hisafarr


                               

                     Se você me diz que tudo muda, eu digo, sim, é verdade. Vamos começar por uma coisa banal: quando eu era criança eu gostava de um conjunto chamado The Beatles. Atualmente você tem que dizer, eu gosto de uma banda chamada The Beatles (assim como são bandas Keane, The Smiths, Kaiser Chiefs). Até aí tudo certo. A língua não é estática. De tempos em tempos, há uma mudança ortográfica (lembro-me do livro de receitas da minha mãe: assúcar -- assim por diante; aliás, se não me engano, assucar não tinha acento). Quando vínhamos para São Paulo (eu morava no interior), eu adorava me meter no porão escuro e frio da casa dos meus avós paternos e ficar lendo aquele monte de revistas antigas, a maioria dos anos quarenta e cinqüenta. Havia uma empregada de confiança, que sempre ficava comigo enquanto todos saíam. Ficávamos conferindo as palavras. Ela, que a mim parecia muito velha para tal, estava estudando para ser enfermeira e vivia me sabatinando: qual é o maior rio do Brasil? Eu odiava as questões de História e Geografia, mas adorava as de Português.

                    Mais para a frente, já que eu sempre fui boa em Português, sofri com a reforma ortográfica. Eu acentuava cafezinho, etc.; tinha aquela coisa de mudar os acentos, caso o substantivo viesse no diminutivo, e assim por diante. Meu cérebro teve que se reorganizar, assim como aconteceu com todas as moedas, cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, real...

                    Até aí tudo bem, como eu dizia, a língua não é estática. Ela sofre os bombardeios da cultura, como quando dizíamos bacana e isto era interessante nos anos sessenta, setenta mas nos anos oitenta tornou-se obsoleto e há alguns anos voltou à moda dizer bacana. Entre "tirar sarro" e "zoar" eu fico com tirar sarro ou caçoar, muito mais legais. A meu ver. Então resisto. E acho que é assim que se envelhece. Se você gosta de música, até diz banda, mas não vai falar "zoar" com seus amigos, por que você e seus amigos cresceram usando caçoar ou "tirar sarro". E você tolera se alguns deles falam "conjunto".

                    Mas eu queria ir mais longe: tudo muda, mas algumas coisas do seu caráter e da sua formação permanecem. Apesar do novo. E o novo sempre vem, já cantou Elis. Mas algo permanece como sagrado, por que seria abrir mão de uma bagagem preciosa, permeada por uma vivência. No entanto, você começa a envelhecer de verdade quando opõe muita resistência ao novo. Há que separar o que veio para mudar de maneira interessante e o que é modismo (tanto faz falar zoar ou não), o que é superficial. Que convivam, então, velho e novo. Nada de dizer que as vovós trocaram os tricôs pela internet, por que os dois são legais e de natureza diferente. Isso é papo da mídia.

                    Por que comecei esse texto? Por que ontem eu estava numa sala de espera de um médico e notei que a única pessoa da minha idade de jeans e camiseta (discreta), era eu. Em muitas comunidades na internet eu sou a mais velha. Mas meus amigos/as usam jeans e camiseta. E muitos ainda ouvem rock, como o Julio. E viajam de mochila. Como a Rô. Mas a maioria das pessoas de minha idade ainda é muito conservadora, como constato em lugares reservados como aquele, uma sala de espera. E muitos realmente não estão (mais) abertos ao novo.

                    Muda a língua, mudam os padrões de linguagem, muda a moda, mudam os comportamentos. Mas alguma coisa ainda me faz sentir por vezes como um peixe fora d'água, em meio aos da minha idade. Enfim, eu nunca quis pertencer à maioria, nesse sentido, mesmo. Sempre fui gauche. Então tá tudo certo. Vou de jeans e camiseta ao médico e cantarolo mentalmente (ou às vezes baixinho num banheiro de shopping qualquer) aquela música de Keane, o que para a maioria dos da minha idade soa muito, muito bizarro.

                                                            



Escrito por isa às 11h06
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