O que faltou em O Signo da Cidade, filme de Carlos Alberto Riccelli? Bem, faltou quase tudo. A cópia que vi estava escura e mal se enxergava, também por problemas de direção, o rosto da atriz que faz a suicida, mãe do rapaz protagonizado por Kim Riccelli -- seria a Irene Stefânia? Faltou pulso forte na direção, faltou enquadramento seguro de fotografia (chegando em casa, fui rever o excelente O Segredo de Vera Drake, de Mike Leigh, sobre o qual falei aqui quando do lançamento em São Paulo -- que diferença!); faltou noção de dramaticidade aplicada ao roteiro e, portanto, isto influiu na direção dos atores. No entanto o tema é bom, as temáticas que se entrelaçam também são boas -- com exceção, a meu ver, do forte pieguismo na cena da morte do enfermeiro e as circunstâncias em que ela se dá (a tal da coincidência)
Há algumas incongruências no roteiro (com as estórias muito bem entrelaçadas e bem equalizadas, em termos de ritmo, balanço do tempo) que beiram à ingenuidade: que mulher faria sexo após um aborto?Impossível. Mas está lá. Quanto à garota, interessante como foge dos padrões da beleza feminina convencional, assim como também a atendente do hospital que se despe para o velho que está à beira da morte. Este, um momento lírico que deixa transparecer a intenção original de filme sensível -- proposta que, infelizmente, não é levada a cabo pensando na fita como um todo.
Confesso que saí melancólica e deprimida, mas não porque o filme me tocou em alguns momentos (bonita a cena, aliás, em que a astróloga está num banco de jardim, conversando com o rapaz casado com quem tem um envolvimento). Saí deprimida porque os filmes dramáticos mal realizados, mesmo com picos de otimismo, quando não conseguem se elevar à categoria de uma obra interessante, de arte, geram insatisfação. Não é nada daquele desconforto interior que um filme realizado por grandes diretores provoca. Quando não há um espírito Beethoveniano ou Mozartiano, e pretendendo-se, ainda, ser eloqüente, sem cumpri-lo, fica uma sensação de vazio opressora.
Escrevo este texto na madrugada -- dormi mal, com muitas idéias na cabeça -- como sempre acontece quando vejo um filme e quero discutir sobre ele. Então fica aqui o registro do que poderia ter sido e não foi. Uma pena. Destaque para as partes cômicas dos garotos cantores no hospital e a mulher enganada pelo falsário. Destaque ainda para o papel da sempre boa atriz Denise Fraga, cujo personagem se consulta com a astróloga, dizendo que trai o marido. E, claro, para Juca de Oliveira, sempre dando o melhor de si. Destaque, ainda, para as panorâmicas sobre São Paulo, seu lado inóspito, desumano. No mais, saí também com a sensação de tempo perdido... Enfim, é um filme bem intencionado, mas mal realizado. Perde o cinema brasileiro, perdemos nós, também, espectadores, que estamos sempre apostando na valorização do mesmo.