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                                                    Beleza e miséria cultural

             (Tom Chaplin, vocalista da banda Keane, em 2006; pra você ele está gordo? Para mim, ele está lindo!)

 

                  Segue um texto escrito às pressas, porém motivado por um dado do real. Tem a ver com aquela velha frase: nossa, como você engordou!  (Afe!)

 

                      O que é a beleza física? Quais são os parâmetros que definem que uma pessoa é bela e outra não? Será que a beleza está mesmo nos olhos de quem vê?

                 Estudos recentes mostram que os padrões de beleza vêm mudando drasticamente durante as últimas décadas. Houve um saldo significativo por volta dos anos 50/60 do século passado, quando então as mulheres, mais relacionadas à moda e ao consumo, do que os homens, passaram a ter seus corpos moldados pelos costureiros — que, como todos sabem, a grande maioria é homossexual, o qual, notoriamente, tem como padrão o ideal do corpo masculino — o objeto de desejo. Ou seja: quadris retos e pouco busto. (E, por favor, não venham falar de politicamente incorreto ou que sou preconceituosa, porque sei que não sou, ok.?) Alguém se recorda da Twiggi, modelo inglesa? (Os quadris retos permaneceram, mas agora veio a moda do silicone — até quando?)

                 Atrás das tendências da moda, vieram as questões ligadas não só à saúde, mas, principalmente, a um ideal de beleza a ser perseguido. Atualmente, a mulher excessivamente magra está em voga. Alguém já viu uma concorrente de Giselle Bünchen ser uma gordinha ou, a chamada "cheinha"? Não. Para ser bela, desfilar a beleza das roupas, é preciso ser magra. E o que fazem as pessoas que consomem moda ou são massacradas pela indústria cultural, sem nada questionar? Querem ser magras, claro! Pois ser magro, quer dizer mais ainda do que ser belo, quer dizer: sou aceito! E quem não quer ser aceito, amado? Todos querem ser amados. E aparecem doenças como a bulimia, a anorexia, principalmente entre as meninas, cada vez mais... em moda! Querem moda? Convivam com isto, papais e mamães.

                 A moda está ligada à necessidade de mudança de parâmetros e tem por base o consumo. Se no ano passado o que se viam, por exemplo, eram bolinhas e listras nos tecidos, este ano pode ser que vejamos estampas florais como tendência. Assim, todos correm renovar seus guarda-roupas e, claro, a indústria da moda sai lucrando com isto. Mas o que isto tem a ver com a beleza? Muito pouca coisa. Ou tudo, dependendo do ângulo sob o qual o assunto é visto e analisado. Claro que se não renovássemos nossos guarda-roupas, morreríamos de tédio. (Mas alguns já não morrem, só que de miséria, na grande maioria dos países que fazem parte do planeta?)

                A beleza física é algo que está no campo do visível. A beleza interior, não. Já que vivemos numa sociedade de consumo e praticamente tudo se tornou objeto, o que eu vejo, em tudo, é objeto. Falou-se até na mulher-objeto e fala-se mais modernamente, também, em homem-objeto. Quando as revistas estampam homens e mulheres com corpos bem torneados, eles se tornam objetos de admiração e, indiretamente, de consumo. Se eu tenho um corpo socialmente aceitável, isto quer dizer, mais uma vez, que serei aceito! E, portanto, amado! E a cena: todos entram alegremente no restaurante e fazem os seus pedidos... e ela? Uma alfacezinha, alguns grãos de arroz... (o negócio é ser magra, magra, magra! Para ser aceita e amada, claro! De que assunto as pessoas médias/medianas falam quando se referem às outras? Fulana? Achei ela magra. Sicrano? Está bem gordinho! E por aí vai. Será que podemos relacionar tudo isto, também, a uma certa miséria cultural? A um pensar pequeno? A um pensamento estreitamente ligado ao mundo do visível, relegando a segundo plano o mundo das idéias e por conseguinte, da cultura? Entendendo cultura por produção de linguagem do homem relacionada, em alguma instância, com a arte e à produção de pensamento?

               Se você tem amigos ou parentes com os quais passa o dia conversando sobre temas ligados à cultura — um filme, um livro, um museu — onde sobre pouco ou nenhum espaço para a análise física, para a análise corpórea de fulano ou sicrano, você, a meu ver, é um sortudo. Se você tem um parente que, quando encontra com você, diz: como você está gordo! Pode acreditar que ele está fazendo a seguinte análise: eu me mato na academia para ficar magro, deixo de comer o que gosto para ficar magro e agora ele me aparece gordo? Como assim???????? Ele não tem espelho, será que não se enxerga, será que não percebe que está gordo? (Será que ele não percebe que está.. fora dos ditos padrões?) Resposta: sim, todos temos espelho em casa e sabemos se estamos gordos, magros, esquálidos, cheinhos, obesos... assim como nosso nariz está reto ou nossas sobrancelhas estão finas ou grossas. Bom, menos o doente que tem uma disfunção (mais comum, depois da moda da magreza como padrão de beleza) que distorce o que ele vê no espelho, o que tem ocorrido com nossas adolescentes, com freqüência: elas se acham gordas, quando, em termos médicos, estão dentro do peso. Mas elas não querem ser magras; querem ser magérrimas! Enfim, a resposta é: sim, nós temos espelho e não somos idiotas! (Talvez o idiotizado seja aquele que só consiga ver beleza no campo do visível — será que não?)

