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                      De vez em quando, ou seja, a cada vinte ou dez anos -- se tivermos sorte -- acontece de assistirmos a um daqueles filmes que são capazes de nos deixar em êxtase, embasbacados e sai-se do cinema como se se dissesse a si mesmo: enfim, um gênio -- alguém que chegou à perfeição, que compreendeu tudo, todas as lições dos grandes mestres e, no entanto, fez um cinema singularíssimo. Este é o caso do cinema de Carlos Reygadas, com o seu magnífico Luz Silenciosa. Nenhum plano, nenhuma fotografia, nenhum gesto, nenhuma palavra, nada é desperdiçado -- nada sobra. É um cinema pensado, artesanal, elaboradíssimo, preciso, conciso. Em alguns momentos pensamos em Wenders, ora em Ozu, ora em Carl Dreyer. Mas é um cinema particularíssimo; vê-se o traço do gênio, como um Picasso, que se distingüe de um Van Gogh, de um Monet.

                  Talvez tenhamos que esperar alguns anos para que apareça outro filme igual ou semelhante à Luz Silenciosa. A mão segura do mexicano Carlos Reygadas nos oferece poesia em tempo integral. A maneira como trabalha o tempo na narrativa, dando ao espectador aquele tempo necessário para analisar uma bela fotografia (destituída de todo e qualquer pedantismo, de qualquer afetamento, diga-se e raramente afiada, de cortes bruscos, diga-se também; a câmera por vezes desliza e nos aproxima do que deve ser observado em detalhes: uma lágrima que ficou colada a uma face, um pêndulo de relógio que espelha a família reunida para a refeição, um par de casas gêmeas). Este é o tempo também de quem está longe do freje das grandes cidades, da dita civilização. Pois Johan, o personagem principal, pertence aos menonitas, protestantes que vieram para a América no século XVI, provenientes da Europa e se estabeleceram no México. Adeptos da vida simples e afeita ao que é natural, da religiosidade, da não comunição com outras comunidades, os menonitas do círculo de Johan não são radicais e já se permitem ter automóveis e uma fazenda mecanizada. E é num ambiente bucólico que a estória se passa e é deste ambiente que extraímos o que nos dá uma nostalgia de algo vivido, ainda que distante ou, até nem vivido: um rio límpido onde se pode nadar e tomar banho, grandes e verdes pastagens, campos floridos, o nascer do sol em todo o seu esplendor, as noites escuras e estreladas embaladas pelos uivos dos cães, o pio da coruja. E é nesta atmosfera que o adultério acontece, que algo se parte e vem tirar a paz e a tranqüilidade de uma família.

                  A paz é mais forte que o amor, diz uma personagem, a certa altura. Tocados pela culpa, os amantes querem se separar, mas não conseguem. No entanto, não há melodrama, aqui. Não há passionalidade. Esqueça os italianos, esqueça Almodóvar. Os encontros são calmos, pensados e a câmera insiste na imagem de um beijo apaixonado, porém de um erotismo sutil, quase seco -- um beijo longo e quase, se isto fosse possível, casto. É a força de tais imagens, quando nos são apresentados gestos mínimos, todos com grande força de intenção, que leva o espectador a analisar, mesmo contra sua vontade, o enquadramento dos elementos focados. É deste modo que o filme nos envolve: temos uma estória de amor, de traição, mas somos obrigados a nos embuir de um espírito distanciado, racional -- o que nos faz atentos. São personagens dignos, que procuram levar uma vida correta, firme e se espantam, sem desmesura, diante do novo, do inesperado -- e nós somos levados a compartilhar deste ritmo e daquele que o filme nos impõe.

                 Luz silenciosa é um filme magnífico, não há outro adjetivo para ele. E ganhou vários prêmios, entre eles o do júri no festival de Cannes em 2007 -- o que significa que ainda não estamos de todo entorpecidos pelos filmes de ação, aventura e blockbusters. Talvez a televisão e a internet ainda não tenham nos deixado burros demais, parafraseando uma canção dos Titãs... É um filme para encantar platéia de exigentes, embora a sua singularidade possivelmente comova todo e qualquer um que aprecie o bom cinema. Eu, saí nas nuvens e fiquei em estado de graça como há muito não me acontecia. As buzinas dos carros na Augusta soavam perto, mas longe de mim. Ainda bem que fez uma noite de Junho quente e estrelada. Perfeita para depois de um filme como este, raro presente.



Escrito por isa às 20h37
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