hisafarr


            Este post abaixo era para ter sido postado há dois atrás, mas como a conexão estava lenta, vai aqui, hoje e justamente hoje eu teria algo a dizer sobre as (inesperadas e sentidas) mortes de BERGMAN e ANTONIONI, mas fica para depois...

 

                       Ouço o sino da igreja de meu bairro, que toca, chamando os fiéis. Nessa manhã de domingo de muito frio e algum silêncio, o som soa harmonioso e até romântico, nostálgico. É bom algo assim, depois da euforia da noite anterior quando os vizinhos comemoraram (e eu, sem barulho) o ouro dos meninos do vôlei, em vitória sobre os EUA nos jogos do Pan. Agora o sol vem, tímido e escrevo pensando nessa coisa de pessoas ouvindo o sino da igreja e se apressando em frente ao espelho para mais uma missa, mais um ritual litúrgico em alguma igreja, em algum lugar, vendo pessoas conhecidas e até amigas, num encontro que pode ou deveria ser fraternal. Nada mal. Digo, as igrejas poderiam ser um bom ponto de encontro aos domingos, ao invés de irmos na padaria da esquina tomar uma média com pão com manteiga e um café para arrebatar, como eu fazia quando morava na Vila Madalena. E via meus amigos, conhecidos e às vezes fazia uma amizade repentina conversando com alguém interessante ao meu lado. Ali, em pé, no balcão.

                      Mas eu dizia que as igrejas poderiam ser um bom ponto de encontro aos domingos, não fosse o falatório vazio ou ranzinza de alguns padres. Ao menos, é assim que os vejo.

                     Em Paris, fiquei num hotelzinho barato (e famoso, mas decadente -- por isso, barato; sem elevador, sem conforto, apenas uma história com artistas que lá se hospedaram, devido ao seu ponto estratégico, no passado) no Quartier Latin, o bairro dos estudantes. A uma quadra da Catedral de Notre Dame e na mesma rua da igreja Saint-Julien-Le Pauvre. Esta igreja, a uns cinco metros do meu hotel, possuía uma placa, na entrada, nos fins de semana, que me intrigava -- eu sempre caminhava na calçada oposta. Num sábado, ou domingo, ao cair da tarde, vi umas pessoas diferentes entrando meio que em grupos na tal igrejinha, que eu já conhecera por dentro e achara admiravelmente aconchegante, daquelas boas para se fugir do estresse das grandes cidades (eu adoro me refugiar numa igreja quando estou viajando -- quando viajava, melhor dizendo, porque tem sido difícil...). Finalmente resolvi atravessar a rua e ler a tal placa. Era o anúncio de um concerto de música clássica -- creio que era um quarteto, algo assim, com a igreja toda iluminada por velas -- era o que dizia a placa. Fiquei tomada por uma excitação inacreditável, tive comichões pelo corpo, arrepios de prazer e me pareceu algo muito melhor do que saborear o melhor dos chocolates suíços. O final dessa estória é decepcionante, por que na semana seguinte (fiquei dezessete em Paris) eu simplesmente esqueci de tal evento, o que me levou a uma leve tristeza no dia posterior.

                     O fato é que por toda Paris você ouve, numa determinada hora, o som dos sinos das igrejas chamando os fiéis, seja para uma missa, seja para ouvir música. Não seria maravilhoso ser um fiel particpante de um lugar onde houvesse música e ao invés de padres chatos rezando a missa, padres que tivessem estudado psicologia, filosofia, com apreço pela música e pela literatura, pelas artes, enfim, e que pudessem dar uma espécie de palestra e em seguida dialogar conosco? Nem que a base disto tudo fosse religião, que em si não é algo terrível, mas que foi deturpada ao longo dos tempos? Seria uma espécie de Café Filosófico. Ao que parece, em algumas igrejas de Paris, assim é. Por que essa "moda" não pode pegar aqui? Eu seria, sim, uma fiel -- porque além do mais, gosto dos ícones católicos, apesar de não entender nada de bíblia ou religião. Mas a coisa me atrai. Sim, eu seria, definitivamente, se houvesse esse encontro entre arte, filosofia e religião, uma fiel freqüentadora de igreja nos fins de semana.



Escrito por isa às 12h00
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