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                                                                                   Tempo e memória

 

                    Há algumas semanas atrás, quando estava confinada em casa por causa de uma forte gripe, resolvi, de computador novo, copiar textos e fotos de um fórum oficial de uma banda a qual sou muito ligada. Animei-me: todo aquele material e fotos enormes que meu antigo computador recusava abrir num tempo razoável, eu os teria, em downloads, de uma maneira muito mais rápida. 
                    Má surpresa: eis que me deparo com novos tópicos, novas discussões e um site totalmente reformulado. Não é uma ironia? Num tempo em que podemos armazenar dados com facilidade, que podemos ter um feito, um acontecimento em arte ou entretenimento revisto (sem falar na propaganda), não temos mais acesso a ele por uma simples e poderosa questão: estamos na era do descartável. (E é por isto que eu acho muito boa a idéia de reciclagem, exaustivamente anunciada e pouco explorada. Onde mora minha diarista, eles ainda não implantaram o sistema caseiro de reciclagem e não mantêm postos de recolhimento de material).

                 Eu me lembro claramente quando surgiu o tape e o quanto isto foi comemorado -- nada mais seria preciso ser feito ao vivo na tevê. Eu me lembro de estar no estúdio do antigo canal 9, onde hoje fica o Cultura Artística. Eu me lembro dos cenários, aqueles esqueletos maravilhosamente realistas, um ao lado do outro, numa seqüência que a mim me pareceu  interminável, e dos enormes elevadores que levava os materiais de cena para cima e para baixo, percorrendo os andares. Não sei se por minha pouca idade, mas me pareceram elevadores como os que eu havia visto num navio de guerra em Santos, que meu avô, ex marinheiro, nos levara um dia para conhecer. 


                 Aqui em Sâo Paulo, no canal 9, gravávamos uma peça infantil para um programa que tinha teatro "ao vivo". Mas na sala de montagem, quando vimos o recurso do tape numa pequena plataforma que parecia um bebedouro estreito, com uma telinha encaixada em cima, entendemos que a peça seria editada antes de levada ao ar. Ainda assim, poucos cortes eram feitos e ela foi passada quase na íntegra, por assim dizer. Os recursos de corte e montagens eram precários, ainda...

                 Hoje em dia você faz um filme, coloca na internet, no youtube e todo mundo vê as imagens que antes eram privilégios de empresas, enquanto material público, assim como o foram um dia os computadores (quando revejo Jeannie é um Gênio, o seriado predileto da minha infância, tenho vontade de rir dos enormes computadores e toda a idéia romântica que se tinha a respeito deles, enquanto autonomia total, sem a manipulação do homem).

                 Pois é, hoje em dia tudo é rápido -- aqui perto de casa havia uns cinco enormes prédios sendo construídos ao mesmo tempo; outro dia percorri parte dos locais a pé e três deles já estavam milagrosamente prontos. Adeus casinhas de jardinzinhos, charmosas, com seus gatos tomando sol nos muros...

                 Se você quiser um sofá igual ao que você vê em A Feiticeira ou Jeannie é um Gênio, apenas para citar dois seriados que, quando os vejo, me dão nostalgia daqueles tempos, você até encontrará nas lojas os mesmos sofás, com designs parecidos -- com esta volta (revival) a tudo que era dos anos 50/60. Mas o material --quanta diferença! Nada agora é feito para durar. Mesmo as roupas, os tecidos tinham boa qualidade e estes eram razoavelmente populares, porque raramente se comprava roupa pronta; sempre havia costureiras no seu bairro, disputando a freguesia e fazendo o seu melhor. Ou sua mãe, ela mesma, fazia as roupas da família toda -- com exceção das mais formais, para festas.

                 De qualquer modo, é mesmo uma ironia: hoje em dia temos acesso a tudo, mas nossos apartamentos apertados de classe média padrão não têm mais o espaço de antigamente para colocarmos os sofás de antigamente ou, na garagem, uma banheira, um daqueles enormes carros sólidos e de design interessante (os de agora, nenhum me chama a atenção, acho todos parecidos e boring... além de parecerem desmanchar a um simples toque. Eu simplesmente sou uma pessoa desencantada com os carros atuais... Quem viveu a era do Sinca Chambord, do Galaxy, não engole essas tralhas de agora, creio).

                 Sim, é mesmo uma ironia, temos tudo e se não formos rápidos, não teremos nada, porque não se tem interesse em preservar mais nada. Aquele material da banda ao qual eu queria ter acesso, creio que jamais o verei, novamente. Claro que quando você troca informação individualmente com as pessoas, você consegue garimpar uma coisa aqui e ali. Mas não é a mesma coisa. Em termos de comunidade, a memória não é preservada. O novo tem que rapidamente dar lugar ao velho. Mesmo na internet como um todo, lugar que sabemos poder armazenar infinito material, parece não haver interesse.

                Nas minhas comunidades no orkut, vez ou outra pedem-me que troque a foto que as ilustram. Eu gosto de manter uma foto só, porque acho que isto dá uma cara à comunidade que a torna especial, única, com personalidade. Mas não, as pessoas querem o novo. O mesmo, o registro do que permanece as aborrecem com muita facilidade. Seria como ter que mudar os móveis todos os anos de uma casa e pintá-la também todos os anos. Talvez eu seja muito conservadora, neste sentido. Por mim, se eu puder, mantenho todos os móveis, desde que sólidos e interessantes, por muito tempo num mesmo lugar e numa única casa... Particularmente, eu acho que nosso cérebro necessita disto, deste foco. Mas aí eu já teria que começar um novo texto, falando dos tempos atuais, da importância da memória, de neurônios e sinapses, da necessidade de preservação e do mal de Alzheimer e de como perdemos o foco e a noção do que é sólido, do que deveria ser duradouro e prioritário.

                O certo é que nossos carros estão cada vez mais velozes e nossas vidas com um caráter cada vez mais etéreo, como se nada ficasse ou tivesse grande sentido, enquanto efetiva representação. Efetiva, afetiva -- para fazer um bobo jogo de palavras. Em tempo: acho que a memória só tem sentido enquanto renovação de sentido e não objeto de lamuriação do tipo, ai como no meu tempo tudo era melhor... Nada disto. Isto a gente deixa para os eternos reclamantes que, vivendo em qualquer tempo, em outros a vida sempre foi melhor, porque a galinha do vizinho, vocês sabem, sempre é a mais gorda para os pessimistas .



Escrito por isa às 10h37
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