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Rápida reflexão sobre a arte e as elites culturais Não sei dizer qual foi a última vez que vi minha amiga, antes que se mudasse para a França, há cerca de dez anos atrás. Vinte anos? Sei que as grandes recordações, afora este nosso encontro aqui em São Paulo neste mês, são da adolescência, passagem para a juventude, quando então fomos colegas de ginásio, depois do Clássico e cursinho em Campinas, quando finalmente no ano seguinte vim para São Paulo definitivamente, em meados da década de 70. Minha amiga, quando então eu morava em Campinas e tinha um grupo de teatro -- e, ser atriz, assim como assistir a peças e ler os grandes autores, foram atividades que me envolveram completamente nesta época --, acompanhava com afinco as montagens das peças e o próprio grupo, em si, relacionando-se com os atores. Era uma entusiasta das produções de então; acompanhou com interesse o grupo Rotunda que montou a peça Hipólito, a qual inauguraria o Centro Cultural de Convivência de Campinas, um belo teatro de arena com excelente acústica. Depois o grupo veio para São Paulo, no Ruth Escobar e também Santo André, que possui (espero ainda possuir) um belíssimo teatro municipal. O de Campinas foi demolido na década de 60 por alguma administração de gente insana -- uma pena, pois aos dez anos de idade cheguei a ensaiar uma peça infantil ali... (com Sonia Hirsh, que depois viria a ser jornalista e finalmente trabalhar com saúde, alimentação natural e, atualmente, tem muitos livros publicados sobre... e também Regina Duarte, que dispensa apresentações; esta, logo foi substituída por outra atriz, por veio tentar carreira em São Paulo). De qualquer modo, o que quero dizer é que há alguns dias atrás pude finalmente encontrar esta amiga que é motivo do meu primeiro texto (fraquinho! Perdoem!)aqui neste blog. Foi um encontro que me emocionou muito, por tudo o que vivemos naqueles anos e também pelas recordações de pessoas em comum e das quais falamos -- seus destinos, o jeito de ser, etc. Nem tudo foi perfeito, a hora correu rápido e quando vimos era saída do pessoal que trabalha na região da Paulista e eu, que queria que ela provasse uma deliciosa comida árabe onde sempre almoço, vi o desejo frustrado pela avalanche de pessoas que lotaram o edifício em questão. Acabamos indo a outro lugar e não foi bom do mesmo jeito, muita gente e uma comida sem sabor, do tipo "mata-fome". Mas foi bom saber dela, de suas atividades, seus planos, o rumo de sua vida, enfim -- colocarmos os papos em dia. Amiga inteligente, sensível, poliglota, trabalhando com a língua portuguesa em Paris e dedicando-se à literatura brasileira e tradução. Fiquei muito feliz por ela, que sempre, como eu, quis sair do interior e alçar vôos mais altos. Mas uma coisa ficou na minha cabeça e passei alguns bons dias matutando sobre isto: minha amiga, a certa altura, falou em "arte para as elites" e algo como " François Ozon é um diretor que faz cinema para as elites". Conversamos sobre isto, mas não saí convencida quanto a alguns dos argumentos. Então, vamos lá... Não gosto muito da afirmação de que haja uma arte elistista e para as elites. Prefiro acreditar que haja, no terreno cultural, gente fazendo arte ruim e gente fazendo uma "boa arte". Honesta. Claro que há, na indústria cultural, aquela fatia que vai para o popular e mesmo, infelizmente, para o popularesco. O popular seria talvez um livro de Paulo Coelho, que atingiu todas as classes e a massa em geral, pela acessibilidade de sua linguagem (e que, particularmente, eu não aprecio). Mas, o fato de eu não apreciar Paulo Coelho me torna elitista? O fato de eu ter tido acesso a um trabalho sofisticado de Ozon faz de mim uma pessoa que transita apenas pelo terreno de uma arte supostamente elitista, para poucos? E, se assim for, não é lamentável que nem todos tenham acesso a uma obra genial do francês Ozon? (Aliás, o seu magnífico Angel é uma crítica à literatura de massas, aquela feita e para mulheres histéricas e superficiais, plena de adjetivações e grandiosidades... só que Ozon é tão bom, que não somente mostra esta questão, mas a trabalha em nível de metalinguagem; enfim, cinema para poucos, para os que estão acostumados a refletir sobre as questões culturais como um todo). Acho difícil dizer o que é uma produção cultural para as elites ou o que seja elitista. Quando li Freud pela primeira vez, entendi o que minha professora da PUC, a já falecida Samira Chalub quis dizer ao comentar que Freud escrevia com simplicidade e que seus textos eram acessíveis, num todo. Certo, há leituras que necessitam de orientação, ou mesmo que o leitor já tenha alguma bagagem prévia para poder acompanhar o texto comme il faut. Mas pensando em Freud, em Shakespeare, meu Deus é uma pena mesmo que muito pouca gente tenha acesso a tais obras, de caráter universal. E eu, que tive acesso a elas, a Ozon, devo sentir uma certa culpa burguesa ao poder falar sobre tais obras e autores? Creio que não. O que talvez eu possa fazer seja, como retribuição a tudo que tive acesso, tentar passar um pouco do que sei aos que estão ao meu redor. Digo, aos menos privilegiados. E, pensei comigo, lembrando das garotas que já citei aqui, que trabalham numa doceria e a quem peguei amizade ou mesmo pensando na minha diarista e seus filhos: estou sempre à cata de bons livros e boas referências para que possa passar a eles, na medida do possível, seja em época de Natal, aniversários... Sei que não é muito, não pertenço a nenhuma ONG ou coisa que o valha, mas é o mínimo que posso fazer e que está ao meu alcance. Sei que essas pessoas vão continuar lendo Paulo Coelho eZíbia Gasparetto, mas ao menos tentei levar algo melhorzinho e sempre pensando na questão da acessibilidade, como os best-sellers razoáveis que são, por exemplo, O caçador de pipas e Thousand Splendid Suns (esqueci o nome em português, é que adoro o título em inglês, então meu inconsciente apagou o título em português de propósito!). Lembro que quando a filha da minha diarista era pequena, eu ia atrás de livros da Ruth Rocha, Lygia Bojunga e outros bons autores para dar a ela. Mas me ressinto de bons livros para adolescentes, agora que ela cresceu. Enfim, o que quero dizer é que talvez o ideal seja que transitemos pelos espaços da arte sem a preocupação de rotulá-la, mas sim aproveitar dela o que tem de melhor. Claro que este melhor vai depender do parâmetro de cada um. Minha amiga acha que há uma leva de diretores e textos franceses que não param de falar do "próprio umbigo". Concordo, vi um filme que se não me engano chama-se Natal, com Catherine Deneuve, que me encheu a paciência... Mas longe disto, a meu ver, está o cinema de Ozon. Mesmo quando ele coloca entre quatro paredes mulheres que falam de si e de questões familiares (com grandes atrizes como Deneuve e Huppert), ele o faz de maneira interessantíssima, bebendo na fonte do teatro para uma excelente performance de tais atrizes em questão -- como neste 8 Mulheres. O modo como o perfil de cada personagem é traçado, a exuberância das cores, a maneira como a câmera se move num espaço tão exíguo... Enfim, é cinema de primeira. E porque não podemos beber desta arte sem culpa, sem julgamentos? Eis o que venho me perguntando, desde então...
Escrito por isa às 20h46
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NãO PERCAM ESSA EXPOSIÇÃO EM SÃO PAULO, NO CONJUNTO NACIONAL; VAI ATÉ 29 DE NOVEMBRO E É MARAVILHOSA, BELÍSSIMA! PENA QUE NÃO ESTOU COM AS IMAGENS DOS ARTEFATOS QUE OS ÍNDIOS FAZEM PARA COLOCAR AQUI, É TUDO MUITO IMAGINATIVO, COLORIDO, COM UM SENSO DE HARMONIA INCRÍVEL. NÃO PERCAM! AO LADO DO CAFÉ VIENA, NA ENTRADA DA PAULISTA, À ESQUERDA.
