Meu cd autografado (a colagem "The King and the Kong" não coube aqui! A assinatura do Tom borrou um pouquinho, pena!)
Adolesci e ao mesmo tempo acho que amadureci, durante esses anos que passaram. Digo isto porque já faz muito tempo que a minha amiga Ivanir me ligou do MIS para ir num encontro com o Caetano Veloso e eu simplesmente recusei, dizendo " não posso, gosto de Caetano demais para ficar aí perto dele"! E ontem lá fui eu com a cara e a coragem ficar pertinho dos integrantes da banda inglesa Keane no camarim; conversar com eles, entregar minhas colagens para serem autografadas, tirar fotos com eles, entregar cds de Egberto Gismonti. Assim é a vida; a gente mitifica, desmitifica, banaliza, desbanaliza, um dia sonha acordado, noutro quer mandar o sonho embora e viver a mais pura e dura realidade. Para falar a verdade, como tudo é recente, eu ainda não acredito que vivi emoções tão intensas ontem, aquela noite escura caindo sobre a marginal perto da ponte João Dias, o motorista da MTV errando o caminho, eu com os headphones do ipod da minha mais recente amiga Ágatha nos ouvidos, ouvindo as primeiras gravações de Keane que eu, apesar de huge fan, não conhecia.
Eu sempre brinquei que eles eram apenas Tomás, Timóteo e Ricardo e ontem foi um pouco assim, vê-los de carne e osso e ouvir a voz de pertinho, perceber os gestos, os perfumes, os jeitos particulares de cada um, cada um com sua personalidade e seus signos astrológicos -- Tom quando o silêncio se fez entre nós parecendo um peixinho num aquário (ele é de Peixes), aquela carinha branca de traços delicados, o jeito sereno, suave, centrado... Tim, o que entrou primeiro no camarim, mais arrojado, irradiando simpatia, segurança; Richard, o mais falante e simpático, de gestos mais energéticos, enfáticos (ao lado de Tom, foi o que mais fez comentários sobre minhas colagens). Tim mais papo-cabeça, Geminiano... citando Tom Jobim. Richard com mais senso de humor e algo regrado nos gestos -- é virginiano... Tom super gentil, extremamente amável e educado o tempo todo, zero de vaidade, mesmo ouvindo que o título de uma das colagens era "The King and the Kong" e eu apontando para ele na colagem e dizendo: the King (e depois apontando o gorila) and the Kong. Ele: very kind of you... Muito britânica e serenamente. Para o Richard eu abri o jogo, disse que fazia aquilo por passatempo, divertimento. Parecia que com ele eu tinha que justificar isto, ao contrário de com Tom, mais meninão, até mesmo por ser o mais novo -- não sei explicar. Embora menos menino no jeito, agora e um pouco mais amadurecido, depois que passou pela clínica de reabilitação por drogas e bebida, em Londres, ano passado. (Poor dear cute Tom! É de mexer com o instinto maternal de qualquer mulher!)
Às vezes eu via tudo com olhos exageradamente críticos: a enormidade do Credicard Hall; a euforia exagerada dos fãs, ali na fila esperando para ver de pertinho, na pista e em pé, os seus adorados; a coisa da mídia em volta dos rapazes. A coisa de cantar sempre as mesmas músicas nas turnês e a rotina de aeroportos, entrevistas, assédio de fãs, as estadas em hotéis impessoais, a falta de vida pessoal. Comecei a ver tudo claro e criticamente e mudei logo de pensamento para não estragar a magia do encontro, do show e tudo o mais. Mas às vezes é difícil criar um distanciamento. Mas juro que teve uma hora que olhei para o Tom e ele era mesmo o Tomás, da pequena cidade de Battle lá do interior da Inglaterra -- ali parado ao meu lado e esperando que eu dissesse mais alguma coisa, mas eu só queria olhar para ele e descobrir ali o mito. E não havia mito, só um rapazinho magro, pálido e louro e Fernando Pessoa, "o mito é tudo/ que é nada". Logo aquele rapazinho entraria no palco, cheio de energia, ficaria corado e faria gestos largos, ficando um gigante no palco. Faria sua famosa 'dancinha' de sempre, um pouco ensaiada demais, mas tem como ser diferente? Diria palavras de agradecimento ao público do Brasil, fazendo-nos sentir especiais, como disse em todas as outras cidades do mundo -- mas poderia ser diferente? Sim, previsibilidades, mas também muita coisa inusitada, como um término de show com imagens poéticas no telão e a música Good Night do álbum branco dos Beatles a tocar deliciosamente, ecoando no espaço imenso do Credicard Hall. (O que me remeteu a minha conversa com Tom, quando eu disse I am from a Beatles generation but nowadays you're the number one, ele disse: "I do love The Beatles!". E disse mais alguma coisa, mas eu não mais o ouvia, querendo extrair de sua expressão algo mais, uma coisa "de pele", de contato íntimo, que pudesse guardar comigo para sempre. E eu voltei à adolescência, suspirando pelo beatle Paul e me solidarizei com todos os adolescentes que vi na fila de entrada, ansiosos para verem seus ídolos no palco. Eu vi Tomás, Timóteo e Ricardo primeiro, mas vi Tom, Tim e Richard depois... Noite completa. Inesquecível. Memorável. Alô minha amiga Ágatha, que me proporcionou isso: grata, grata, grata, eternamente grata!