precisos e o corte seco das cenas que se vêem nas peças teatrais (nas boas). O pingue-pongue que é o diálogo entre a irmã, vivida por Merryl Streep e o padre envolvido na trama, é uma das melhores coisas que vi em cinema nesses últimos tempos. Carrega aquele tom de dramaturgia, os diálogos inteligentes e as falas são como flechas disparadas em direção ao alvo certeiro, lépidas. Maravilha de texto, não à toa ganhou vários prêmios quando foi encenado no teatro.

O tema. O tema é primoroso. O título chama-se "dúvida", mas poderia chamar-se "intolerância". D. W. Griffith, um dos maiores cineastas que os EUA conheceram, dirigiu um longuíssimo filme com esse título, "Intolerância", para falar do tema -- e ainda tão em voga nos nossos dias, um século depois. Sim, infelizmente é um tema que continua em voga e só quem passou pela intolerância, além da discriminação e, pior, foi alvo de uma fofoca inconseqüente, que trouxe um prejuízo irreparável para sua vida, sabe disso. A parábola do travesseiro e das penas espalhadas ao vento, contada em sermão pelo padre, é muitíssimo apropriada. Excelente.

Paralelamente, há o caráter duro e inflexível da irmã, cheia de certezas e respostas prontas, sempre arrogante e assertiva; insensível; indelicada. Trata os demais com desprezo, desconsidera-lhes a fala, o comportamento e está sempre impondo-se, dando a última palavra e fazendo-se escutar sem nunca, ela mesma, escutar os outros. É a típica autoritária. E o que nos revela aquele final? Por detrás de um autoritário, duro, mandão, há sempre alguém frágil, mas que não é honesto consigo mesmo e os outros e esconde tal fragilidade, como se com isso fosse sair ileso. Agem assim os hipócritas, também. Magnífico filme! De fato. Indeed.

Interessante como a questão do tempo é trabalhada ao longo do filme, sempre a metáfora recorrente do vento. E como os diálogos são pontuados por eventos externos, que sinalizam aqui e ali e vêm corroborar a fala dos personagens. O jogo de persianas, na diretoria, denuncia quem está tentando ficar no poder. A lâmpada que queima; o telefone que toca. A ventania anunciado desastres, confusão, malentendidos. Temporal e, naquele final brilhante, a neve.

A perda da inocência (mas não da candura e do sentimento de compaixão) da jovem freirinha, que de início amava incondicionalmente seus alunos, a ponto de não querer visitar o irmão seriamente doente para não largar sua classe; depois sua explosão em aula, sem um motivo aparente, com um aluno e mesmo a confusão de sentimentos ao ver o padre abraçar o garotinho negro, Donald, sem mesmo dar-se conta do que se passou -- ela, no caminho também da intolerância e do preconceito, cujo campo minado fora muito bem plantado pela freira superior. Esta, lutando pela virtude, quando de fato seu passado também continha erros -- mas tal humanidade ela não conseguiu ver no padre, que ao que tudo indica (minha leitura), apenas estava protegendo o que a mãe de Donald chamou de "sua natureza". Mas o padre é ético. Não satisfaz a curiosidade da freira superior e prefere ser afastado ao relatar a conversa com o garoto. O padre: amigável, moderno, camarada, piadista, fumante, as tais unhas compridas -- o comportamento anticonvencional demais aos olhos da madre superior. Intolerância: a incapacidade de conviver com o diferente.

E tudo aos poucos se equilibra: a jovem freira descobre que seu amor aos alunos não é incondicional e que pode, sim, ir ver o irmão em sua cidade natal; a madre superior, esta provavelmente não dorme direito porque tem... dúvidas. Finalmente, um instante de fraqueza -- humano!

Belo filme, enfim. Depois de "Luz Silenciosa", é o mais preciso em termos de diálogos, corte de cenas, roteiro, composição de personagens, a que assisti nesses últimos tempos. Recomendo...



Escrito por isa às 23h44
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