Escrito por isa às 23h58
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Foto de Richard Hugues (Winnipeg, Canadá), baterista da banda britânica Keane e fotógrafo. É mesmo muito estranho ficar quase um mês trancada em casa, com mau tempo, maus programas de tevê à disposição (OK, tinha uns ótimos, também), sem contato direto com amigos e a rotina. A rotina que eu amava. De qualquer modo, sensação inusitada, por conta de uma visita ao médico, voltar à região da Paulista, o coração de Sampa, e entrar no Conjunto Nacional, ainda que rapidamente apenas para sacar dinheiro... e depois pegar a Santos, ir até próximo ao Ibirapuera. Ainda bem que o consultório era gostoso, acolhedor, com cafezinho, chazinho, bolachinha, bem decorado (uma sequência de cadeiras dos anos 50, de babar!), secretárias genuinamente educadas e gentis, médico atencioso. E a presença do meu irmão, muito gentil dele ir me encontrar lá, me esperar, me levar para casa. Na volta, chuva, supermercado, espera, ah a paciência, sempre a paciência para o que virá. Mas depois foi chegar em casa e encontrar a diarista também solícita, bem humorada, com boas palavras para meu consolo de doente (uma doente mais animada depois da visita ao médico, "isso deve ser só uma bactéria, mas um exame pode detectar facilmente")... E lá vou eu comer a comida insossa de sempre, tudo apenas no sal e invento uma omelete de clara de ovos, para ter alguma proteína, já que o frango e tudo que foi de carne vermelha, que comi nas últimas semanas, não me caiu bem. Uma geléia de laranja na bolacha Maria, para ter algo doce para arrematar, já que não sei o que é um chocolate há trinta dias. De qualquer modo, estou em casa, lá fora faz frio e é bom ver tudo bem limpo pela diarista, as roupas passadas, a roupa limpa no varal, o cheiro bom de limpeza em todos os ambientes. E fico à espera, aliás, parece que estou sempre à espera, como diz a música de Keane: "I am waiting for my moment to come/ I am waiting for my moment to begin... (...) I am waiting for a revelation...". E por aí vai... E espero que o organismo funcione a contento para fazer o tal exame e detectar a tal bactéria e já sei que vou ter que sair correndo de volta para os arredores da Paulista, onde fica o laboratório, mas estou preparada, hoje parece ser um dia para ser prática, mesmo e ir à luta. Faz frio, chove, o tempo escurece e nada. Nada de possibilidades do exame. Pois é, a vida é assim; ontem à meia-noite, eu com diarréia, já era a quarta no dia e hoje, NADA. Hoje que preciso que o maldito funcione, NADA. E é preciso paciência e é preciso esperar. E na vida nada vem como queremos, é tudo assim, de viés, orquestrado de maneira a nos confundir na sequência das notas da pauta. Enfim, isto é a vida. De qualquer modo, viva a vida, viva o otimismo, vivam os bons dias com cheiro de fuligem e chuva, viva São Paulo que amo/odeio, viva a minha amiga que bateu papo longo comigo no telefone, na maior paciência... Vivam os bons dias e esperemos por menos piores. Ao menos, é nisso que agora estou botando fé. Chega de reclusão! Sampa foi feita para se curtir, ir ao cinema, a teatros, a bares, livrarias, cafés, para flanar e comprar, paquerar, ser surpreendido... enfim, Sampa espera por nós, assim como esperamos muito dela. Esperamos e esperamos e esper... É isso.
Escrito por isa às 21h54
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 Entrando na faca Eu queria perder alguns quilinhos, mas não assim, de maneira abrupta e sem poder, paralelamente, me exercitar. Mas, enfim, somos bêbados equilibristas na corda frouxa e sempre pronta para surpresas, agradáveis e desagradáveis -- embora muitas vezes tenhamos a ilusão de que, esticando-a e, sóbrios, chegaremos fácil e seguramente, como previsto, do outro lado. Puro engano. Mas, enfim, se "não posso te levar, deixo que você me leve", ó vida! E, mansamente e levemente nervosa (de início), lá fui eu da consulta direto para o hospital, com a suspeita de apendicite aguda. E os exames revelaram: era mesmo. Diante da urgência, de ser arrancada desde as cinco da manhã do meu habitual cotidiano, a terra afundou sob meus pés e os dentes não pararam de bater até que alguém disse, colocando-me uma máscara de oxigênio: "respire fundo e solte... só isso; não se preocupe". Preocupar-me, eu? Seja o que Deus quiser, agora! Agora que estou aqui sem dignidade alguma, à mercê de um médico de plantão que conversou comigo sem me olhar no rosto, muito frio e calculista, cercada de uma equipe de jovens extremamente jovens para o meu gosto de paciente, que poderiam muito bem estar à beira da piscina de um clube conversando sobre futebol, todos eles tão sorridentes e fazendo brincadeiras. Juro que pensei que um ambiente de cirurgia fosse um pouquinho mais sério; nada contra brincadeiras, descontração, mas e se o pessoal se distrai, perde o foco, perde a mão? Não deu tempo para pensar que, com aquele médico sisudo, provavelmente toda a meninada ao meu redor se calaria e faria a coisa direitinho. Bom, acho que fizeram... Mesmo estando num dos melhores cinco hospitais de Sampa, é possível ver como é triste a situação de quem vai parar numa emergência. Não uso celular e os dois orelhões de entrada estavam quebrados. Acho que se supõe que, hoje em dia, todo mundo adore um celular, o que não é meu caso (ok, a partir dessa experiência, vou adquirir um, bem basiquinho...). Claro que um gentil enfermeiro ligou para um parente e, pronto, acabou-se a necessidade do celular. Mas que deu insegurança, deu. No meio da noite eu quis levantar e não havia nenhuma meia, nenhum sapato de pano possível e eu disse à enfermeira: a última coisa que posso pegar agora é uma gripe! Ela foi no armário, a meu pedido, pegou minhas meias e lá fui eu ao banheiro, de piso frio, somente de meias. Caramba, eu pago tão caro um plano médico e não tenho direito a uma sapatilha para ir ao banheiro? No dia seguinte, trouxeram-me duas meias estranhas, sem costura, mas então eu já estava de posse das minhas havaianas. Também não vi, nos dois dias em que estive internada, higienizarem o quarto uma única vez; apenas retiraram o lixo e deram um jeito no banheiro e nesse dar um jeito, sumiram com o pacotinho de fio dental. Ao menos havia, na entrada do quarto, um box com gel e todos que ali entravam higienizavam as mãos antes de me entregarem a refeição ou trocar um soro. Meno male. Fazia tempo não acordava cedo e lá, claro, cedo pra eles é cedo meeeesmo. No melhor dos sonos, entra alguém tagarelando sobre o remédio que vai no soro; e eu lá quero saber o que vai no soro? Põe aí e pronto! OK, é em respeito ao consumidor doente -- afinal, ele tem o direito de saber o que está tomando. Mas eu não quero saber; nem sei quantos pontos levei; se não fosse um irmão perguntar, eu não saberia se a operação foi por laparoscopia ou não. Que importa? Estou doente? Salvem-me, vocês que estudaram e são pagos pra isto. Ponham-me de novo na minha rotina de livros, filmes, caminhadas, internet, escrever e flanar pela Paulista e não se fala mais disto. Falar era algo em que meu médico não estava interessado. Pessoa estrangeira, de difícil compreensão, lacônico e, como eu disse, daqueles que quando falam deixam a impressão de que você é uma parede e não um ser humano: nada de contato visual. E apressadinho. Ou seja, na minha cabeça sempre ficaram perguntas: o que comer, agora? Posso caminhar? Posso isso e aquilo? Bem, o homem se revelou extremamente generoso, me atendeu prontamente em todas as situações, ligava para a minha casa para saber de mim, etc. Mas, nada de muitas perguntas! Porque as respostas vinham enroladas ou não vinham. Então tive que ir na internet, pesquisar e perguntar: posso tomar tal remédio, já que a diarréia não passa? E ele: sim, pode. E eu, comigo: porque não me disse antes, caramba? Precisei descobrir sozinha um remédio que me cure? Nessas de problemas gastrointestinais, emagreci três quilos, até agora. O lado bom da história triste. Eu sou das que afofam almofadas antes de sair de casa; mas não sou xiita. Posso deixar um sapato largado no chão, essas coisas. Mas quando você tem dores fortes às cinco da manhã e sabe que algo grave está acontecendo, a última coisa que pensa é em fazer a cama, arrumar a sala, essas coisas. O ruim de pedir a alguém que vá até sua casa pegar suas coisas é que, se está lidando com uma pessoa excessivamente crítica e exigente, terá que ouvir coisas como: não sei por que aquela pilha de jornais na sala! E, só pude responder: mas eu sei. E eu sei, eu vejo os filmes sem ler a crítica, gosto de ler os artigos depois, então vou empilhando os cadernos de cultura até que finalmente eu possa lê-los. Ou, há aquela matéria imperdível no jornal, que não saiu na internet. (E, não gosto de ler artigos longos na internet). E, enfim, a sala é o único lugar disponível que eu tenho para isto: empilhar jornais. É feio? É. Mas minha casa é assim, minha sala há muito deixou de ser uma sala de visitas no modelo tradicional. Mas é duro, estando frágil, ter que passar por determinadas críticas (e aqui vai apenas um exemplo básico de todas as críticas que viriam ao meu peso, ao meu modo de vida, ao meu apê, meu estilo simples de viver, minha antipatia aos celulares, etc.). OK, a gente dá um desconto, porque se alguém te socorre e se preocupa com você, sempre que você na vida precisou, a gente deixa pra lá o lado ruim da história. Mas que pega, pega... Ou seja, nada está mesmo sob controle, nesta vida. E, muitas vezes, pessoas que se dizem tão próximas de você, passam batido pelo seu problema, a sua situação delicada, nessas horas. Sou das que comunicam, que gostam de fazer a ponte, nem que seja via internet. Se a pessoa não se pronuncia, você crê que de fato não se importa com você, né mesmo? Enfim, há amigos e amigos neste mundo e nem todos se parecem. Sem cobranças; apenas uma leve decepção, mas o que é isto, frente às enormes decepções? Enfim, muitas vezes o problema do outro parece menor aos nossos olhos, mesmo. E é interessante como nessas horas surgem estranhos ou gente nem tão apegada que aparece para salvar uma situação: um taxista gentil; uma faxineira leal e prestativa; um parente cricri mas de boa vontade; um parente distante que te dá dicas por telefone e ainda ressalta: é sério, se precisar de mim, é só avisar que apareço correndo! Tudo isto conforta. Já que ir parar no hospital de sopetão é algo tão... desconfortante, desagradável, brutal e é algo que não desejo para ninguém. OK. somente para os inimigos.
