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                                            A banda Keane em novo visual

 

                A banda britânica Keane dá uma reviravolta na carreira, com o lançamento hoje do single Perfect Symmetry, disponibilizando para os fãs em seu site oficial uma das músicas, Spiralling, com forte ritmo dançante. Em entrevista , o vocalista Tom Chaplin fala da influência de Bowie e Talking Heads, entre outros ícones dos anos oitenta. Eu me lembro bem de Talking Heads; um amigo muito íntimo era fã dessa banda e trazia uns elepês lá para o meu apê para a gente ouvir, enquanto juntávamos material em xerox (não havia ainda o computador caseiro...) sobre cinema, literatura, fotografia, garimpados em bibliotecas de Sampa. Foram os meus anos de paixão pelo cinema de Wim Wenders, que adorava Ozu -- e meu mestrado seria em Ozu. Enfim, lembro bem de Talking Heads e menos de Bowie; Bowie me pegou mais quando apareceu nos anos setenta (e eu era adolescente) com um LP em que discutia a misoginia. Meus amigos e eu ficamos de boca aberta -- lembro bem. Era uma irreverência total.

                De qualquer modo, os anos oitenta foram os chamados anos cínicos, em contraposição a todo um romantismo dos anos 60, sendo que os setenta ficaram no meio, meio indecisos, aí no final da década surgiu a dance music ou melhor, disco music, que eu particularmente detestei porque só os mauricinhos e as patricinhas (que eram chamadas de cocotas e eles, de playboyzinhos) de onde eu estudava (FAAP) aderiram. Teve uma festa no diretório acadêmico, alguém levou as músicas do filme Embalos de Sábado à Noite e minha amiga Jane começou a dançar, tirando sarro, no meio da pista, enquanto eu não sabia se aderia ou não, porque tinha um ritmo alegre mas era meio babaca. Exigia habilidade na performance... e um talento para algo robotizado. Aliás, o próprio personagem do filme era um babaca, com aquele terninho careta, aquele cabelinho com gel, tudo o que detestávamos. Vieram os glitters, as meias com glitters, roupas que pareciam seda, mas eram de um tecido artificial, enfim, toda uma estética fake. Quanto mais artificial você fosse, mais in você estava. Nada de corpo solto, batas flutuantes, franjas, leveza, improvisação, criatividade. O negócio era pegar pesado. Nada de dança espontânea (que remetia a algo sonhador e mais ingênuo, porém a meu ver mais verdadeiro, genuíno), o negócio eram os passos ensaiados. Aí veio aquele azul gritante, bem forte (que se vê em Veludo Azul, de Lynch), as ombreiras, os cabelos artificiais -- tudo o que representasse FORMA. ("Spiralling", "Perfect Symmetry"?)

              Não quero dizer que a volta aos oitenta de Keane represente mau gosto. Mas me pergunto se não há aí um intuito de vendagem, de comércio, de show business muito forte. O que talvez descaracterize o estilo da banda. Pois se há uma coisa que eles sempre tiveram foi estilo. E quando eu vejo Justin Timberlake ganhando todos os troféus da mídia com sua música dançante, aqueles passinhos ensaiados em coreografia rígida, fico pensando no que está por trás desse novo Keane. E no que seus produtores pensaram sobre a boa e velha música de Keane.

                Parece que o terceiro álbum promete mais; em entrevistas falou-se de clima de cabaré e Marlene Dietrich; falou-se Beatles, talvez aquele de Revolution, pelo o que deu a entender um breve recorte de música colocado no site oficial. Enfim, é esperar. E ver se vale à pena continuar apostando na banda. Esperemos que sim...



Escrito por isa às 12h56
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