hisafarr


                                    Capa do meu VHS, "O Estado das Coisas" (fragmento do filme), de Wim Wenders (1981)

                     Uma terrível gripe, muito próxima de uma pneumonia; vitamina C, própolis e cama. Cama? Lá estou eu na locadora, devolvendo vídeos e pegando novos. Enquanto a febre não vem, faço de tudo, ainda que me poupando da fumaça dos cigarros do povo na Paulista -- meu Deus, como aquela gente da Paulista fuma! O mundo gira, as informações (pesadas) chegam e nada desse pesssoal se conscientizar que fumar é o absurdo dos absurdos, polue o ar e os pulmões, tira toda as defesas do organismo e, o pior, dá câncer. Arrisco -- neste ano de comemorações de Seargent Pepper's -- George Harrison estaria ainda entre nós?

                     E lá estou eu com o firme propósito de ir num pé só e voltar no outro (que delícia de expressão, fruto do impossível) e nada de caminhadas e flanações. O menor contato com a poluição é o recomendável. Mas já nas escadarias que dão para a saída do metrô um idiota inconsciente, impaciente, acende o cigarro à minha frente. Suga o bastão cancerígeno com vontade e está satisfeito como o bebê que acaba de sugar um seio materno. Sugar e preencher a falta. Eu sei.

                    Na locadora, entre brados e gestos largos, uma freqüentadora que conheço bem e que apelidei internamente, brincando, de "a inimiga", está a falar mal de Wim Wenders próxima ao balcão. Justo quem, a pupila dos meus olhos, a quem dediquei minha tese de mestrado lá nos anos noventa. Após uma pesquisa minuciosa e muitos filmes e leitura de seus depoimentos sobre grandes cineastas e fotógrafos, eu sabia que à época ele era o melhor, o mais lúcido, o mais interessante, o que mais me interessava e nossos ícones eleitos eram os mesmos: o cineasta japonês Ozu, entre eles, mestre da articulação dos espaços vazios em sua obra -- o vazio, tão caro ao Zen.

                    Nessas horas eu queria ter um ipod, os headphones bem grudados nas orelhas, por que a inimiga só fala besteiras, aquela classe de gente que gosta de cinema de forma intuitiva (nada contra), mas metida. Metida a crítica de cinema. Eu estava vendo a hora que ela ia exaltar A Casa do Lago, A Dama do Lago, What the Bleep Are We? -- este último um equívoco tremendo e um plágio em cima de O Ponto de Mutação -- e ainda O Segredo da Borboleta, entre outras porcarias que a indústria cultural impinge aos desavisados, sem trégua nem perdão -- os cifrões brilhando, twinkle twinkle little star...

                   Mas não quero perder o humor; afinal, lições do Zen serviram para alguma coisa; deixe o outro ser o que ele é e viva a sua vida ou, como disse recentemente o amigo Zeca, de Campinas, os cães ladram e a caravana passa. Eu passo com a minha caravana carregada de Wenders, Zurlini, Woody Allen -- tenho rido muito revendo Woody Allen, mesmo numa comédia simples como Os Trapaceiros ele consegue me fazer rir muito. E aí, responda aí, quais os melhores comediantes de todos os tempos? (Havia pesquisa no jornal Folha de São Paulo e concordei com alguns críticos, discordei de outros). Para mim: Chaplin, Woody Allen, Jim Carey -- se tivesse que apenas escolher três, como era a proposta da Folha. Claro que há Steve Martin, que houve Lloyd -- de quem conheço muito pouco, mas tenho amigos que o veneram e juram ser ainda melhor que Chaplin. E outros.

                    Não tenho ipod; mas estou feliz, vejo que quase todos os antigos filmes de Wenders (e Rohmer!) estão sendo relançados em vídeo. Uns eu gosto mais, outros gosto menos. Para uns, ainda tenho paciência, para outros, menos. Como com Godard. Mas ali estão os gênios, Wenders, Godard... Kurosawa e a lista é imensa. Enfim, entre tosses e a vontade de não perder o humor, deixo a locadora. Lá fora, alguém à minha frente acende ansioso um cigarro. Dá vontade de gritar, por causa de gente ignorante que nem você eu estou mal assim! Mas eu sou lá de gritar uma coisa dessas a um estranho, em plena rua? A gente só pensa e prende tudo no peito. E, de vez em quando ele chia e o corpo diz: cuide-se, ou pode pegar uma pneumonia.



Escrito por isa às 09h53
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