hisafarr


                                                                 

            Acabo de assistir ao filme Bodas de Papel, de André Sturm. André costumava freqüentar a Cinemateca no começo dos anos noventa e, pouco depois, comprou um cinema no Bexiga, acho que o Cine Bexiga, mesmo, e creio que mudou de nome, mas não me lembro mais. O que me lembro dele é algo muito mais pessoal, como a morte trágica de alguém próximo a ele e que também freqüentava a Cinemateca, quando esta era em Pinheiros, próxima à Vila Madalena. Passei anos vendo os melhores filmes do mundo, ali. Dreyer, Ozu, Mizoguchi, Bergman, Resnais... e mesmo filmes raros vindos da Cinemateca do Uruguay -- então conheci bem seus freqüentadores. Bons tempos. De qualquer modo, não vi o primeiro filme de André e não posso comparar para falar de um estilo seu -- o que seria bom. Mas o que vi em Bodas de Papel me deixou intrigada, já que tenho como referência que foi rejeitado pela crítica e não muito bem aceito por parte do público (ao menos, foi o que li via internet). Mas com as artes no Brasil é preciso se ter muito cuidado; muitas vezes tudo aparece de maneira invertida, vide a má crítica (de alguns críticos e de peso) ao belíssimo Luz Silenciosa -- como coloquei aqui, um dos melhores filmes da década, até agora (fortemente inspirado em Dreyer, mas, e daí?).

          O que achei bem consistente e convincente em Bodas de Papel foi o relacionamento amoroso do casal, da artista plástica brasileira e o arquiteto argentino. No entanto, eu me ressenti de alguns momentos de maior dramaticidade, reservado para o final, com a morte do rapaz, Miguel. Parece que a tal virada demora um pouco a acontecer, mas, enquanto isto, o que o espectador tem são cenas bastante agradáveis de se ver de uma cidadezinha no interior de São Paulo, Candeias (que, ao que parece, teve sua locação principal em Monte Alegre, como se vê pelos créditos) -- e o que se tem é mais que isto, é todo um bom gosto na decoração de uma casa, com móveis que muito provavelmente a produção garimpou na Vila Madalena, em São Paulo, bairro aliás que aparece quando há um lançamento de livro na Livraria da Vila, forte ícone do bairro. De qualquer modo, a produção se esmerou na composição do look artesanal/interiorano... às vezes até demais, pois o bar em que trabalha Walmor Chagas carece de um pouco mais de autenticidade, extremamente asséptico, com absolutamente nada fora do lugar -- nem um lápis jogado sobre o balcão, sequer. Dignas de nota as locações nas proximidades do Trianon, de onde o rapaz escreve à namorada -- acertadíssimas. O paulistano reconhece ali um lugar de intimismo agradável que, só quem mora na cidade o identifica, mas, ao mesmo tempo, é um terreno que, mesmo para quem nunca esteve lá, é colírio para os olhos.

