"A Virgem e o menino..." (Robert Campin- França); National Gallery, Londres
Se entendi bem o que percebo à minha volta e também fruto de leituras de escritos psicanalíticos e de teóricos da educação, importante seria que mães fossem amigas, mas antes de tudo, mães. Mães educadoras, atentas às necessidades de seus filhos, provedoras de segurança e amor. Teríamos aquela mãe idealizada, desejada por todos -- você pode até sentir do seu quarto o cheirinho do bolo de aniversário que sua mãe preparou para você no seu dia especial. Você pode até sentir o seu hálito muito próximo, quando ela está brava e com vontade de te dar um puxão de orelhas, mas ao invés disso tenta te convencer que você estava, sim, errada e que é bom que as coisas melhorem para você ser uma pessoa melhor e não fazer os outros sofrerem. Você pode até sentir com certa dor aquela indiferença banal, por que ela está a cuidar das plantas ou preocupada com o almoço, enquanto você gostaria que ela lhe desse um pouquinho de atenção para algo muuuito importante. E que você não quer compartilhar com as amigas, mas com a mãe. E de repente lá vem ela e você pode se sentar junto com ela e ter uma conversa pausada e tranqüila, os olhos nos olhos, as mãos sobre as mãos e todas as palavras se encaixam perfeitamente num colóquio de mãe e filha. Penso em mãe e filha por que sou mulher e sei que algumas fazem isto; mas não consigo muito imaginar mãe e filho num enfoque de ternura: por que será?
De qualquer modo, a mãe idealizada é aquela atenta, que dialoga, dá bronca na hora certa, jamais apela para a violência, mas também jamais se omite. A minha mãe idealizada me falaria tudo com ternura, muita ternura. Acho que é por isso que eu tratei por quase dezessete anos a minha gata com muita ternura, por que sei que é patético tratar bichos como filhos, mas um pouco de maternalização não faz mal a ninguém. Nada de vozes e frases idiotas, como se eles fossem deficientes; apenas ternura mesmo. Claro que deve-se tratar um garotinho com ternura, mas imagino que na adolescência isso seja quase improvável. Digo, se seu filho estiver no caminho certo e tentando ser um rapazinho independente e mais ligado aos seus discos, ao seu quarto, aos seus amigos, livros e momentos de solitude. Pensando nisso, continuo na adolescência, por que descrevi o que mais prezo! Acrescente-se a isto os dvds, muito café e um pouco de chocolate. Com muito rock e música clássica. Mas aí já é outra estória. De qualquer modo, acho o ingrediente "ternura" um dos mais importantes na receita do amor de mãe.
Eu falava de mães idealizadas; quando amadureci, aprendi a não cobrar das pessoas o que elas não podem ou não puderam me dar. Mas todos os filhos se ressentem da falta de amor no nosso antigo lar, embora ele viesse de uma maneira meio torta. Nossas roupas estavam sempre em ordem, a rotina da casa funcionava maravilhosamente bem; a empregada era bem instruída, nossas refeições eram magníficas e na hora certa, com todos em volta da mesa. Não me lembro de acúmulo de poeira sobre os móveis. Lembro-me também de um comportamento que exigia o certo, o ético e uma moral um tanto rígida demais, mas de qualquer modo, pregada com boas intenções. Lembro-me de raros momentos de alegria e riso. Mas eles existiram, certamente. Enfim, esteja onde estiver, saiba que me lembrei de você, hoje, minha mãe. Não a idealizada, mas aquela que você pôde ser.
Escrito por isa às 10h47
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