Escrito por isa às 08h54
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Lateral da casa principal da Vila Itororó; pena que não consegui salvar a melhor foto, que mostra a altura desse complexo e as esculturas, muito interessantes... O Passado ou, o Presente não perdoa! Ontem resolvi dar uma passeada no meu primeiro endereço aqui em São Paulo, na década de setenta, no bairro do Paraíso. Morei, por um ano, com meu irmão, na mesma rua onde fiz cursinho, o Colégio Equipe (e onde estudou minha querida amiga leonina que aniversaria hoje) -- antigo Colégio Santo Alberto, onde meu pai estudou nos anos 20/30. Eu morava logo no começo da rua, próxima ao Hospital Oswaldo Cruz e ia descendo toda a ladeira, depois do almoço, passando pela interessantíssima Vila Itororó e, no caminho, ia observando as lindíssimas casas com seus jardins floridos e enormes quintais. Havia, se não me engano, na Pio XII, um enorme edifício antigo e todo arborizado e que era algum instituto católico importante -- não me lembro mais. A Cúria? Não lembro. Sei que era lindo, pomposo, interessante. Pois é, era. Agora fizeram um enorme complexo chique lá. E, descendo a rua, não achei noventa por cento das casas, todas derrubadas; há um hospital novo, um mastodonte chamado Hospital Paulistano. Alguns prédios de muito mau gosto ao redor e escassas casinhas velhas e que já eram velhas à época. Quanto à Vila Itororó, é de sentar no chão e chorar. Irreconhecível. Tornou-se uma imensa favela, mesmo governo após governo terem prometido que a recuperariam, que a manteriam. De dar nó na garganta. Já o Colégio Equipe, que fechou há muitos e muitos anos atrás, conserva sua fachada estranha cinza -- sempre teve uma fachada estranha, parecendo um caixotão -- dentro é que era muito interessante, com uma capela ao fundo e com as atividades culturais promovidas pelo Serginho Groissman. E as aulas, maravilhosas, de todos aqueles professores sacados; excelentes apostilas! Ir ao Equipe era ter um dia de festa todos os dias! Todos que estudaram lá, que eu saiba, amaram aquele espaço -- e olha que o anterior, no antigo Colégio Dex Oiseaux, onde estudou minha mãe na década de 30, era muito mais interessante! De uma arquitetura inigualável -- eu o conheci um pouco antes de ser demolido, quando vim me inscrever para o Equipe -- mas este já funcionava numa rua transversal. De qualquer modo, foi um baque ver que tudo está tão mudado, e para pior, lá onde morei. Ao lado do Equipe, a majestosa igreja do Carmo, toda ladeada de altas grades e com dois seguranças à porta. Entrei. Ai que alívio, continua a mesma, só que com cartazes falando de participação da comunidade, etc. Mais vulgar, mas de qualquer modo, intacta. E silenciosa, constrastando com o bar em frente, com mesinhas e som alto de pagode. Nas calçadas, pessoas extremamente simples -- mas o lugar tem muita vida, constatei. Achei interessante, até. Mas ao subir de volta, deparei-me com vários mendigos próximos à Pio XII. Próxima à padaria, uma mendiga jovem, de seus vinte anos, negra e de voz incrivelmente doce, me pediu dinheiro. Perguntei se queria algo da padaria e ela só disse: uma coxinha... Comprei a tal coxinha e água também, pois fazia um calor absurdo. Também tinha comprado um chocolate para ela, mas quando acabei de pagar, uma menininha mendiga, de uns dois anos estendeu a mão para mim, mostrando a palma, insistente e depositei o chocolate ali, sem dizer nada. Lá se foi a sobremesa da mendiga mais velha. Vi a menininha correr para um bando, parados ali perto, próximos ao complexo chique -- e pude ver babás com crianças no playground de tal edifício, todas uniformizadas e tudo muito bem murado e com cara de ser muito chique mesmo. Triste. Triste constraste. Voltei para o meu bairro achando o melhor bairro do mundo (bem, se não do mundo, de Sampa), embora alguns mendigos costumem se postar em frente aos dois supermercados próximos. Embora dois carros de polícia e quatro policiais estivessem parados em frente ao meu prédio há dois dias atrás -- e eu nem sei o que houve, mas o porteiro daqui falou que não tem hora para tentarem roubar as motos que estacionam ali perto. E eu que pensei que a minha rua estivesse livre disto! De qualquer modo, a violência DENTRO é que incomoda, com vizinhos barulhentos e sem noção de comunidade. Ah, Sampa, Sampa, o que fizeram, o que estão fazendo de ti? Eis o que achei na internet sobre a Vila Itororó: "Localizada na rua Martiniano de Carvalho, encontra-se a Vila Itororó, considerada uma das construções mais extravagantes de São Paulo dos anos 20 e é um dos símbolos do Bexiga que está degradada.
A vila foi construída pelo tecelão português Francisco de Castro, em 1922. Ele era proprietário de uma confecção em Piracicaba e resolveu vir para São Paulo construir sua residência na cidade. Apesar de trabalhar com tecidos, o português possuía conhecimentos técnicos sobre engenharia e arquitetura.
Numa área de 4,5 mil metros quadrados foi construída o casarão de quatro andares, sendo o último andar no nível da rua Martiniano de Carvalho, e 37 casas menores ao seu redor. Aproveitando da nascente do Vale do Itororó, foi construída também uma piscina, hoje considerada a primeira piscina numa residência em São Paulo.
A vila com as suas formas arquitetônicas, suas estátuas e grandiosidade foram consideradas exóticas para época, que acabou recebendo o apelido de Casa Surrealista".
