Trabalhar um texto ou um filme, ou uma pintura -- enfim, o que quer que se pretenda uma obra de arte -- de uma maneira moderna, porém com profundidade, é algo raro e merece ser reverenciado. Aspectos como economia sígnica e sutileza são ainda mais raros.
Causa-me estranhamento que uma certa literatura grosseira esteja atualmente enfronhada no mercado. Autores colam-se aos personagens sobre os quais se debruçam: se eu falo de um açougueiro, meu tecer literário se parece com um açougueiro em sua brutalidade de lançar machados sobre as carnes, também.
A idéia que um autor como Marcelo Mirisola possa estar em evidência, causa-me arrepios. É como ver um Latino que rebola na tevê em poses que lembram um ato sexual mecânico e grosseiro. Com isto quero dizer que a literatura que se pretende popular, cai para o popularesco, o que é muito triste de se ver.
Como assinante da Folha de São Paulo há tantos anos e tendo sido colaboradora deste jornal, acho que merecia algo melhor neste dia de Natal. Mas não, brindam-me com a deselegância de um Marcelo Mirisola. E eu clamo pela elegância de uma Lygia Fagundes, uma Clarice Lispector -- mas é preciso dar espaço aos novos -- e que novos! Verdes e equivocados demais.
Não, Mirisola não é um Dalton Trevisan. Talvez com algum esforço ele chegue lá, já que o fato de estar na mídia talvez o faça uma pessoa melhor e com isto um autor mais entusiasmado e dedicado. Um pouco de fama pode ser gratificante e encorajador. Aliás, a propósito: nada contra a referência ao pop, acho a cultura pop muitíssimo bem-vinda, mas um ícone como Marilyn Monroe terá sempre maior consistência que um Mickey, por tudo o que está por trás do que eles verdadeiramente representam.
Levo sustos com a nova geração, mas é claro que há excelentes artistas no Brasil fazendo bons trabalhos. Mas, na área de literatura é desanimador. Parece-me que na ânsia de enveredar por caminhos mais fáceis, perdeu-se de vista toda uma tradição do próprio fazer literário. Outros, num outro lugar, pecam pelos excessos. Na Praia é uma excelente novela de Ian McEwan, como aparece em meu artigo no jornal para o qual colaboro e foi mesmo muito prazeroso ler um texto tão bem escrito e com uma economia narrativa tão precisa. Mas o seu Reparação ... está difícil de sair das primeiras páginas, embora seja aclamado pela crítica e, ao que consta, já virou filme.
Sou uma leitora ávida, desde tenra idade, mas é preciso que as obras sigam uma determinada vertente pra que eu as aprecie, como leitora e também criticamente -- ou seja, sou criteriosa. Não separo uma coisa da outra. Sei reconhecer, creio, uma obra simples mas honesta, como Os Fios da Fortuna, sobre o qual falei também em um artigo. Ao menos não se equivoca ao transpôr para o papel o registro de um cotidiano de personagens que impressionam pelas suas verdades.
Já os escritores apressadinhos e excessivamente ligados à cultura pop e que me parecem não entrar em contato com o que escrevem de uma maneira um pouco mais sagrada, no sentido de um certo tato para com a palavra e o tecido do texto... estes, porquê estão em evidência? Que interesses há por trás de quem os elege, abre-lhes caminho e deixam que sobressaiam em sua maneira pouca, parca, fácil... no chamado fazer literário?
Essa literatura para se ler no ônibus, como diria um amigo meu, até onde se apresentará como vencedora do preenchimento de um espaço que ainda está por merecer ser melhor ocupado? Contrapondo-se ao sentido de uma letra de Caetano Veloso, é como se alguns escritores de agora dissessem assim: se o mundo é um lixo, eu sou também.
Quando eu revejo um filme como Asas do Desejo, de Wim Wenders, sinto-me profundamente gratificada. E difícil ser moderno e culto, ser culto e ser econômico, filosofar e dar vazão ao banal, ser banal mas sutil -- tudo com elegância e apropriadamente. Mas são raros os cineastas como Wenders, assim como são raros os escritores como Clarice Lispector -- que soube muito bem como colocar um personagem como Macabéa em evidência, ao falar de um personagem desafortunado, pobre... sem ser pobre. Sem equivocar-se.
É preciso saber erguer a colher da taça. Nada de maneirismos, apenas com sutileza e senso de equilíbrio. Um pouco de educação e menos atitudes de açougueiro que aciona o seu machado sobre a carne crua, caem bem também. Aliás, nestes tempos do politicamente correto eu diria que precisamos de mais artesãos do que propriamente açougueiros, se é que me entendem... Muitos leitores agradeceriam. Em nome da boa literatura. Claro.
Escrito por isa às 17h05
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