               Você vai assistir a um filme com alguém e, ao sair, ao invés da pessoa discutir o filme em termos mais profundos, ela apenas diz: viu como a Julia Roberts tá mais gorda nesse filme? Viu como a Marilyn engordou depois daquele outro filme que fez antes deste? E por aí vai. É comum escutar isto. Será que as pessoas estão sem bagagem cultural para discutir outras coisas? Mais relevantes, do que a massa corpórea dos outros?

              Do que falam as revistas de fofoca? Do físico dos outros, fundamentalmente. Você já viu alguma revista de fofoca comentar que tal atriz é muito inteligente? Não, não é. Aliás, ser inteligente ainda é uma qualidade muito mal vista para os que estão ligados à indústria do consumo. Pois quem é inteligente consome menos, claro, pois não consome o que é supérfluo!

              Infelizmente, as estatísticas também mostram que pobres ficam acima do peso por serem mal orientados na hora de se alimentar. Isto é outra questão. Aqui, estou falando de gente com poder aquisitivo, mas que não consegue questionar o que lhes foi imposto com o decorrer dos anos pela indústria do consumo. Quando vemos revistas ou colunas sobre a classe média alta, a maioria é magra. Gastam calorias nos clubes, nas academias, em esteiras, pedalando, fazendo natação — enfim, investem numa boa parte de um tempo útil, nisto. Como que numa obrigação, pois tem que caber no vestido — já ouviram essa frase? É mais importante que uma roupa caia bem, do que suas idéias e comportamento propriamente ditos. Vê-se, com freqüência, uma inversão de valores. O outro não é valorizado pelo o que ele possui enquanto caráter ou educação, mas o que ele apresenta (e representa, enquanto valor social) enquanto cartão postal, ou seja, no campo do visível. Miséria cultural...

              Mas, afinal, o que é a tal beleza física? Não há dúvida que o gosto pode ser manipulado e a indústria o faz e o faz bem. Antigamente as crianças brincavam com bebês gordinhos com cara de nenês saudáveis e hoje em dia elas querem.... Barbies! O chamado padrão americano — pois não é de lá que veio a tal boneca? Valorizada até por adultos infantilizados, que as colecionam?

              Lindíssimo, para quem sabe ver e tem bagagem cultural, As Três Graças. No filme espanhol Pelos Meus Olhos, o marido pergunta à esposa o que ela vê naquela pintura onde uma das mulheres tem celulite e a outra parece uma sapatona. Para este homem ignorante, só o visível conta; só o padrão — ele não consegue ir além, por falta de bagagem na área do sensível. Seria ele um consumidor dos livros de Paulo Coelho ou seja, faz ele parte da grande massa que só consegue consumir o que é medíocre, e o que já está consagrado como "bom"? Assim como dentro desse parâmetro, entra também o "ser magro"?

              Enfim, este é um assunto sem fim. Mas uma coisa é certa: é bom ter saúde e não estar acima do peso, claro. Mas, se você está fora dos padrões, não se desespere. O que seria do verde, se todos gostassem do amarelo? Dê uma banana para os padrões e tente ser feliz vivendo a diferença. Com saúde, claro. Mas deixe aos bulímicos e anoréxicos que se privem de chocolates e outras gostosuras. Seja inteligente. Dê uma banana para os chatos e os padrões. Como diz o Jô Soares, sou gordo mas sou feliz!

P.S.: Em tempo, esta que vos escreve está oito quilos acima do peso, tem espelho, é chocólatra, caminha todos os dias e faz alongamento duas vezes ao dia e não se sente rejeitada socialmente — apesar de não se sentir, por outro lado, aceita e amada. No entanto, sabe-se feliz por ter tido a sorte de ter descoberto que, além do visível, há o campo do invisível: a arte, a filosofia, uma expressão inusitada e poética de um gato que dorme; a poeticidade de uma imagem cinematográfica. Quanto aos medíocres, está dando uma banana, fruto que despreza por ser alérgica a ela, para todos eles. E sonha com o dia que deixem a sua massa corpórea em paz. E privilegiem nela outras qualidades — possivelmente, para os medianos, até agora, invisíveis. A estes, meu grito furisoso, em outra língua, para não parecer pouco educado... : give me a break and damn you!

 



Escrito por isa às 21h51
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