Escrito por isa às 22h50
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Casa de Horácio Sabino, na Paulista, onde hoje fica o Conjunto Nacional. Aqueles que têm mais de 30 anos não podem negar que o mundo está muitíssimo pior e mais vulgar que há tempos atrás. Para mim, o acordo ortográfico, muito falado neste ano de 2009, veio coroar esta vulgaridade, retirando da língua portuguesa o trema e colocando na mesma freqüência o som/a musicalidade de algumas vogais, como vôo em voo. Com a extinção do acento em ditongos como idéia, que agora é ideia. Mas, e os brasileiros, como os portugueses, fizeram alguma manifestação contrária a este acordo, tendo um dos mentores aquele que antes eu respeitava, o gramático Evanildo Bechara? Pois é, ninguém se mexeu, enquanto que em Portugal, artistas, escritores, intelectuais, professores, estudantes e cidadãos em geral lutam para que este infame acordo seja anulado. Mas não é do acordo que quero falar e sim de um programa de rádio que acabei de ouvir, na rádio Cultura. Eu o peguei pela metade, mas falava-se do Jardim América e a origem de seu nome, entre outros assuntos (tendo como figura central, a família de Horácio Sabino, que loteou o lugar aqui em São Paulo e, cuja casa, e espécie de sítio ficava onde é hoje o Conjunto Nacional, na Paulista). Este senhor Horácio tinha por esposa uma senhora de nome América e, por isto, ao lotear o lugar, deu-lhe este nome. Portanto, nada a ver com o continente, como muita gente pensava -- inclusive eu. Há mais detalhes dos quais esqueci agora, mas como foi dito que várias pessoas acorreram para comprar os lotes, através de uma companhia de nome City ou Citi, lembrei-me do meu avô, que comprara ali alguns lotes. Mas também não é disso que quero falar. Três parentes deste senhor Sabino, dois deles de sobrenome Glück (creio que seja esta a ortografia) e, uma senhora, com o sobrenome de Vieira de Carvalho, falaram do livro que está sendo lançado, por estes dias, nas livrarias e seu conteúdo. Ao descreverem o glamour da família Sabino, com suas viagens à Europa de onde traziam quadros e mobiliários, seu bom gosto para decorar a casa, com especial atenção ao art nouveau (minha paixão), com o jardim francês "de lagos, pedregulhos e caminhos" (ai, ai, meu sonho!), a riqueza dos entalhes dos móveis (ou seja,o apreço ao artesão e não essa coisarada vulgar a la Etna que se vê hoje em todo lugar)... os quintais com quinze pés de jabuticabas, a vaquinha para dar leite às quatro filhas (cujos genros -- e estou aqui inferindo -- incultos, sacrificaram a casa após a morte do patriarca, sem levar em conta tal preciosidade, tendo podido transformá-la em museu -- segundo uma das parentes). Enfim, detalhes de um modo de vida que não se encontra mais. Elas falaram de seu apreço à música, dos saraus e contaram detalhes de como era a São Paulo de antigamente, do tempo deste senhor Sabino. (E eu me lembrei de minha tia Yolanda, professora de música e seu lindo piano na sala de visitas; que não era só para decorar, mas para ser tocado, ouvido, aprendido, valorizando-se assim a música). Um dos parentes é um rapaz publicitário, da nova geração e é interessante notar como seu português é desleixado, em comparação ao das senhoras, ao descrever a vida e os pertences do sr. Sabino. Ele comete vários gerundismos e usa deselegantemente o verbo ter, em lugar do haver, comentendo com isto alguns cacófatos e vulgares construções. Pois é: um legítimo representante das novas gerações, que vivem num mundo vulgar, vêem coisas vulgares e absorvem o que é vulgar, seja na língua, como na arquitetura, na culinária. Na música. Falando nisso, eu vou colocar o meu mp3 para tocar, para tapar a música do vizinho, que é chegado num, argh, pagode. (Não sei se o livro é bom, se a família, conservadora, é de uma linhagem política que aprecio -- conservadores tendem a ser de direita), mas de qualquer modo o programa foi muito interessante, entremeado de músicas do começo do século e me impressionou e, não custa passar nas livrarias e dar uma folheada em tal livro -- cujo título esqueci --, já que, segundo os parentes, há lindas e interessantes fotos de época). Para fugirmos um pouco desse mundo tão vulgar em que vivemos hoje. Aquarela - Casa de Horácio Sabino.
Escrito por isa às 12h17
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Reflexão Fazer esforço para ser feliz não é o mesmo que ser feliz. Digo, fazer esforço para ser uma pessoa estruturada não é o mesmo que ser estruturado. Claro que todo esforço é válido, se lá atrás deram a entender que você não foi amado o suficiente pelos seus pais ou, que sua mãe te rejeitou por ser um filho que viria numa circunstância em que a família não estava bem financeiramente. Pessoas levianas e que falam impensadamente podem lançar isto no seu rosto e você acreditar e o seu cérebro processa: é melhor lutar bastante, porque o fato de estar aqui é quase um milagre... O seu cérebro também processa: você não foi bem-vindo, você não foi bem-vindo, você não foi bem-vindo. O sentimento de rejeição é algo que dói. No entanto, os livros de auto-ajuda dizem que, ainda assim, você pode e deve ser feliz. Afinal, se seus pais não souberam, desajeitadamente e também como herança, não lhe dar amor, ao menos jamais te espancaram ou xingaram ou não quiseram que fosse feliz. Aquece o chakra do coração ouvir alguém dizer, como Ivete Sangalo, que foi muito amada pelos pais e que recebeu muitos abraços amorosos e que, quando erraram, se erraram, o fizeram mas em meio a muito amor. Você pensa: há gente que se salva, nesse mundo, do espectro da rejeição. Que bom. (Isto dá confiança em si mesmo!) E, como ela disse (num programa da GNT), com isto, os seis filhos (seus cinco irmãos) foram muito bem encaminhados. Aí você pensa: as coisas saíram meio tortas porque houve falta de amor? Houve comida, um teto sobre a cabeça, roupas, escola, médico, férias no mar, sorvetes, bonecas -- mas e o tal amor, a tal compreensão, o tal afeto? OK., é armadilha chorar sobre o leite derramado. Mas e se isto vai e vem, assombrando os dias, ou pior, deixando a coisa cimentada como uma certeza que vai se prolongar até o fim dos dias? Você vai a sessões de psicologia, a analistas, lê sobre o assunto, procurar aprender com isto e sabe de pessoas que passaram pelo mesmo e estão aí, dando conta do cotidiano, não apenas sobrevivendo, mas construindo para si uma nova história. Virando a página. É alentador. Então você, afastando os livros de auto-ajuda, que falam apenas do que pode ser e não do que realmente é, superficiais que são e generalizadores, você então tece e se apossa da sua nova história e tenta seguir adiante. Alguns mais próximos o decepcionaram e, outros, continuam decepcionando e no dia em que se quer muito o sol, chove e é tudo cinza. No entanto, é preciso paciência e sabedoria e seguir em frente. É possível ter clareza das coisas e não lamentar o passado. É possível, sim, você sabe, virar a página. Mas às vezes, dependendo do tempo (já ouviram falar nisso?), a cicatriz dói. É preciso, então, não fazer de conta que a dor não existe, mas olhar para ela com aquele afeto que poderia ser o de mãe ou de um pai. Olhar para a dor como se olha para um filho. E com realismo -- mas compreensivamente. E afastar a auto-piedade. Que seria como nadar no sentido inverso ao da direção da ilha. E você não quer morrer na praia, quer?
Escrito por isa às 11h24
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Quem, ou, o quê, matou Michael Jackson? A vida é muito complexa. A vida de uma pessoa é tão complexa, que fica difícil dizer isto ou aquilo sobre uma pessoa com quem não convivemos; e, com quem convivemos, as surpresas sobre sua personalidade ou atitudes às vezes podem nos deixam boquiabertos. O jornalista norte-americano Talese está no Brasil, convidado para a festa literária de Paraty, a FLIP. Em entrevista à Folha, ele diz que quem matou Michael Jackson foi a mídia. Quando Michael morreu, pensei o mesmo -- era só lembrar da entrevista maldosa de um jornalista britânico, que o colocou na parede o tempo todo e parecia francamente chocado com as respostas mais ingênuas e deliciosamente românticas sobre o que é ser criança, como conviver com crianças e por que não sermos agradáveis com elas e tratá-las bem e com aconchego (como, dar-lhes um leite morno, colocá-las na cama junto a nós e contar-lhes uma estória ou colocar uma música para ouvirem juntos). Essa imagem de aconchego retratada ingenuamente por Michael (pois o jornalista demonstrou ser cínico, desde o começo) não teve respaldo algum nem da mídia e nem de boa parte do público ou, claro, da sociedade norte-americana, que sempre teve uma imagem distorcida do que é o afeto e do que é a proteção familiar. Para o americano e boa parte da classe-média brasileira, se o seu filho vai numa van para a escola e se você (aqui no Brasil) enche a sua casa de grades e um muro alto que proteja a todos de um assalto, você está sendo bom pai. Nada de leitinho morno e contar estórias para trabalhar o lado simbólico da criança, sobre a cama, quem sabe ao lado de uma boa lareira -- como provavelmente poderia ter a rica casa de Michael -- ou aquela fraca luzinha de uma vela que pode intensificar a intimidade. Intimidade esta que, numa sociedade minada pelas notícias da mídia acerca dos pedófilos (não que eles não existam) é vista com maus olhos. Disse o jornalista britânico, então, colocando-se