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EU NÃO TENHO JEITO!
avenida Paulista, em foto de Bia...
Eu não tenho vocação para robô; nem para a disciplina, a não ser que tenha a ver com um romance que esteja escrevendo e o qual esteja me cativando muito, com o qual esteja envolvida -- aí não tem nada, nem o melhor programa do mundo que me tire da rotina. No entanto, gosto de caminhar todos os dias -- mas há aqueles em que, quando acordo, mesmo fazendo o maior sol, como hoje, eu me digo: acho que seria melhor levantar mais tarde e deixar a caminhada para depois (correndo o risco de uma chuva, um compromisso -- quase sempre uma sessão de cinema no meio do dia -- e o adiamento do programa, claro). Já houve dias em que tive de sair correndo para o dentista logo cedo, numa emergência, mas depois eu saía de lá e ia para o meu local preferido de caminhada e realizava a dita cuja. Hoje em dia eu não tenho tanta disciplina e percebo que é quando mais preciso. O ponteiro da balança não baixa há pelo menos dois anos (não que eu almeje, como a maioria das mulheres, ser magra e voltar a ter o meu corpo de adolescente ou de muito jovem -- não --, definitivamente este desejo não me persegue), as costas dóem e passar horas lendo ou em frente ao computador não é mais a mesma coisa. O corpo reclama dos maus tratos, enfim. Ontem fiz um esforço, levantei duas horas mais cedo do que de costume e fui caminhar na minha praça preferida, aqui do bairro mesmo. Este é pleno de ladeiras; eu não dirijo, então esperei pacientemente o ônibus que me levasse à tal praça. Para um dia de sol, está tudo certo -- meu humor fica muito bom num dia de sol. Mexe com a serotonina -- assim como os chocolates, os quais estou tentando evitar, com algum sucesso desde ontem.
Vinte minutos olhando os carros que lambem o asfalto vagarosamente; de repente, um pai todo de verde, com o filho de verde, este envolto em uma bandeira do Palmeiras; a menina está de rosa e segue à risca o modelito das meninas cujas mães não têm a menor criatividade para vesti-las. Carrega uma bolsinha rosa, também. É um trio harmonioso, embora eu sinceramente, do time, só considero que Marcos seja um bom goleiro. Não que eu entenda de futebol; não entendo nada. Assisto a TODAS as Copas e torço para dois times rivais, Corínthians e São Paulo, este último mais por um laço familiar com meu avô Tonico e para reforçar as lembranças do meu pai, que vive dizendo, quando o São Paulo ganha: meu pai ia estar contente, hoje. O Corínthians... eu nem sei por quê, acho que foi por uma frase do Rodrigo N..., quando a gente frequentava a mesma turma... ele viu um jogo do Timão e se emocionou com o apelo popular (numa época de ditadura, em que nós, chamados intelectuais e a favor de uma vida melhor para o povo, éramos completamente ignorados ou mesmo mal vistos por uma parcela da população, justo aquela a qual procurávamos defender... mas eles já estavam de cabeça feita, como dizia um amigo meu, àquela época). Conta a lenda e o que lembra a minha memória, que o Rodrigo ajoelhou no chão e achou a manifestação, pela celebração da vitória do time, algo tão grandioso como se aquela massa tivesse mesmo poder. Bom, a coisa ficou na minha cabeça e comecei a prestar atenção no carisma do time, na força da torcida e gostei do que vi... -- mas hoje em dia, o que eu gosto no time é de ver o Ronaldo jogar. Não adianta, eu sou muito atraída (ia escrever fanática, mas não é o caso) pelo futebol de Ronaldo, Kaká e Ronaldinho. Mesmo não tendo aquele sentimento burguês que é natural aos torcedores de futebol e que depois vão para um churrasco e um pagode ou saem buzinando pelas ruas ou agitam bandeiras. Não gosto de nada disso. Gosto do futebol em si, enquanto estratégia, enquanto jogo. E ver pela tevê. Eu gosto de um jogo; pena que não tenha com quem jogar uma boa partida de baralho ou Mahjong. Quando acampávamos, lá no começo dos anos oitenta, eu gostava até do mais simples jogo que fazíamos com as crianças, tipo Mico. Gosto de jogos. Ainda vou aprender a jogar xadrez, mas não tenho com quem jogar. Talvez com o computador, quem sabe... E eu dizia que fiquei esperando o ônibus por vinte minutos e valeu a pena; a praça estava ensolarada, as mães eram interessantes e não babás castradoras, brincando ali com os filhos pequenos. Mães criativas, compreensivas e amorosas -- atentas aos seus pimpolhos. Um pai de seus trinta anos estava absolutamente envolvido com as peripécias de seu menino de um ano e pouco. Bonito de ver. Fiz uma caminhada de 50 minutos, dez a mais do que costumo fazer; afinal, estou na fase: que venha a saúde em primeiro lugar! Depois me sentei no banco, longe do sol, mas perto o suficiente para receber seu calor e logo uma senhora de (disse-me depois) seus poucos mais de oitenta anos, mas forte ainda, senta-se ao meu lado e começa a puxar prosa. Seu nome é Maria Helena e é campineira; como morei muitos anos em Campinas, aproximadamente 17 anos, e onde passei infãncia e toda a adolescência, temos um prato cheio para um papo praticamente interminável. Mas ela quer ficar minha amiga e marcar um encontro no parque para amanhã (hoje); eu dou algumas recusas delicadamente e digo de mim o que já sei: sou imprevisível com meus horários. Se meu vizinho me deixa dormir, acordo tarde; se não, levanto cedo, mas com certa dificuldade de me organizar para sair, preferindo ler o jornal no sofá e depois enfiar a cara no computador. Aí é banho e ir para a rua, almoçar e fazer o que tenho que fazer. Ela se decepciona e diz: eu preciso de uma amiga. Na minha idade, todas já se foram. Meu Deus, penso, será que ela pensa mesmo que podemos ser amigas? Assim, depois de um papinho no parque? Ela me surpreende e me emociona e ao mesmo tempo me deixa com uma sensação muito ruim do que é ter mais de oitenta anos e nenhum amigo... Enquanto escrevo, o sol brilha lá fora; mas optei por sentar ao computador e escrever; quem sabe a caminhada fique para o período da tarde, apesar de que hoje tenho que ver um filme imperdível de mais de duas horas -- do Ang Lee...
De qualquer modo, não tenho vocação para ser robô e não sei ser disciplinada com horários para exercícios; aliás, preciso de uma esteira, mas quando penso numa, concluo: o melhor é acordar cedo e caminhar no parque. Ou seja: eu não tenho jeito.
Escrito por isa às 19h54
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