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Existem pessoas que, para começar bem o dia, necessitam de uma boa caminhada ou uma ida à academia ou correr em algum parque. Eu não; eu preciso de algum estimulante intelectual, que me faça sentir que sou um ser vivo e pensante. Que reflete e opina sobre o que lê, ouve ou vê. E hoje eu acordei mais cedo pensando em ir caminhar, já que está frio mas sol e é preciso aproveitar enquanto os terríveis dias nublados e de chuva não chegam para valer. Que nada. Após o café eu li o meu jornal diário, mas nada ali me pareceu estimulante e as notícias sobre o vôo da Air France me pareceram velhas, se comparadas ao que vi no noticiário do dia anterior. Resolvo dar uma espiada na tevê, coisa que não faço durante a manhã e vejo que está passando o Saia Justa, programa de que gosto muito. E lá está Maitê falando da diferença de sensação e sentimento; que as coisas que apenas lhe dão sensação não lhe interessam e que ela está interessada em sentimentos. O mesmo se passa comigo (aliás, eu possuo uma identificação incrível com as idéias da Maitê, em geral).

Lembrei-me de um ano em que, na faculdade, alguns colegas próximos me convidaram para ir ao Playcenter (acho que é assim que se escreve); achei a coisa mais boba e chata do mundo, aquela maquinaria toda tentando me provocar algum tipo de felicidade, através da sensação. Lembrei-me, também, de quando eu era criança e fui na casa de uma amiga de escola, no Castelo e logo de entrada havia três balanços -- aliás, foi a primeira vez que tomei contato com o gibi Os sobrinhos do Capitão, os quais li avidamente ao invés de participar da brincadeira de casinha. Enfim, as tais balanças; eu sentei e comecei a me balançar suavemente e veio um pentelho ou uma pentelha e começou a me empurrar violentamente, para que eu fosse até o alto e sentisse algo vertiginoso, como se aquilo sim fosse me dar o prazer dos prazeres. Eu só me senti muito mal e com medo. Creio que foi quando optei pelos gibis ali no corredor externo da casa. Enfim, eu não gosto de sensações --  não gosto de filmes de Batman, não gosto da maioria dos filmes do Tarantino, não gosto de corrida de automóvel, não gosto de nada que me tire o fôlego e sim que me deixe calma, no meu lugar e me deixe refletir sobre o que estou passando; não só refletir, mas sentir. O excesso de excitamente, também, nas pessoas, como pessoas ansiosas ou de uma alegria exagerada, me aborrecem. Claro que uma boa gargalhada é gostoso, claro que um exercício intelectual na base do "freje" é interessante -- eu adoro um embate intelectual! -- mas não gosto de sentir ali que tem algo competitivo, narcísico, exagerado, abusivo. Nada que fuja do objetivo da troca, simples e pura de idéias, no sentido de esclarecer ou enriquecer uma idéia e, por conseguinte, o outro e a nós mesmos. Claro que me exalto, ao defender minhas idéias, muitas vezes, mas em nome de uma verdade, ou da justiça ou algo assim. O que não se deve é invadir o campo do outro. Balançando-me sem o meu consentimento, nas alturas, eu me senti tremendamente invadida e quis parar com a brincadeira. Aquilo, aliás, para mim, não era brincadeira, mas uma coisa de desafio muito chata.

Hoje a Maitê me fez lembrar desse episódio em minha vida e reafirmar, com base em suas palavras, que gosto mais do sentir do que das sensações, propriamente ditas.



Escrito por isa às 11h13
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