pessoalmente frente à questão: eu não me imagino deitado numa cama com crianças. Ou algo assim. O que provocou uma reação francamente de estupefação por parte de Michael: como não? É assim que devemos tratar as crianças! (Leia-se -- e vou aqui psicologizar um pouco: era assim que eu gostaria de ter sido tratado, pelo meu pai, quando fiz parte da banda Jackson Five, e não a pontapés e, à época, tão pequeno, com tão grandes e sérios compromissos, sem tempo para brincar). De qualquer modo, acredito que a mídia tenha uma parcela de culpa, se é que dá para falar assim, nisso tudo. Mas isso acontece um pouco com nossas vidas. Influenciamos pessoas, negativa ou positivamente, e somos influenciados por elas; no bem e no mal. Isto é a vida. Não estou justificando nada, mas isto é a complexidade da vida. Se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael (que teve na arte a possibilidade de fazer a sua catarse -- contrariando seu jeito manso, viam-se os gestos agressivos, a postura rebelde nas coreografias -- mas sempre com leveza e alguma elegância, muitas vezes, e com um certo brincar -- aqueles passinhos deliciosos de deslizar... -- em meio a isto tudo), repito, se o pai e a mídia minaram a vulnerabilidade psíquica de Michael, o fato de ter sido um tanto ingênuo em relação à essa mídia e, ainda as suas opções individuais, ainda que não deliberadas, pelas suas escolhas visivelmente bizarras do tipo adquirir um parque de diversões de proporções gigantescas, como Neverland, seu apego aos diversos, inúmeros brinquedos com que enchia/lotava sua casa, ou seja, tudo o que formou sua personalidade, também o levou a ser o adulto em que se transformou. Por que, como está em Peter Pan, é contário às leis da vida não querer crescer. (Isto está mesmo em Peter Pan ou é apenas a minha leitura distanciada da obra?) Quando viajo, compro alguns brinquedos para mim, como um ônibus miniatura típico de Londres, aquele de dois andares; na Escócia, um pequeno carneiro de pelúcia com uma boina escocesa, e por aí vai. Mas devo ter no máximo uns vinte brinquedos em casa, em muitos anos de maturidade. Não quero me colocar como exemplo nem parâmetro de nada, mas, sendo assim, digamos, no meu jeito razoável, médio , dentro dos padrões da chamada normalidade, de ser adulta, creio que como grande parte da população que habita o planeta, acho curiosa a personalidade de Michael. Um pouco mais que curiosa, talvez excêntrica, pois mais e mais adultos vêm comprando brinquedos para si mesmos (lembram-se da cama da Xuxa, plena de bichos de pelúcia?), principalmente aqueles que tiveram suas infâncias roubadas. Há cada vez mais filmes de animação para crianças, que servem para entreter adultos (os quais, aliás, não me atraem nem um pouco, em geral, com exceção de poucos). Os celulares vêm com jogos e cada vez mais estes são propagados e com sucesso, na internet, há os playstation e por aí vai. (E é sabido que os jovens têm resistido mais e mais a se emanciparem, hoje em dia). O homem ocidental adulto dos anos anos sessenta (e ali, com a revolução cultural, se extingüiu o hábito por completo) usava chapéu de abas nas ruas, terno, gravata, abotoaduras e lenço no bolso -- o que lhe conferia um ar... adulto. Passar a usar calças compridas era sinal de transição da infância para a maturidade. Hoje em dia, crianças, jovens e velhos usam jeans e boné; todas as gerações falam palavrão à vontade, não importa o lugar. Se algo veio em nome de uma maior liberdade de ação (os jeans, a não necessidade dos costumes formais), por outro lado houve um degringolamento nos hábitos que levaram e estão levando as pessoas a não se reconhecerem mais em suas faixas etárias e de comportamento (como a questão do palavrão, por exemplo), fechadas e determinadas pela sociedade através de hábitos, costumes. Há um lado positivo, aí, claro, pois foram abolidos muitos preconceitos. Por outro lado, há um exagero que é preciso notar, aparar e que, para mim, fica explícito numa Neverland -- para voltar a Michael Jackson. O assunto dá pano para manga. Mas tenho para mim que Michael, apesar de ter tido a oportunidade de ser pai e conviver com as crianças que "adquiriu", trazendo-as para sua convivência e fugindo da necessidade da companhia de outras que não de sua família, correndo o risco de ter que ser processado por pedofilia, ainda assim, algo para ele havia ficado incompleto. Como para todos nós, que lutamos diariamente para preencher aqui e ali nossos desejos e necessidades. Como para todos nós. Mas a fama parece pesar para alguns, que lidam com ela da mesma maneira com que expressam suas carências, ou seja, de uma forma um tanto transbordante. Esse transbordamento aparece no excesso de plásticas e remédios por que passou o cantor e dançarino. Tudo, em Michael, a partir de um certo ponto, começou a se tornar excessivo. Mesmo algumas de suas coreografias. Quem ou o quê matou Michael Jackson?
Escrito por isa às 12h33
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Em primeiro lugar, a notícia da morte de Pina Bausch. Pegou-me de surpresa. Eu gostava de seu trabalho e, claro, também o de Michael Jackson; coloquei para uma pessoa que o meu cérebro deve ter processado algo errado, pois este último, eu o achava imortal. Vejam só!  Leio no blog de uma escritora que ela está de malas prontas e indo para a Flip (o encontro ou, a festa literária de Paraty) e ainda diz em resposta a uma leitora que talvez vá para a cidade onde esta reside e quem sabe dará autógrafos ali. Oh meu Deus, são essas, mesmo, as pessoas que se sobressaem na mídia? Não, nada contra, esse oh meu Deus é porque penso em mim, que não gosto muito de sair do meu canto, a não ser para uma caminhada, um papo com um amigo e um café, ir ao cinema (sempre) e não muito mais que isto. Não viajo há exatamente dez anos, de tão caseira que me tornei. Em casa, assisto a dvds, vejo um pouco de tevê, leio e escrevo muito. Será que tenho remédio, digo, será que minha carreira de escritora vinga? Não vou aos bares da moda, perdi muito dos contados que costumava ter... e, no entanto, modéstia à parte, acho que estou escrevendo ficção cada vez melhor. (Um romance a cada dois anos está uma boa média, creio). Acredito que seja a prática, a dedicação, o tempo para reflexão, lapidar o texto. Isto conta para os editores, para a mídia? Não. Começo a crer, ou melhor, sempre soube... Se você não aparece... ora, você não aparece! Elementar, meu caro Watson! Mas, quem sabe, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura mesmo?  Stella. Venho aqui para falar desse filme imperdível. Francês. Vi no Cinesesc, aqui em São Paulo e, para meu alívio, numa sessão tranqüila. Lembrei-me de Ana Torrent, em Cría Cuervos, de Saura e mesmo da pequenina e ocluda miss Sunshine. Mas Stella é mais velha que a Ana de Cría Cuervos, por exemplo, pois é pré-adolescente e nem é tão desajeitada como miss Sunshine (aliás, esse filme não me cativou muito, não, apesar da persogem ser interessante e também fazer parte, como Stella, de uma família disfuncional). Mas Stella não é americana, como Sunshine (era este o nome da personagem?) e sim francesa; então, para mim, o fato de assistir a um filme em que a história de uma garota pré-adolescente, com todos os conflitos que essa fase da idade traz, num contexto europeu, me pareceu muito mais fascinante do que inteirar-me daquela outra, num contexto da sociedade norte-americana. A começar da época, anos setenta, muito próxima à minha década de pré-adolescência e lá estão os professores (a de inglês) insensíveis, os ídolos na vitrola, a necessidade de fazer amizade no recreio, se você não é muito popular... a procura da atenção dos pais e por aí vai... Os pais de Stella são donos de um bar na periferia de Paris e abrigam os sem-teto numa parte do terreno. Eles tocam o local em meio às farras, à bebedeira geral, ao jogo, ao barulho. Quem terá tempo para saber dos sucessos e insucessos, na escola e na vida, nas amizades e no amor, da pequena Stella? Ninguém. A não ser a nova amiga, de origem argentina e filha de intelectuais. Elas, então, se compreendem. Mas Stella, em geral, não se vê compreendida. E tem dificuldades, tendo recentemente chegado de uma escola inferior a que está então, de entender o que os professores dizem. Ela não tem o hábito da leitura, mas sua nova amiga, sim e Stella então, através da convivência com esta, começa a conhecer os clássicos e a apreciar os autores franceses. A primeira menstruação, o primeiro amor, o primeiro beijo roubado num assédio masculino, adulto -- o que a deixa revoltada, mas, enfim, a vida tem que prosseguir. Stella se torna entre agressiva e melancólica. E onde estão os pais, que nada vêem? Perguntamos, já incomodados na cadeira. Fechados em seus pequenos mundos e, quando solicitados, não parecem ter o menor jeito para lidar com os problemas por que passa a filha. Recomendo esse filme sensível e interessante. Não entendi como a Folha de São Paulo deu apenas duas estrelas; merece três ou até mesmo quatro. A maior qualidade deste filme, a meu ver, é a sutileza; mesmo sem ainda sabermos que a história se passa nos anos 70, aos poucos vamos tendo um painel da época através de rápidos signos: o poster do ídolo na parede, o programa de futebol na tevê, a calça boca-de-sino... Maravilha. Adoro isto. E que atriz, impecável -- aliás, todos os atores estão excelentes, sem exceção. Não perca Stella; é um bom, envolvente e delicado filme.
