Com bastante atraso (ah, o tal feeling!), finalmente assisti a O ensaio sobre a cegueira, adaptação do livro de de Saramago (escritor de que não gosto) e dirigido para o cinema por Fernando Meirelles. Resisti ir ao cinema por causa do primeiro, escritor superestimado e que, a meu ver, não escreve bem. Mas, na verdade, o que me fez desgostar do filme, a ponto de conseguir assistir a ele por apenas vinte minutos ou pouco mais que isto, foi a direção. E os atores. E o roteiro. E os cortes. A fotografia, excessivamente televisiva, comercial -- que aliás me lembrou Closer. Enfim, ou seja, tudo. Tudo é mesmo ruim neste filme. Eu me disse o tempo todo, desde as primeiras cenas: lamentável, lamentável, lamentável. Necessito reler as críticas e perceber se algum crítico que considero respeitável e com uma razoável bagagem e que tenha bebido lá atrás do bom cinema também pensa como eu. Eu me pergunto se um diretor (não, não vou chamar de cineasta) como o Meirelles um dia tentou aprender algo com Fassbinder, ou mesmo Wenders ou o Bunuel de Belle de Jour. Ou Kubrick; ou Orson Welles. Jamais vi tanto amadorismo, mesmo nos cortes de cenas -- saltos inacreditáveis, mas não por conta do corte "artístico", mas por falha mesmo, por desleixo ou ignorância ou sei lá o que dizer de tanto amadorismo.
A estória também não convence, que aliás começa com um ator muito ruim, de origem japonesa; o dito cujo fica cego de repente e ao invés de ser levado ao hospítal, pede para ser levado para casa (ou, é convencido a...); o sujeito que o ajuda, rouba-lhe o carro. Duas infantilidades de uma vez só. E a fotografia, que horror, de um realismo pobre, de anúncio de televisão. Há uma cena em que uma atriz brasileira aparece nua, de cima e é de um primarismo ímpar; que fotografia mais feia! Eu me disse: eu não mereço isto! E foi ficando pior. Quando os cegos entram numa enfermaria, não há um único enfermeiro para acompanhá-los;. como isto é possível? Jamais peço verossimilhança se os filmes me dizem desde o início que não tenho que contar com um mínimo do real para seguir o fio narrativo. Mas, neste filme, a coisa cai para o insólito no sentido de falhas e erros, que nos chama de imbecis, mesmo. Lembrei-me dos primeiros minutos de outro filme horrível e cultuado por quem não conhece cinema, que se chama O Efeito Borboleta. Como vi outro dia num jornal, é filme feito para adultos que são infantilizados. Seria algo como ter trinta anos e sair de casa para comprar o cd da Xuxa. Enfim, uma tristeza, uma decepção. Confesso que esperava mais, apesar do meu feeling me dizer que era para não perder tempo indo ao cinema ver um filme sobre uma obra de Saramago. Algo me dizia que a coisa iria cair para o oportunismo; enganei-me, é muito pior. Este filme é um insulto à nossa inteligência... que, aliás, foi o que senti ao começar a ler " O Evangelho..." de Saramago. Pensei: esse cara está gozando com a minha cara. Como pode alguém escrever algo tão ruim e vender?
Enfim, é isto. Minha sorte foi ter adquirido o belíssimo Berlin Alexanderplatz, de Fassbinder, dias atrás... isto sim é filme, ou melhor, cinema e cinema com C maiúsculo.
Escrito por isa às 22h42
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