          Helena Ranaldi e o ator argentino, que trabalhou com Almodóvar em Fale com Ela, no entanto, não decepcionam, estão muito bem e confortáveis em seus papéis. Nas primeiras cenas, praticamente não há conflito, o que pode levar o espectador a se entediar, mas também é algo que deixa com que se respire aliviado, pois ultimamente o que se tem são filmes que revelam um estresse exagerado, altas cargas dramáticas, deixando o espectador, quando não em suspense, em estado de contida aflição. Que não se espere isto do filme de André... o trem corre suave nos trilhos e o barco desliza em águas calmas -- até a morte de Miguel. Que aliás, não vem abalar muito o antigo cenário, pois a artista plástica continua a revê-lo em pensamentos e... o que seria aquilo, um sonho, um delírio? O filme não nos dá pistas. Miguel retorna, bate à porta como se nunca tivesse "ido embora" e conversa com sua antiga namorada com se a tivesse visto no dia anterior. O mesmo se passa com ela. O que deixa o espectador confuso, mais do que surpreso e eis aí a minha crítica; acho que de, algum modo, uma narrativa tem que direcionar o que está sendo mostrado para o espectador; acho uma falha terrível quando isto não acontece. Não se trata de subestimar a inteligência do espectador, mas sim de uma condução ficcional que não o deixe perdido, pois, apesar de ficção, quando assistimos a um filme, mergulhamos na estória como se ela fosse real, claro... e seguimos um ponto-de-vista; um caminho, dado pelo filme. Se isto se perde (e não estou falando aqui de cortes abruptos propositais, que aparecem em alguns filmes de arte de maneira bem articulada), o espectador também se perde e, aí, sim, é capaz de achar que o estão fazendo de bobo. Foi o que me aconteceu e tenho uma bagagem que me permite separar o que é ambíguo do que não é, num filme. Lembremos de Match Point, de Woody Allen e a cena dos que já morreram, na cozinha. Claro que quanto ao filme de André, sabemos que Miguel não voltara da terra dos mortos, mas ao menos poderia haver algum indício de sonho ou de memória; este nos é dado, por exemplo, quando a personagem de Helena Ranaldi vai pegar a bola para algumas crianças, em seu quintal e vê o vaso de orquídeas. A questão da lembrança fica muito bem resolvida, depois, quando ela está com a bola nas mãos e um dos meninos diz: e aí, dona e a bola? Ou seja, ela estava com o pensamento longe. Mas, na cena em que Miguel supostamente retorna, ficamos sem entender nada, porque o filme não nos quis dar indício algum. E ficamos perdidos, acreditando em espíritos ou memória, seja qual for a opção, mas que não é nossa e sim da maneira errônea, a meu ver, como a cena foi conduzida -- ou, o que não veio a seguir. Sim, mais tarde a impressão se desfaz, mas até isto acontecer, já fomos esquecidos, desrespeitados, enquanto espectadores. Ao menos, foi a impressão que me passou, neste momento. Não a de uma confusão saudável, se me entendem... nada a ver com meu direito de optar ou pensar o que quero, mas sim uma confusão que pertence à má condução da narrativa, mesmo.

          Mas não se deve crucificar todo um filme somente por uma cena; digamos que é um trabalho despretensioso e tem que ser visto como tal. (Lembrei-me de um filme italiano muito semelhante, chama-se, se não me engano, Viagem à Toscana. Não dá para esperar nenhuma força dramática do filme, pois seus personagens não a têm). Os personagens de André, aliás, casam-se bem em temperamento e não há praticamente conflito entre eles, a não ser quando Miguel deixa, um dia, de telefonar à namorada, para dizer que não chegaria para o almoço. No mais, é barco navegando em águas calmas. Até aí, tudo bem. Mas que não se espere mais que isto deste filme. Isto é bom, isto é ruim? Há obras que são dramáticas, outras, singelas. Bodas de Papel não é nem um, nem outro, mas fica próximo do segundo, pelo seu cenário de interior e a calma e o ajuste entre os amantes. Mas não é um filme para ser revisto, certamente -- simplesmente porque é um filme por demais correto e nada, nada apaixonante. Simplesmente por isto. Como se diria popularmente, faltou uma pegada mais forte... É isto. Bodas de Papel, eu diria, é um filme... legalzinho... e nada mais que isto.

                 Em tempo: lembro-me de um colega de faculdade, que hoje é apresentador de um programa de tevê à noite, empresário e muito rico; o rapaz ia impecável à aula, diríamos que havia se vestido para um jantar elegante às sete horas da manhã. Usava um mocassim de verniz, terno, gravata, o cabelo sempre arrumadinho -- parecia estar num curso de advocacia e não de jornalismo. Aquele rapaz tinha uma coisa tão certinha e enjoada, tudo nele estava sempre tão impecável, nos lugares, que ninguém gostava dele. Faltava alguma coisa de interessante nele. É só um recorte daquele sentimento, que todos tínhamos e que, creio, cabe bem aqui.



Escrito por isa às 15h59
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