Escrito por isa às 15h34
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Quando do lançamento de Luz Silenciosa (para mim o melhor filme já lançado, até agora, nesse século, como já coloquei aqui), o crítico da Folha, Inácio Araújo, foi um dos poucos que viram ali um filme de valor, de primeira, uma verdadeira obra de arte, enfim. Aquilo de certo modo me surpreendeu, porque o Inácio Araújo a que estou acostumada é aquele que fazia sinopses sobre filme de Godard sem entender nada da proposta do mesmo e que só sabia reconhecer e louvar, em seus textos, filmes de Western, ainda que dos bons, como os do diretor John Ford. Pensei que houvesse mudado, aprendido mais sobre a arte do cinema e não apenas como analisar filmes; mas não; hoje deparo-me com um péssimo texto na Folha, que revela sua total ignorância sobre o cinema de Kieslóvski. E não perdeu a oportunidade para escrachar com os filmes (a seu ver) supostamente de arte. Creio que possivelmente é uma velha rixa sua (estou inferindo...) com aqueles que estudaram cinema nas faculdades, dominando portanto melhor a teoria e portanto alargando horizontes na hora de examiná-los, em detrimento daqueles, em que incluo Inácio, que apenas vêem o cinema a partir de um olhar mais informal e até certo ponto amador, intuitivo -- embora o referido crítico esteja na profissão há muitos anos. Eu me pergunto, aliás, como se manteve tanto tempo num grande jornal como a Folha de São Paulo; permito-me uma brincadeira: ficaria muito caro mandá-lo embora? E, permito-me uma conclusão séria: está tão difícil achar bons críticos, com formação sólida, como um Sérgio Rizzo? Ou, com uma prosa elegante, como o Calil (o que um dia dirigiu a Cinemateca e de maneira estupenda, no que eu chamo "os bons tempos da Cinemateca"). Há hoje, ainda, na Folha, uma pertinente matéria sobre Retratos da Vida, de Lelouch. Eu ainda não tinha estudado cinema, apenas os escolhia através de alguns critérios poucos, com a recomendação daquele amigo ou amiga que tinham o mesmo gosto que eu. Mas sempre vi muitos bons filmes, desde que cheguei a São Paulo e o primeiro deles foi (ainda bem!) Belle de Jour, levada pelo meu amigo Marquito (que tem excelente gosto para cinema, ópera, teatro...) até o antigo Belas Artes -- que possuía apenas três, mas maravilhosas salas, principalmente a do meio, enorme, confortável... Hoje em dia, eu tremo em pensar que o filme que quero ver está lá naquele cinema que se tornou nome de banco e cujas salas são pra lá de ruins. Enfim, há coisas piores, um outro se transformou em nome de palha de aço, o que é bem pior, a meu ver. E tinha um nome lindo: Cinearte... (Mas ao menos a sala 1 é uma das melhores de São Paulo, em termos de beleza e conforto. Adoro ficar esperando as lindas cortinas vermelhas e grossas abrirem, à minha frente, magicamente... -- como se eu estivesse no teatro. Dá um certo frisson!). Enfim, eu tinha lá meus parâmetros cinematográficos, respaldados pelo fato de andar com pessoas interessantes do meio teatral, colegas do Equipe e professores diqueiros do mesmo (foi no Equipe que vi os primeiros filmes de Eisenstein, levados pelas mãos de Serginho Groissman, então diretor cultural do colégio/cursinho). E foi quando fui ver Retratos da Vida; afora os últimos minutos do filme, com aquele final apoteótico, eu tinha achado tudo muito confuso e, a bem da verdade, tudo uma porcaria. Mas falava-se dele. Ficou famoso, à época. E hoje vejo uma pertinente matéria de Cássio Starling Carlos sobre o filme, que sai em dvd, corroborando o que, de certa forma, intuí: o filme é brega, cafona, ruim. Bem ao gosto mediano da classe média que vê o cinema apenas como entretenimento, que vai "pegar um cineminha", como se diz... após almoçar o macarrão com frango com a sogra e deixar as crianças com a tia. (Oh, que maldade, a minha, agora! E que clichê!). Mas é que eu odeio esse tipo de cinema, que não é cinema, é só um filme, um filme a mais e pronto. Todos voltam para casa e continuam suas vidas e zero de reflexão (se bem que tenho uma amigo que consegue tirar leite de pedra; já o vi analisando com certa profundidade um filminho desses enlatados, que costumavam passar à tarde na televisão, desses em série e que são transposições ruins de personagens mitológicos, como mulheres corajosas da época das cavernas e que deixam transparecer o silicone colocado no século XXI -- algo assim...). Analisando é maneira de dizer, mas não é que este meu amigo se entusiasmava com tais lixos? Enfim; vivas ao cinema inteligente e sensível e sacado de Kielósvski (infelizmente, para poucos) e zero para o comentário de Inácio Araújo; abaixo Claude Lelouch (e o cinema massificado) e vivas à crítica acertada de Cássio Starling Carlos. Em tempo: há tantos anos fazendo televisão, como é que alguns apresentadores da rede Globo, como aquele rapaz gordinho do Videoshow e Angélica, ainda não sabem como usar corretamente a concordância verbal na língua portuguesa? Ambos dizem a torto e a direito: ele é um dos poucos que ficou... ele é um dos que sabe... (OMG!). É de fazer doer os ouvidos... E depois vem essa história de não precisar de diploma de jornalismo para exercer a profissão, para coroar a mediocridade que assola o campo da mídia... Quem viver, verá. E, em tempo ainda: assistir ao programa de Marília Gabriela entrevistando Angélica foi uma das coisas mais aborrecidas a que assisti este ano; a moça tem um vocabulário precário, uma bagagem cultural tacanha, não sabe filosofar, navega em águas mornas demais. Prefiro-a como a apresentadora energética que é, do Videoshow. Seu programa aos sábados deixa a desejar, também. Desperdiça bons momentos com bons entrevistados em perguntas medíocres e sem imaginação. Pena.
Escrito por isa às 10h50
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Se uma vez eu disse aqui que o melhor filme deste século, até agora, chama-se "Luz Silenciosa", devo dizer que descobri o segundo. Isto é, eu já sabia, mas foi revê-lo em dvd que me fez ter tal certeza. "Dúvida", com a excelente Merryl Streep, é o melhor filme deste século, depois de "Luz Silenciosa". Quando fui vê-lo no cinema, não sabia que era uma adaptação teatral; revê-lo, lembrou-me os diálogos precisos e o corte seco das cenas que se vêem nas peças teatrais (nas boas). O pingue-pongue que é o diálogo entre a irmã, vivida por Merryl Streep e o padre envolvido na trama, é uma das melhores coisas que vi em cinema nesses últimos tempos. Carrega aquele tom de dramaturgia, os diálogos inteligentes e as falas são como flechas disparadas em direção ao alvo certeiro, lépidas. Maravilha de texto, não à toa ganhou vários prêmios quando foi encenado no teatro. O tema. O tema é primoroso. O título chama-se "dúvida", mas poderia chamar-se "intolerância". D. W. Griffith, um dos maiores cineastas que os EUA conheceram, dirigiu um longuíssimo filme com esse título, "Intolerância", para falar do tema -- e ainda tão em voga nos nossos dias, um século depois. Sim, infelizmente é um tema que continua em voga e só quem passou pela intolerância, além da discriminação e, pior, foi alvo de uma fofoca inconseqüente, que trouxe um prejuízo irreparável para sua vida, sabe disso. A parábola do travesseiro e das penas espalhadas ao vento, contada em sermão pelo padre, é muitíssimo apropriada. Excelente. Paralelamente, há o caráter duro e inflexível da irmã, cheia de certezas e respostas prontas, sempre arrogante e assertiva; insensível; indelicada. Trata os demais com desprezo, desconsidera-lhes a fala, o comportamento e está sempre impondo-se, dando a última palavra e fazendo-se escutar sem nunca, ela mesma, escutar os outros. É a típica autoritária. E o que nos revela aquele final? Por detrás de um autoritário, duro, mandão, há sempre alguém frágil, mas que não é honesto consigo mesmo e os outros e esconde tal fragilidade, como se com isso fosse sair ileso. Agem assim os hipócritas, também. Magnífico filme! De fato. Indeed. Interessante como a questão do tempo é trabalhada ao longo do filme, sempre a metáfora recorrente do vento. E como os diálogos são pontuados por eventos externos, que sinalizam aqui e ali e vêm corroborar a fala dos personagens. O jogo de persianas, na diretoria, denuncia quem está tentando ficar no poder. A lâmpada que queima; o telefone que toca. A ventania anunciado desastres, confusão, malentendidos. Temporal e, naquele final brilhante, a neve. A perda da inocência (mas não da candura e do sentimento de compaixão) da jovem freirinha, que de início amava incondicionalmente seus alunos, a ponto de não querer visitar o irmão seriamente doente para não largar sua classe; depois sua explosão em aula, sem um motivo aparente, com um aluno e mesmo a confusão de sentimentos ao ver o padre abraçar o garotinho negro, Donald, sem mesmo dar-se conta do que se passou -- ela, no caminho também da intolerância e do preconceito, cujo campo minado fora muito bem plantado pela freira superior. Esta, lutando pela virtude, quando de fato seu passado também continha erros -- mas tal humanidade ela não conseguiu ver no padre, que ao que tudo indica (minha leitura), apenas estava protegendo o que a mãe de Donald chamou de "sua natureza". Mas o padre é ético. Não satisfaz a curiosidade da freira superior e prefere ser afastado ao relatar a conversa com o garoto. O padre: amigável, moderno, camarada, piadista, fumante, as tais unhas compridas -- o comportamento anticonvencional demais aos olhos da madre superior. Intolerância: a incapacidade de conviver com o diferente. E tudo aos poucos se equilibra: a jovem freira descobre que seu amor aos alunos não é incondicional e que pode, sim, ir ver o irmão em sua cidade natal; a madre superior, esta provavelmente não dorme direito porque tem... dúvidas. Finalmente, um instante de fraqueza -- humano! Belo filme, enfim. Depois de "Luz Silenciosa", é o mais preciso em termos de diálogos, corte de cenas, roteiro, composição de personagens, a que assisti nesses últimos tempos. Recomendo...
