hisafarr


                                                      Por uma vida mais alternativa  

     

             Para terem uma idéia de como acordei hoje: é uma pena que eu tenha que escrever o que me vem à cabeça numa tela de computador e não nas areias virgens de uma praia deserta.

              Acordei com saudade do antes dos anos cínicos (e, por vezes, interessantes) que foram os oitenta. Embora o começo desta década, para mim que vivi o auge dos anos setenta, tenha sido o ápice, uma espécie de prolongamento daquela atmosfera 60/70, pois eu tinha uma turma enorme e nós nos dávamos bem e acampávamos e cozinhávamos na praia, lavávamos a louça no mar, tomávamos todos, com as crianças, banho de cachoeira pelados e sem malícia, usávamos roupas quaisquer, não usávamos salto ou maquilagem -- éramos muito à vontade como mandava a nova noção do que deveria ser aquele que estava optando pelo "alternativo": livre; sim, se possível o mais livre possível de tudo o que de perverso e castrador havia na sociedade. Alguns amigos não usavam cheque; eu até hoje não deixo o banco me cooptar e me levar a um grau máximo de sofisticação -- embuída dessa idéia de dizer não ao status via consumo abusivo. E para não dar o gostinho de vitória a essa sociedade orgasticamente consumista em que vivemos.

              Tudo bem, tudo mudou, porque a vida está em eterno movimento -- mas certamente, em muitas coisas,  para pior. Para começar, eu não tinha essa barriga -- ; eu comia menos, muito saudavelmente e caminhava mais -- fora que o Tai-Chi era sagrado... (Aliás, lembro agora, ter carro, para mim -- que não mais dirigia -- significava dizer um grande sim ao fetiche moderno da burguesia e ao sedentarismo). Se não podia nadar na praia, nadava no CAOC, que é um clube que fica atrás da Medicina na dr. Arnaldo, para alunos ou ex-alunos da USP. Eu larguei o curso de Letras quando minha mãe faleceu e tirei o diploma de jornalismo -- então estava na categoria de ex-estudante da USP. Depois voltei ao curso de Letras, já no tardio e cínicos anos oitenta, quase meados, quando fui colega de Arnaldo Antunes. Mas ele usava preto e tinha uma posição anárquica e evasiva nas eleições abertas; eu ainda usava minhas batas de algodão, sapatinho preto chinês e votava pela Libelu -- ter consciência política continuava sendo fundamental. Ah, a Libelu -- cá pra nós, era um pessoal de esquerda muito interessante, com exceção de algumas maçãs podres que conheci depois, indo dividir uma república.

              Sim, há socialistas de fachada -- como hoje em dia há petistas ou esquerdistas de fachada (há até direitistas que posam de esquerdistas, é só ver o horrível Manhattan Connection, no canal GNT). No dia-a-dia revelam-se egoístas, cruéis, exclusivistas, fascistas -- e infelizmente eu vivi isto e levei um tombo feio. Foi por volta de meados dos anos oitenta, para mim o início de uma forçada maturidade, uma passagem pela depressão e o começo de um estado fóbico (que me persegue até hoje) e, ainda, os olhos mais abertos para os anos cínicos.

              Depois da experiência frustrada de conviver com quem fingia ser alternativo, fui ter meu apê e reneguei tudo o que havia vivido. Mas, pelo meu temperamento, no fundo de mim aquela Isa otimista e que gosta de dividir o que tem e o que sabe, o que apreende da vida, permanecia em mim. Então, foi difícil, mas ao menos eu optei por estudar um cineasta que tem um cinema singelo, como Yasujiro Ozu. Mas havia Wenders, os jogos eletrônicos, Madonna (um ou dois enes?), os posudos ligados em modas efêmeras, nas grifes e tudo o mais. Disso tudo se salvava Wenders (e Coppola, claro e outros...), mas que também estava com um pé em algo com o qual eu não conseguia me identificar totalmente. Era uma melancolia que vinha substituir a nossa proposta de alegria (daquela turma pelada na praia, vendo estrelas no céu negro na noite sobre a areia deserta de alguma praia perdida no litoral brasileiro -- que, eu presumo, não existe mais), mas ainda assim tinha um quê de alternativo e resistência. Sid & Nancy. Eu não queria saber de Madonna (com dois enes?) ou Sid & Nancy; não queria saber dos punks e da violência. Eu ainda procurava aquela coisa romântica, idílica, mas nunca mais encontrei. Ou melhor, raramente voltei a encontrar. Fui estudar vídeo, cinema (fui largando a macrobiótica -- que, para mim, tem algo de estalinista -- e aderindo um pouco ao vegetarianismo) e comecei a 'namorar' com a Semiótica. Ainda fiz umas viagens para Mauá, para São Tomé das Letras, mas não era mais a mesma coisa (apesar de ter sido bom). Havia um poeta na minha antiga turma e aquilo era muito bom, porque dava para delirar, para ter uma troca de uma maneira interessante. Não havia os hippies porra-loucas, mas às vezes nós nos consentíamos ter atitudes porras-loucas, criativas, o que era bom.

              Em Mauá (RJ) havia todo um clima interessante, a começar das pousadas, daquele verde, do rio, as pedras, as pessoas em torno com ares de vida alternativa. Mas não me lembro de ter sido interessante porque eu me lembro de uma conversa em que defendia as idéias de esquerda e, não sei porquê, do Bivar (do Bivar!) e uma garota, publicitária, amiga de uma amiga (que fumava o tempo todo, mas não do bom, mas sim os horríveis cigarros aos quais tenho alergia até hoje), não conseguia engolir minhas idéias. Claro, ela tinha um pé forte na burguesia e bebia daqueles valores como o mais precioso dos néctares -- hoje deve ser pró PSDB. Nunca foi minha amiga, embora eu a encontrasse em festas, vez ou outra. Mas ela conseguiu estragar o pouco do que eu queria curtir quando fui para lá, para tentar reviver um pouco daquele clima alternativo com minha velha turma. Mas algo me dizia que não seria mais a mesma coisa.

              E hoje acordei com saudade dessa turma, de uma vida mais natural, sem muito livro, computador, museus e cinema -- vida urbana --, pelo o quê mais me interesso atualmente. Mas queria voltar um pouco no tempo e caminhar sobre areias virgens de uma praia, enfrentar o mar bravio, tomar sol de biquíni, peça que muito provavelmente não vou usar mais; comer um peixe frito na areia, como meus amigos e eu comíamos no nordeste -- Praia do Francês? Ah o forró da praia do Francês, o verdadeiro forró e não essa coisa brega televisiva... Foram tantos os lugares, nós com nossas mochilas às costas, dividindo um pê efe aqui e ali: Bahia, Pernambuco, Ceará... Novos acentos, nova cultura, novos ares. Bons tempos.

              Sei que nunca mais vou viver essa coisa lúdica, que ficou para trás. Mas acho que é a segunda ou terceira vez que falo disto neste blog. Porque algo em mim não se conforma de ter perdido esse tempo no tempo.

                          



Escrito por isa às 09h21
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