Quem sou eu
: filha de paulistanos, nasci em Curitiba, passei minha infância e adolescência em Campinas, sou formada em Jornalismo pela FAAP e cursei Letras na Universidade de São Paulo. Sou escritora e jornalista e colaboro atualmente para o Le Monde Diplomatique na área de literatura. Na década de oitenta ganhei o prêmio literário do Paraná na categoria contos; trabalhei na UNICAMP com vídeo, colaborei para o extinto Folhetim da Folha de São Paulo, estudei cinema e tenho o mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.
E o Oscar vai para... Juno, a comédia? 
Juno é um dos filmes mais superficiais e irresponsáveis dos últimos tempos. Antes de escrever aqui, ainda ouvi, hoje, as explicações do diretor em um canal da tevê a cabo e ele diz: eu não quis ser político; eu não quis julgar os atos da personagem Juno. Bem, eu não creio que é preciso ser uma pessoa com pendores políticos ou afeita a julgamentos para fazer um filme que seja interessante, que provoque o espectador, que deixe margem a que ele julgue os comportamentos dos personagens em questão. Mas, neste filme, nem essa margem o diretor nos dá, já que, em resumo, o filme nos diz: "tudo bem se você engravidar aos dezesseis anos; todos a apoiarão, você não passará por dificuldades, seus hormônios não vão entrar em ebulição, você não terá depressão, você levará tudo com humor e leveza e ainda poderá se desfazer do produto de um ato impensado ("the thing", é como ela se refere ao bebê) com muita tranqüilidade, com o aval da sociedade, dos pais, etc. Sem problemas. O que você está esperando? Você pode, sim, ser feliz nos nove meses de gravidez e depois que o bebê nascer e você se desfizer dele, também! Sem culpas, depressão, nada! Tudo vai ser conforme o seu quarto em cores cor-de-rosa".
É isto, em poucas palavras, o que nos diz o filme. E ele não deixa margem para que você duvide disto. Piadas, ditos inteligentes pela garota precocemente inteligente (a meu ver, uma "pentelhinha" desbocada que fala sem pensar e age sem pensar, extremamente impulsiva, até para um adolescente normal), atos justificados, segundo o filme, por pertencer a uma família que não deu certo e ter entrado em outra também problemática. Isto já justificaria o fato de ela ser inconseqüente, invasiva, sem noção de limites, sem noção da realidade, aparentemente sem sentimentos em relação à geração de um ser -- parece-nos dizer, o tempo todo, o filme.
O final romântico, com happy ending é o pior, a meu ver. Um final enganador. Mas é claro que gostamos de ver que ela superou a fase final da gravidez -- quando finalmente se depara com um problema e que nem é dela, mas do casal que adotará o filho em questão -- e que tudo, afinal, deu certo e lá vai Juno numa imagem romântica, livre e solta, livre agora de seu filho e das responsabilidades, passear de bicicleta com um violão sobre as costas -- ao encontro do agora namorado, o amigo que a engravidou, "meio sem saber".
Uma garota que vê a idéia de um filho como a de uma bola de futebol que foi parar na sua barriga... como é isto? Não, não é o seu comportamento que deve ser julgado, longe de mim filmes com julgamentos parciais e moralismos, mas ao menos a roteirista, e o diretor poderiam ter abordado de maneira mais realista e mais sensivelmente o que seria para uma garota ver-se grávida, da noite para o dia, de maneira inconseqüente. Mas não. O filme apenas faz corroborar tal inconseqüência -- de maneira achatada (como é típico de filmes norte-americanos), sem nuances, sem dar-nos opção de, como ela, nos comover com a idéia da tragédia. Tragédia? Que tragédia? Pois o filme é uma comédia. Errei o gênero do filme, ah, sim, Juno está classificado como comédia! Afinal, ter filhos não é como ter bolas de futebol que surgem do nada e por um nada, só uma transa, e se cravam em barrigas de garotas, em qualquer tempo? Risível, não? Época de superficialidades, irresponsabilidades, dessacralização da vida e, também, maus roteiristas e maus diretores de cinema... E lá vai o filme se candidatar ao Oscar? Pode? Pode. Não deveria, mas pode. Tempos de perversidade.