Escrito por isa às 23h44
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A vida é justa -- ou injusta? Depende. Porque a vida não é um bloco de concreto maciço, mas sim cheia de nuances e, portanto, temos que pensá-la com seus altos e baixos deixando de lado o determinismo. Para mim, se fosse buscar na memória momentos de pico em que ela se manifestou dessas duas diferentes maneiras, eu traria à tona dois episódios marcantes: senti que foi justa, quando ganhei um importante prêmio literário, o maior do país, à época, concorrendo com centenas de aspirantes a escritores. Mas considerei-a injusta, dias depois, quando soube que meus contos não iriam ser publicados pela alegação de faltas de verbas, destinadas ao referido concurso. E é incrível perceber que o infortúnio marcou-me mais, em termos do que fez a vida seguir seu curso, do que a felicidade de ter ganho o prêmio e ver reconhecido o que considerava como um dos meus talentos. Talvez por imaturidade da minha parte, fechei uma porta, a da ficção (embora jamais tenha parado de escrever, ainda que, à época, de maneira bissexta) e resolvi partir para um curso de pós-gradução (aliás, maravilhoso e que, conforme soube, já não é o mesmo, sem aqueles maravilhosos mestres, como Haroldo de Campos (literatura/tradução) e Samira Chalhub (psicanálise/Freud e Lacan), entre outros -- ambos já falecidos. Ou seja, eu troquei a ficção pelos "fatos", pela teoria -- justo eu que não gosto muito dos fatos e prefiro a poética e o lado simbólico da ficção. Enfim... -- coisas da dona vida. Mas não quero falar de mim e sim o que motivou esse texto. Às vezes vejo novela, às vezes, não; passei mesmo anos sem ver novelas e, às vezes, volto a elas. Estou vendo, apesar de ter pego o bonde andando, a tal Caminho das Índias -- e acho engraçado como os personagens se entendem maravilhosamente bem ao conversarem uns com os outros, apesar de parte deles morar no Brasil e, outra parte, na Índia. É de uma incongruência total, mas quem liga? Bom, eu ligo. Mas, sem isto, não haveria novela, não é mesmo? Bem, haveria, desde que os personagens que se encontrassem tivessem aprendido a referida língua estrangeira alguma vez na vida; mas a autora não considerou isto possível e desprezou tal dado, talvez por acreditar que todos que vêem novelas não se fariam tais perguntas. Não seriam movidos pelo espanto. Isso é substimar o povo? Mas não é disso que quero falar aqui, fica para uma outra vez. Quero falar da minha amiga atriz que mora na Alemanha e faz trabalhos pesados para sobreviver -- uma mulher talentosíssima, dona de uma voz macia e forte, de uma dicção maravilhosa (tivemos a mesma professora, quando estudamos teatro juntas, que chama-se Milene Pacheco e dava aulas na EAD da USP e também no nosso curso em Campinas... -- onde andará?). Pois bem, através das aulas dessa professora, aprendi a reconhecer quando um ator tem uma boa fala, uma boa dicção, no campo da dramaturgia, ou não. E penso o quanto a vida foi injusta com essa minha amiga e o quanto está sendo injustamente "justa" com alguns atores dessa novela. Atores que jamais merecereriam destaque, estão em evidência. A mulher que faz a personagem que tem um filho com um indiano -- não a Juliana Paes, a "outra"; meu Deus, que raios de atriz é aquela? Que pronúncia de texto é aquela? Que fala mais amarrada é aquela? Ao mesmo tempo, temos, em contraste, a excelente Laura Cardoso, esta sim, sabendo dar ênfase às palavras, como bem pede um texto de dramaturgia. E não é que tenho visto a tal atriz que mal sabe pronunciar um texto em várias capas de revista? Ela é bem magra e parece razoavelmente bonita ao passar por bons maquiladores e cabelereiros. E tem feito sucesso em revistas sobre dietas, essas coisas... Mas ela é uma atriz ruim. E, no entanto, já a vi no tal Videoshow em cenas de outras novelas, também com papéis de razoável destaque. Eu me pergunto: onde está o bom senso de quem escala tais atores? Vide Vera Fischer, num mau momento, quando parece um robozinho dizendo as falas, sem expressão, nada... -- certo que o papel é pequeno e isso pode "travar" um ator ou atriz, mas, se são bons, mesmo sendo dono de uma única fala, ele se sai bem. Não sei bem como minha amiga não conseguiu um lugar ao sol no ramo da dramaturgia, já que bem merecia estar brilhando num palco ou em algo para a televisão, dado o seu talento. Não sei bem como Paulo Coelho chegou à academia de Letras. Não sei bem como um dia um Collor ou os militares chegaram à presidência. Não sei bem como Susan Boyle perdeu para um grupo medíocre de dança num concurso de talentos na Escócia. Mas o certo é que, sim, muitas vezes a vida é injusta e, com isto, podemos vislumbrar vistosas medalhas brilhando em um peito que, a meu ver, o seu possuidor nada teve de heróico ou merecedor, para que isto assim seja. E assim é a vida...
Escrito por isa às 12h11
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Existem pessoas que, para começar bem o dia, necessitam de uma boa caminhada ou uma ida à academia ou correr em algum parque. Eu não; eu preciso de algum estimulante intelectual, que me faça sentir que sou um ser vivo e pensante. Que reflete e opina sobre o que lê, ouve ou vê. E hoje eu acordei mais cedo pensando em ir caminhar, já que está frio mas sol e é preciso aproveitar enquanto os terríveis dias nublados e de chuva não chegam para valer. Que nada. Após o café eu li o meu jornal diário, mas nada ali me pareceu estimulante e as notícias sobre o vôo da Air France me pareceram velhas, se comparadas ao que vi no noticiário do dia anterior. Resolvo dar uma espiada na tevê, coisa que não faço durante a manhã e vejo que está passando o Saia Justa, programa de que gosto muito. E lá está Maitê falando da diferença de sensação e sentimento; que as coisas que apenas lhe dão sensação não lhe interessam e que ela está interessada em sentimentos. O mesmo se passa comigo (aliás, eu possuo uma identificação incrível com as idéias da Maitê, em geral). Lembrei-me de um ano em que, na faculdade, alguns colegas próximos me convidaram para ir ao Playcenter (acho que é assim que se escreve); achei a coisa mais boba e chata do mundo, aquela maquinaria toda tentando me provocar algum tipo de felicidade, através da sensação. Lembrei-me, também, de quando eu era criança e fui na casa de uma amiga de escola, no Castelo e logo de entrada havia três balanços -- aliás, foi a primeira vez que tomei contato com o gibi Os sobrinhos do Capitão, os quais li avidamente ao invés de participar da brincadeira de casinha. Enfim, as tais balanças; eu sentei e comecei a me balançar suavemente e veio um pentelho ou uma pentelha e começou a me empurrar violentamente, para que eu fosse até o alto e sentisse algo vertiginoso, como se aquilo sim fosse me dar o prazer dos prazeres. Eu só me senti muito mal e com medo. Creio que foi quando optei pelos gibis ali no corredor externo da casa. Enfim, eu não gosto de sensações -- não gosto de filmes de Batman, não gosto da maioria dos filmes do Tarantino, não gosto de corrida de automóvel, não gosto de nada que me tire o fôlego e sim que me deixe calma, no meu lugar e me deixe refletir sobre o que estou passando; não só refletir, mas sentir. O excesso de excitamente, também, nas pessoas, como pessoas ansiosas ou de uma alegria exagerada, me aborrecem. Claro que uma boa gargalhada é gostoso, claro que um exercício intelectual na base do "freje" é interessante -- eu adoro um embate intelectual! -- mas não gosto de sentir ali que tem algo competitivo, narcísico, exagerado, abusivo. Nada que fuja do objetivo da troca, simples e pura de idéias, no sentido de esclarecer ou enriquecer uma idéia e, por conseguinte, o outro e a nós mesmos. Claro que me exalto, ao defender minhas idéias, muitas vezes, mas em nome de uma verdade, ou da justiça ou algo assim. O que não se deve é invadir o campo do outro. Balançando-me sem o meu consentimento, nas alturas, eu me senti tremendamente invadida e quis parar com a brincadeira. Aquilo, aliás, para mim, não era brincadeira, mas uma coisa de desafio muito chata. Hoje a Maitê me fez lembrar desse episódio em minha vida e reafirmar, com base em suas palavras, que gosto mais do sentir do que das sensações, propriamente ditas.
