hisafarr


                                         

                     Era uma pacata rua de cidade do interior, mas eu me lembro de meu pai reclamando do motor do carro do vizinho, logo cedo, ou mesmo do barulho da posteriormente adquirida lambreta. Não muito longe, de um lugar mais elevado, eu podia ouvir nos fins de semana as festas que um grupo pequeno de famílias, muito pobres, faziam. Nós também dávamos algumas festas, mas eram raras. Nossos fins de semana eram gastando energia no clube, visitando um e outro e, depois, com a tevê em casa, assistindo a programas noturnos. O barulho não fazia parte das nossas vidas, embora morássemos em uma avenida -- que depois seria asfaltada e que hoje é bem movimentada, com comércio e tudo o mais, segundo contam os amigos daquela época. Eu ainda não tive coragem de voltar a Campinas e ver o que restou da minha casa. De qualquer modo, o barulho sempre me acompanhou e sempre foi um tormento de espírito.


                 Eu dividia o quarto com minha irmã e, quando ela chegava à noite da rua, sintonizava baixinho uma estação de música clássica, que não sei se era a Eldorado. Acho que sim. De qualquer modo, depois que ela deitava e dormia, eu ficava no escuro pensando na minha próxima estória para o livro que eu dividia com uma amiga. Nele, escrevíamos estórias de uma turma, que eram Os Onze Voadores. Isto, na pré-adolescência. Porque na infância eu me lembro de pesadelos terríveis e acordar suando e me lembro muito bem da minha mãe trocando o meu pijama molhado por um limpinho. 
                Demorei a deixar o quarto de meus pais e dormir com minha irmã. Lembro-me de visitas vindo em casa e dizendo, mas ela é muito grande para dormir no mesmo quarto com vocês! Eu tinha um enorme berço e me lembro que meus pais colocavam um cabide de pé para que a porta ficasse entreaberta. Mas isto eu vim a saber depois, porque antes de saber que era um cabide, eu costumava ficar espreitando aquela coisa com chifres que ficava naquela nesga de luz que vinha da porta. Aquilo me paralisava. Eu não chamava por nenhum dos meus pais. Eu ficava paralisada na cama vendo aquele monstro que me espreitava, o tempo todo. Quando eu finalmente pegava no sono, logo acordava, com pesadelos. 
                Já o barulho do trem logo mais à frente da minha casa jamais me incomodou. Até hoje adoro trens e filmes com trens; meu grande amigo e amor de infância possuía um trenzinho elétrico montado em uma grande mesa no canto da sala; era a maquininha e seus vagões em carreira passando em meio a uma cidade, com pessoas, vendinhas e tudo o mais. Eu adorava aquele trenzinho. Gostei também de ver trens, à época do meu curso de pós, nos filmes de Ozu.


              Quando no início dos anos setenta -- eu já adolescente -- minha família mudou para uma outra rua, mas no mesmo bairro, eu me lembro de poucas ocorrências que me fizessem acordar no meio da noite: minha gata Cléo vinha no parapeito da minha janela miar e eu a colocava para dentro. Uma vez tentaram roubar o Chevrolet do meu pai -- uma banheirona verde-musgo, que ficava estacionada em frente à casa. Tentativas de roubo, assim, eram pouco comuns. Mas eu me lembro que abri a janela do quarto e ouvi os passos do gatuno se afastando. Era assim; muito pouca gente andava armada, mesmo para roubar.


              Por quê hoje me veio tudo isto à mente? Porque a avó do garotinho que mora em frente ao meu apartamento está aí, de visita. E ela fala pelos cotovelos e eu encostei o meu rádio, no qual ouço de manhã a Kiss FM, bem na porta de entrada, para que pudesse ouvir música e não o seu incessante tagarelar. Não sei de onde ela tira tanto assunto para falar com a empregada, a filha, o neto e o cunhado. Só ela fala. É absurdamente irritante. Mas os vizinhos do lado dela, que são três adolescentes também barulhentos, com uma mãe absurdamente histérica, não fazem caso. Claro que não. Ali, precisaria de um concurso para saber quem seria o vencedor. 


              Estou tentando lembrar quando foi a vez que não sofri com vizinhos (como o que mora acima de mim e adora um argh pagode) e afins. Acho que somente quando morava com  meu irmão no Paraíso, quando era aluna do Equipe. Eu ia prestar vestibular e estudava oito horas por dia. Eu não podia falhar. Já havia perdido dois vestibulares, um por conta da minha paixão pelo teatro e outra por conta de notícia de doente na família. Era minha terceira tentativa e eu sabia que teria que ser daquela vez. De qualquer modo, não me lembro de ser incomodada por vizinhos, àquela época. Muito pelo contrário; adorava no final da tarde colocar meus poucos LPs na vitrola; os que eu tinha em São Paulo, porque a minha coleção de Beatles havia ficado no interior. E não era ainda época de revivals. Só fui ouvir Beatles com afinco novamente lá por meados dos anos 80, para apresentá-lo devidamente a um amigo, que gostava de música.


              Na intenção de me mudar o ano que vem, fico pensando como fugir de vizinhos e ruas barulhentas. Mas não consigo vislumbrar muitas alternativas, nessa Sampa caótica. Se ao menos eu fosse alguém que não gostasse de literatura e filmes de arte, de música clássica! De escrever. Mas não, muitas das minhas atividades requerem silêncio e está impossível.
              Meu ex-professor Décio Pignatari foi morar na minha cidade natal, Curitiba. Já pensei nisso, em meados dos anos noventa. Mas deixar essa cidade aqui é muito difícil. Ou melhor, deixar a vida cultural desta cidade aqui é realmente muito, muito difícil.
              Sem saídas.



Escrito por isa às 10h00
[   ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Cinema e vídeo, literatura
Histórico
Outros sites
  Blog da Penélope
  minhas sínteses
  telakino
  aureaterranova
  doidivana
  blog da Helena
Votação
  Dê uma nota para meu blog