hisafarr


                           Richard Estes; "Gordon's Gin", 1968; óleo sobre cartão - coleção particular/USA

               Leio hoje cedo que a pequena mas expressiva editora em que deixei os originais de um romance, para ser lido e apreciado, vai publicar o romance de uma cineasta brasileira. Quanto aos meus originais, nenhuma resposta. Não vou me atirar de nenhum precipício, porque acredito que o romance é bom; mas, claro, fui eu que escrevi, sou suspeita em afirmar isto. No mais, acredito em saídas, ainda que a saída seja a não publicação de um trabalho em que acredito e sobre o qual me debrucei durante anos a fio. Mas eu bem que gostaria de ter um daqueles poderes dos que na nossa fantasia os têm e entrar na cabeça dos editores para compreender-lhes o critério de seleção para a edição de um livro. Ou até mesmo por que não nos ligam de volta dizendo isto ou aquilo a respeito da não aprovação de nossos originais. Mas eu não tenho esse poder e só me resta engolir a frustração. Mas não, não vou me atirar de nenhum precipício mais uma vez confirmando que o mundo pode, sim, ser injusto.

               Eu também gostaria de entender por que a literatura voltou-se para as obras de cunho social tão fortemente. Sim, a violência impera nas ruas, mas e se fizéssemos um movimento contrário e fugíssimos um pouco dessa realidade mesquinha, ao invés de confirmá-la? (Não a la Paulo Coelho, por favor...).Bonassi, Patrícia Melo, todos os que vêm na linha de Rubem Fonseca optaram pela literatura de cunho realista, proposta aliás vinculada ao trabalho dessa cineasta. Tarantino, irmãos Cohen. Bem, poderia enumerar dezenas de outros e me pergunto se já não saturou. Não, parece que não, enquanto a indústria cultural continuar faturando em cima da realidade que nos cerca, que nos agride e fala mais alto. Mais alto que a sutileza, a questão afetiva e as tramas do inconsciente. Quem quer saber da intrincada trama do inconsciente? Nelson Rodrigues quis. Sylvia Plath quis. Flaubert admiravelmente quis. Almodóvar quer; Bunuel e Bergman quiseram. Eu acho interessante uma, digamos, mistura; minhas personagens têm origem humilde mas ninguém aponta arma para ninguém e o sangue nunca jorra de maneira abundante, gritando; tiros vendem e sangue abundante vendem. Sim, tiros vendem. Ressentimentos à parte, há uma nova fórmula, mesmo entre os que "escrevem bem". Entre os que articulam bem suas idéias. Essa fórmula tem cara de periferia, de morro, de tráfico de drogas, de gente falando o português errado e indo parar nas cadeias. Tudo bem, eu entendo. Foi nisso que o mundo se transformou. E o artista se sente no dever de ser o porta-voz dessas... idéias. Mas será que só de idéias é feito um romance? Será que não há algo mais na narrativa de um romance que mereceria ser (re) valorizado? Será que não há algo mais no perfil de um escritor que deveria ser valorizado?

               Eu estou com a elegância de Lygia Fagundes; a escrita elaborada de Caio Fernando Abreu, os tormentos de Sylvia Plath, a argúcia de Flaubert e não abro. Eu estou com a escrita enxuta e inventiva de João Gilberto Noll, o de "Lord". Da sutileza da voz de João Gilberto e todo o movimento Bossa Nova. Do rock de Alanis Morrissete e as baladas de Beatles, Keane; mas a mídia vende as reboludas tipo Beyoncé e nos esfrega na cara rappers e funkeiros que... dizem, fazem música -- letras de cunho social. Assim como muitos se dizem fazendo literatura. Em nome deste social. Arte e sociedade, até onde vão os limites do bom e do mau gosto?

              Hora de voltar ao trabalho. Ainda que sem nenhuma previsão de afirmação deste trabalho, rompendo as fronteiras deste apartamento; filho que fica preso no quintal das minhas inquietudes e não sai para o mundo. Sair para o mundo para quê, ó ser marginal, outsider? Para levar tiro?



Escrito por isa às 09h09
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