hisafarr


                           

                        Com raríssimas exceções, histórias em quadrinho em geral me parecem uma roubada. Digo, uma roubada da maturidade. Mas vamos por partes. Quando eu era criança, eu lia alguma coisa de agaquês, que a gente chamava de revistinha. Mãe, se for na feira, compra uma revistinha pra mim? E ela trazia Bolinha, Luluzinha, Gasparzinho, Pato Donald. Ou, ou, ou; nada dessa mania de agora de encher os filhos de mimos, compulsivamente. Era uma revistinha por semana, que eu saboreava aos poucos e depois relia e relia e relia, pegando os detalhes dos desenhos. Pois bem, eu era criança, fazia sentido ler Monteiro Lobato e revistinhas. Já em criança tomei contato com o cinema, primeiro de uma forma leve, depois vendo os clássicos e revolucionários. Era adolescente quando vi 2001, Uma Odísséia no Espaço. Portanto, quando fui ver Fernão Capelo gaivota (com aquele apelo de auto-ajuda tão em voga hoje em dia) e o medíocre filme de sustinhos, Tubarão, eles não me disseram nada. Deste último, saí com raiva do cinema. Eu sabia que estavam me enganando. No entanto, os blockbusters entraram de sola no cinema mundial e não querem mais largar o nosso pé, subestimando nossa inteligência. (A mediocridade impera).

                  O mesmo acontece com os agaquês. O que pertencia à nossa infância, agora pertence ao mundo dos adultos, que teimam em não crescer, por que crescer é perigoso. A indústria do medo se solidificou. Pais preferem ver seus filhos nos tais argh videogames e lendo agaquês, na segurança de seus quartinhos de solteiros, embora muitos já tenham idade para casar e constituir família (não que eu seja contra o mundo dos solteiros, já que fui mais solteira na vida que propriamente casada), ou seja, partir para a conquista do mundo adulto e da maturidade. Maturidade -- ao invés de experiência, senso de julgamento, discernimento, etc. virou sinônimo de envelhecimento. Claro, há que permanecer o humor, pois a falta de humor numa pessoa é sinal de pouca inteligência, a meu ver, ou de envelhecimento precoce. Particularmente, não gosto de gente sem senso de humor. Mas o humor e a leveza não precisam vir só dos agaquês ou da leitura de Harry Potter, podem vir de um filme de Woody Allen, por exemplo, que une dois ingredientes interessantes básicos, inteligência e humor.

                   Hoje há uma matéria na Folha falando dessa questão, a da falta de maturidade dos nossos jovens e, ao mesmo tempo, a extensa matéria de capa da Ilustrada é nada menos que... Ratatouille, um desenho animado. Jovens, assim como adolescentes e crianças, adoram desenhos animados. Anteontem mesmo num restaurante vegetariano na Vila Madalena vi entrar um grupo de garotas comentando Ratatouille: tem que ver, tem que ver! Elas tinham por volta de 20, 25 anos. Claro que esses desenhos animados são bem feitos. Claro que invadiram as tevês, tipo Simpsons (que eu nunca consegui assistir a um episódio inteiro). Mas para mim também é claro que grandes e importantes questões na área da psicologia, por exemplo, estão relegadas a último plano. Eu me pergunto como esses jovens vão educar seus filhos, isto é, já o fazem de maneira contraditória -- a própria falta de limites, é um sinal das suas limitações e imaturidade. Tratam os filhos como coleguinhas de escola, permitindo-se serem tratados de igual para igual, o que é um equívoco. Ninguém é a favor da repressão e do autoritarismo, mas a imaturidade dos pais é algo a considerar, nos dias atuais.

                   Em tempo: devemos todos ver Ratatouille, deve ser um bom filme, mas que tal passar na locadora e pegar aquele bom e velho Bergman que fala de relacionamentos e nos instiga a perceber o homem como um ser psíquico, por exemplo -- o que nos levaria a ler Freud, Lacan e amadurecer um pouco nessa nossa vidinha protegida de eternas crianças que a mídia elegeu para nos ofertar? O caminho mais fácil, nem sempre é o mais interessante, por que não haverá surpresas, mistérios e aventuras. Nem crescimento, diga-se de passagem.



Escrito por isa às 11h45
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