Escrito por isa às 11h13
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EU NÃO TENHO JEITO!
avenida Paulista, em foto de Bia...
Eu não tenho vocação para robô; nem para a disciplina, a não ser que tenha a ver com um romance que esteja escrevendo e o qual esteja me cativando muito, com o qual esteja envolvida -- aí não tem nada, nem o melhor programa do mundo que me tire da rotina. No entanto, gosto de caminhar todos os dias -- mas há aqueles em que, quando acordo, mesmo fazendo o maior sol, como hoje, eu me digo: acho que seria melhor levantar mais tarde e deixar a caminhada para depois (correndo o risco de uma chuva, um compromisso -- quase sempre uma sessão de cinema no meio do dia -- e o adiamento do programa, claro). Já houve dias em que tive de sair correndo para o dentista logo cedo, numa emergência, mas depois eu saía de lá e ia para o meu local preferido de caminhada e realizava a dita cuja. Hoje em dia eu não tenho tanta disciplina e percebo que é quando mais preciso. O ponteiro da balança não baixa há pelo menos dois anos (não que eu almeje, como a maioria das mulheres, ser magra e voltar a ter o meu corpo de adolescente ou de muito jovem -- não --, definitivamente este desejo não me persegue), as costas dóem e passar horas lendo ou em frente ao computador não é mais a mesma coisa. O corpo reclama dos maus tratos, enfim. Ontem fiz um esforço, levantei duas horas mais cedo do que de costume e fui caminhar na minha praça preferida, aqui do bairro mesmo. Este é pleno de ladeiras; eu não dirijo, então esperei pacientemente o ônibus que me levasse à tal praça. Para um dia de sol, está tudo certo -- meu humor fica muito bom num dia de sol. Mexe com a serotonina -- assim como os chocolates, os quais estou tentando evitar, com algum sucesso desde ontem.
Vinte minutos olhando os carros que lambem o asfalto vagarosamente; de repente, um pai todo de verde, com o filho de verde, este envolto em uma bandeira do Palmeiras; a menina está de rosa e segue à risca o modelito das meninas cujas mães não têm a menor criatividade para vesti-las. Carrega uma bolsinha rosa, também. É um trio harmonioso, embora eu sinceramente, do time, só considero que Marcos seja um bom goleiro. Não que eu entenda de futebol; não entendo nada. Assisto a TODAS as Copas e torço para dois times rivais, Corínthians e São Paulo, este último mais por um laço familiar com meu avô Tonico e para reforçar as lembranças do meu pai, que vive dizendo, quando o São Paulo ganha: meu pai ia estar contente, hoje. O Corínthians... eu nem sei por quê, acho que foi por uma frase do Rodrigo N..., quando a gente frequentava a mesma turma... ele viu um jogo do Timão e se emocionou com o apelo popular (numa época de ditadura, em que nós, chamados intelectuais e a favor de uma vida melhor para o povo, éramos completamente ignorados ou mesmo mal vistos por uma parcela da população, justo aquela a qual procurávamos defender... mas eles já estavam de cabeça feita, como dizia um amigo meu, àquela época). Conta a lenda e o que lembra a minha memória, que o Rodrigo ajoelhou no chão e achou a manifestação, pela celebração da vitória do time, algo tão grandioso como se aquela massa tivesse mesmo poder. Bom, a coisa ficou na minha cabeça e comecei a prestar atenção no carisma do time, na força da torcida e gostei do que vi... -- mas hoje em dia, o que eu gosto no time é de ver o Ronaldo jogar. Não adianta, eu sou muito atraída (ia escrever fanática, mas não é o caso) pelo futebol de Ronaldo, Kaká e Ronaldinho. Mesmo não tendo aquele sentimento burguês que é natural aos torcedores de futebol e que depois vão para um churrasco e um pagode ou saem buzinando pelas ruas ou agitam bandeiras. Não gosto de nada disso. Gosto do futebol em si, enquanto estratégia, enquanto jogo. E ver pela tevê. Eu gosto de um jogo; pena que não tenha com quem jogar uma boa partida de baralho ou Mahjong. Quando acampávamos, lá no começo dos anos oitenta, eu gostava até do mais simples jogo que fazíamos com as crianças, tipo Mico. Gosto de jogos. Ainda vou aprender a jogar xadrez, mas não tenho com quem jogar. Talvez com o computador, quem sabe... E eu dizia que fiquei esperando o ônibus por vinte minutos e valeu a pena; a praça estava ensolarada, as mães eram interessantes e não babás castradoras, brincando ali com os filhos pequenos. Mães criativas, compreensivas e amorosas -- atentas aos seus pimpolhos. Um pai de seus trinta anos estava absolutamente envolvido com as peripécias de seu menino de um ano e pouco. Bonito de ver. Fiz uma caminhada de 50 minutos, dez a mais do que costumo fazer; afinal, estou na fase: que venha a saúde em primeiro lugar! Depois me sentei no banco, longe do sol, mas perto o suficiente para receber seu calor e logo uma senhora de (disse-me depois) seus poucos mais de oitenta anos, mas forte ainda, senta-se ao meu lado e começa a puxar prosa. Seu nome é Maria Helena e é campineira; como morei muitos anos em Campinas, aproximadamente 17 anos, e onde passei infãncia e toda a adolescência, temos um prato cheio para um papo praticamente interminável. Mas ela quer ficar minha amiga e marcar um encontro no parque para amanhã (hoje); eu dou algumas recusas delicadamente e digo de mim o que já sei: sou imprevisível com meus horários. Se meu vizinho me deixa dormir, acordo tarde; se não, levanto cedo, mas com certa dificuldade de me organizar para sair, preferindo ler o jornal no sofá e depois enfiar a cara no computador. Aí é banho e ir para a rua, almoçar e fazer o que tenho que fazer. Ela se decepciona e diz: eu preciso de uma amiga. Na minha idade, todas já se foram. Meu Deus, penso, será que ela pensa mesmo que podemos ser amigas? Assim, depois de um papinho no parque? Ela me surpreende e me emociona e ao mesmo tempo me deixa com uma sensação muito ruim do que é ter mais de oitenta anos e nenhum amigo... Enquanto escrevo, o sol brilha lá fora; mas optei por sentar ao computador e escrever; quem sabe a caminhada fique para o período da tarde, apesar de que hoje tenho que ver um filme imperdível de mais de duas horas -- do Ang Lee...
De qualquer modo, não tenho vocação para ser robô e não sei ser disciplinada com horários para exercícios; aliás, preciso de uma esteira, mas quando penso numa, concluo: o melhor é acordar cedo e caminhar no parque. Ou seja: eu não tenho jeito.
Escrito por isa às 19h54
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Consegui acessar este blog e devo dizer que prefiro-o ao meu novo, pois ainda não consegui dominar todas as ferramentas deste. De qualquer modo, o que me motivou a deixar esse blog (além das dificuldades técnicas para entrar aqui), parece de algum modo resolvido. Apaguei alguns posts pois, numa troca de emails, tivemos -- a pessoa que os postou, e eu -- nossas diferenças (creio que) resolvidas a contento e, ademais, os posts, escritos impulsivamente, não eram nada agradáveis, podem acreditar! Para quê deixar manchas nesse blog, que realizo com tanto carinho? Creio que fiz por bem apagar tais posts, embora eu ache que qualquer um está no direito de se defender, se se sentir atingido e eu, de também me defender e colocar as minhas razões, se achar que houve injustiça no comentário. De qualquer modo, página virada. E, bola pra frente.
Escrito por isa às 12h15
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